Livre Opinião entrevista o escritor Daniel Galera

Daniel Galera (Foto: Renato Parada)

Daniel Galera (Foto: Renato Parada)

“Como vai a vida, filho?
E esse revólver? Pistola.
Tu parece cansado.
Tô meio cansado, sim. Tô treinando um cara pro Ironman. Um médico. O cara é bom. Ótimo nadador, tá se virando bem no resto. A bicicleta dele pesa sete quilos com os pneus, uma dessas sai uns quinze mil dólares. Quer completar a prova ano que vem e conseguir índice pro mundial daqui a três anos no máximo. Vai conseguir. Só que ele é chato pra caralho, tenho que aguentar. Tenho dormido pouco, mas vale a pena, ele me paga bem. Continuo dando aula na piscina. Consegui finalmente consertar a lata do meu carro esses dias. Tá zerado. Gastei dois paus. E mês passado fui à praia, passei uma semana no Farol com a Antônia. A ruiva aquela. Ah é, tu não chegou a conhecer. Tarde demais, a gente brigou lá no Farol. E acho que isso é tudo, pai. O resto segue como sempre. Por que tem uma pistola ali?” (Barba Ensopada de Sangue, p. 12, Companhia das Letras).

O escritor e tradutor, Daniel Galera, construiu uma interessante carreira na literatura. Expoente no uso do blog para a divulgação de seus textos, o autor mostrou uma nova alternativa de leitura. Galera também foi um dos criadores da Livros do Mal, editora onde lançou seu primeiro livro: Dentes Guardados (2003), seguido pelo primeiro romance Até o dia em que o cão morreu (2007).

Nesta toada vieram os romances Mãos de Cavalo (2006), Cordilheira (2008), vencedor do prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional. Em parceria com o desenhista Rafael Coutinho, publicou o álbum em quadrinhos Cachalote (2010) e lançou o romance Barba Ensopada de Sangue (2012), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria Melhor Livro do Ano. O autor também administra o blog Ranchocarne.

Daniel Galera concedeu uma entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate e comentou sobre a sua carreira na Literatura, a construção de seus romances e outros assuntos. Confira a seguir a entrevista na íntegra

Galera, você começou com contos, em Dentes Guardados, depois notamos no decorrer de sua carreira um escritor com maior “fôlego” para a escrita, chegando, até o momento, em seu último livro “Barba Ensopada de Sangue”, com uma narrativa densa e muito bem detalhista. Teremos o retorno do Galera nos contos ou atualmente é complicado perder o fôlego?

Por algum motivo eu tive dificuldade em retornar ao conto depois de escrever alguns romances enfileirados. Minhas tentativas de escrever narrativas curtas nos últimos anos resultaram em textos fracos que não publiquei ou desembocaram, à revelia das minhas intenções, em histórias longas. Não entendo por que isso acontece, mas respeito a forma que as ideias exigem quando inicio o processo de tentar escrevê-las. Espero voltar a escrever contos, é um gênero que me dá uma satisfação enorme.

Em sua mesa na Flip deste ano, no Sesc, ao lado de Ronaldo Bressane e Joca Reiners Terron, você disse que não tinha planos para escrever “Barba…” quando esteve por um ano e meio em Garopaba, cidade onde se passa a maior parte do enredo do livro. Então, o que te fez mudar de plano e escrever a obra?

Eu tinha planos de escrever alguma coisa durante minha temporada em Garopaba, mas não cheguei lá com a ideia desse romance. Ela surgiu nas primeiras semanas depois da minha mudança para lá. Assim que percebi que tinha o embrião de um romance, me dediquei a desenvolver e pesquisar essa história, absorvendo coisas que aconteciam à minha volta. As sensações da minha vivência em Garopaba foram importantes para os contornos do romance. O que não significa que ele é autobiográfico, pelo contrário, é em maior parte fictício. Mas é sem dúvida um livro muito pessoal.

Galera, a temática do “deslocamento” é muito utilizada na literatura contemporânea. Na sua obra esta temática aparece em diversos aspectos, exemplos  de “Barba…”, do protagonista que vive em uma cidade pequena, longe do centro urbano;  “Até o dia em que o cão morreu” notamos um protagonista deslocado do convívio social e afetivo;  temos “Cordilheira”, em que a escritora passa uma temporada em Buenos Aires para se deslocar de situações desagradáveis.  Poderia nos contar um pouco sobre a questão do deslocamento em sua obra?

Eu não considero a temática do deslocamento de maneira consciente na hora de inventar minhas histórias. Deslocamento é um conceito muito maleável, pode ser aplicado a diversas tensões e conflitos que aparecem em praticamente todas as boas histórias. Para ser sincero, não acho que seja uma chave muito útil para ver a minha ficção. Acho que meus personagens, em geral, podem ser melhor entendidos a partir da ideia de afastamento ou isolamento, e de suas tentativas de superar essa condição. As noções de identidade e de pertencimento em um mundo cada vez mais individualista explicam melhor, a meu ver, protagonistas como o Hermano de “Mãos de Cavalo” ou o narrador de “Até o dia em que o cão morreu”. Em “Cordilheira”, o deslocamento é um elemento mais visível, pois a personagem empreende uma fuga concreta, e um tanto cínica, da sua vida cotidiana para atender a alguns caprichos, entre os quais está uma obsessão com a maternidade.

Na nossa literatura, a questão da busca de identidade sempre foi abordada em diversos livros, um dos traços interpretativos  marcantes sobre o conceito de identidade  em “Barba…” é a condição neurológica do protagonista, que não consegue memorizar os rostos das pessoas, nem o próprio. Como foi a ideia para a construção desta “busca de identidade” no protagonista?

A busca de uma identidade é mais clara no Hermano de “Mãos de Cavalo”, mas no “Barba ensopada de sangue” eu não acho que essa busca possa dar conta dos objetivos e anseios do personagem. Ele está às voltas com uma questão de identidade ao procurar saber mais sobre o avô, com quem se identifica de maneiras variadas e um pouco perturbadoras, e nesse sentido existe uma espécie de “herança de identidade” no livro que dá margem a uma série de situações e conflitos que me pareceram legais de explorar. Por outro lado, ele é um homem que sabe muito bem quem é, não tem dúvidas ou ansiedades com relação a isso. Sua identidade é clara e ele a reconhece. O que ele não tem ainda é o seu lugar no mundo, acho, e ele encontra esse lugar justamente em Garopaba. A história dele pode ser vista como o processo de encontrar e se encaixar nesse lugar.

O que o Daniel Galera de hoje falaria para o Daniel Galera do começo da carreira?

Eu entregaria a ele pacotes lacrados com datas exatas para serem abertos, coincidindo com o momento de conclusão de cada um dos meus livros. Nesses pacotes haveria os manuscritos dos meus romances revisados por mim hoje. Revisão é um processo sem fim.

Galera, o site chama-se Livre Opinião – Ideias em Debate, ou seja, este final da entrevista é um espaço livre para o entrevistado desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Tem algo a dizer?

Sim. Que o mundo não é feito nem de linguagem nem de ideias, e sim de coisas.

Entrevista: Equipe Livre Opinião

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2 comentários sobre “Livre Opinião entrevista o escritor Daniel Galera

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