Coluna 31: “Aperitivo”, por Lucimar Mutarelli

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Quando eu ligava pra minha mãe dizendo que ia almoçar lá ela sempre perguntava: quer comer o quê?

Hoje eu imito a minha mãe: primeiro porque quero agradar a minha família e meus convidados e segundo porque é um saco todos os dias pensar no menu

Eu não gosto de frango nem de peixe então as opções de mistura são restritas, até já criei aqui o dia sem carne, o dia sem fritura e o dia sem comida congelada

Uma dona de casa tem que ser muito criativa. Só quem é sabe. Fora que é um trabalho que não acaba nunca, jamais. E você nem tem que sair pra trabalhar. Levanta da cama e já começa

Quem me vê falando assim logo imagina uma dona de casa perfeita, limpa e preocupada

Eu não cuido demais da minha casa

Cuido do que precisa e do que é urgente, tipo comida, roupa e louça. Louça mais ou menos porque meu marido ajuda muito nesta parte

Mas por que eu estou falando disso mesmo?

Ah, hoje a Mariah, amiga de oficina literária, pediu no grupo sugestão de livros para ler

E fiz a associação com a comida. Aos 11 anos eu ganhei uma coleção de livros na escola e um deles fazia parte de uma coleção “Para gostar de ler”. Eram histórias bem curtinhas que pareciam servir de degustação para algo maior. Hoje eu não concordo que um micro conto sirva de introdução para ajudar alguém a ler livros maiores. Depois de três anos na sala de aula com Marcelino Freire, uma das melhores lições é que cada narrativa encontra sua própria força nas palavras e são elas que nos alimentam

Associei imediatamente aos Titãs: “você tem fome de quê?”. O que te apetece hoje? Quer comer um conto, um clássico francês do século 19 ou um bom brasileiro da escola realista?

Pergunto ao Google: “quais são os 100 maiores clássicos da literatura mundial” ou “autores brasileiros vestibular”. Por que precisamos ler? A fome de ler se compara a fome de escrever?

Assim fica fácil: quando estou lendo, então estou comendo e quando escrevo devolvo o alimento pro outro. Antropofagia, vide Semana de 22

Estive no programa gastro literário da escritora Ivana Arruda Leite onde ela cozinha para um escritor (no caso dois, eu e meu Lourencinho) e enquanto ela preparava o prato a gente ia conversando

Impossível não lembrar da cozinha da casa onde cresci. Meu lugar preferido até hoje na maioria das casas que frequento. Na cozinha está presente a química, a distração, a música para fazer companhia enquanto cozinho ou lavo a louça. Na cozinha está minha mãe, meus irmãos, todos os meus sobrinhos e sobrinhos netos e meus amigos em pé, diante do fogão preparando um prato simples ou sofisticado

É lindo o ritual que meu marido prepara quando vai cozinhar: potinhos que separam a cebola picadinha do tomate ou da azeitona. Ele tem todo um critério na sua vez de fazer o almoço ou a janta. É suave. Eu tenho pressa, vou no básico, arroz, feijão e carne moída. Um caos, sem refinamento, sem tempo, sem medida

Perco a hora de ir no sacolão para escolher a mistura e, na maioria das vezes, acabo deixando pra ele a tarefa de decidir qual será o alimento do dia. Virei dependente das suas escolhas. Como o que ele decide

Durante os vinte anos em que fui professora, não comia ficção. Só a do meu marido. Estava muito envolvida com livros de História da Arte, provas para preparar ou para corrigir. Cuidava somente da produção do outro

Foi em 2008 que, ao ser demitida de uma escola de uma maneira trágica e passar três meses chorando no sofá, sem vontade de comer ou cozinhar que Lourencinho me aconselhou a fazer um trabalho menos cansativo e distante dos corredores escolares

Optei por uma livraria que foi meu primeiro emprego em 1985, Livraria Saraiva. Indicação da amiga Vera Lucia

Lourenço zombou de mim porque pedi a um aluno, daqueles que viram amigo pra sempre, que entregasse meu currículo na Livraria da Vila. Não era preguiça, o Pablo morava do lado da loja da Fradique e passava em frente todos os dias. Deu sorte. Fui chamada e voltei a engolir ficção

Fiquei perdida no começo porque eram tantos pratos servidos e, muitos intragáveis, que a gente não sabe por onde começar. Depois de um jejum de 20 anos cair assim num banquete literário, com todos os alimentos ali  disponíveis, tive umas dores de barriga, não por comer muito mas de ansiedade de saber o que eu queria comer

Do outro lado da ficção, sofro para escolher as letras, as palavras certas. Ingredientes para preparar os pratos e servir a vocês. Tempo de preparo de um conto um romance um verbo mal passado ou um substantivo melhor frito ou assado. Ando cozinhando letras

Quando conheci o Lourenço, comia arroz, feijão, carne moída e tomate. Ele foi me ensinando: como você pode saber se não gosta se nem provou? Se você me ama, experimenta

Ler é igual a comer

Você começa degustando, aos poucos, um pouquinho de salgado, um tiquinho de doce, frutas, alimentos industrializados e os veganos

Depois você aprende a diferenciar os pratos mais sofisticados as massas, os peixes, as entradas e os pratos dos grandes chefs

O importante é comer sempre

Mas não só literatura, Arte em geral

Meu marido sempre diz que quem cria não pode beber da mesma fonte

Tem que se inspirar fora para trazer para dentro do seu trabalho

Tipo comer fora

Opa, será que o meu marido está falando da mesma coisa que eu?

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