Ocupa ação, por Marcelo Flecha

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De 01 a 17 de agosto desenvolvemos o projeto Teatralidades: a Pequena Companhia de Teatro ocupa Sousa, no Centro Cultural Banco do Nordeste, na Paraíba. Quando pensamos em ocupação, pensamos em como aproximar determinada comunidade das nossas práticas artísticas, das nossas metodologias de construção, das nossas experiências como coletivo, e dos nossos prazeres e desprazeres.

A ideia não é a simples passagem pela cidade, o intercâmbio de uma apresentação, a citação do nome decorado de véspera. A proposta é oportunizar, a quem interessar possa, o acesso aos mecanismos que movem a construção teatral de grupo, seus anseios, frustrações, acertos e equívocos.

Minha experiência pessoal com esse tipo de iniciativa provém da época em que morava no interior do estado do Maranhão – onde somente recebia – e sei da importância que esse tipo de iniciativa tem para o fortalecimento do movimento cultural de uma cidade, quando a ação é realizada de maneira honesta, contínua e responsável.

O que tenho ouvido por aqui reforça o acerto da nossa proposta e política, pois o que surpreende os artistas moradores de Sousa é o fato de que forasteiros programem uma jornada tão extensa e com tantas atividades (1 lançamento de projeto e livro, 4 oficinas, 2 leituras dramáticas, 8 apresentações e 8 debates), tendo em vista que a prática mais corrente se restringe a poucas apresentações e alguma oficina.

O curioso é que o projeto inicial propunha a ocupação por um mês, com mais atividades, entre elas, a temporada do nosso outro espetáculo em repertório, “Velhos caem do céu como canivetes”, que reforçaria o intercâmbio, pois o cidadão interessado teria acesso a uma mostragem mais abrangente da Pequena Companhia de Teatro e, dessa forma, ficaria assegurada à comunidade de Sousa o contato com o fazer teatral de um grupo de teatro maranhense, fato que raramente seria possível, não fossem os mecanismos facilitados pelo Ministério da Cultura, através da lei de incentivo, e pelo Centro Cultural Banco do Nordeste.

O que fica em suspensão na minha mente, sempre que reflito sobre o nosso fazer, e sobre a responsabilidade que dele emerge, é até quando a transformação promovida por muitas pequenas células como a nossa (leia-se incontáveis grupos de teatro comprometidos) será viável dentro de um mercado cada vez mais selvagem, feroz e furioso? Como controlar essa selvageria que não nos permite mais parar, conhecer, trocar, dialogar, refletir?

Se não tomarmos cuidado, a experiência teatral também pode se tornar a quintessência do mercado – onde tempo é dinheiro, arte é mercadoria, e artista é celebridade – e nós outros padeceremos pela pretensão utópica, elixir supremo de qualquer atuante cultural que minimamente sonhe com a transformação do nosso entorno, o mundo.

Marcelo Flecha

Diretor e dramaturgo, é um dos idealizadores da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA). Publicou o livro Cinco Tempos em Cinco Textos: Dramaturgia Reunida

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