Um lugar para voltar, por Marcelo Flecha

Detalhe do sítio paleontológico que eu não queria visitar

Detalhe do sítio paleontológico que eu não queria visitar

No decorrer dos últimos vinte anos o teatro me levou para os lugares mais inesperados; destinos impensados, basicamente, porque sou um homem avesso a empreitadas, alheio a aventuras, indolente a descobertas. De Macapá a Ijuí, de Catania a Palmeira dos Índios, de Owatonna a Castanhal, de New York a São Paulo, de Taormina a Rio do Sul, de Mossoró a Chapecó, visitei quase uma centena de cidades que jamais seriam meu destino, não por falta de atrativos – é que não sou afeito a passeios, ou, como diria na intimidade, nem de turismo eu gosto.

Experiências singulares, todas, que de alguma maneira influenciaram minha visão de mundo, meu sentido de pertencimento, minha relação com o desterro, minha vida. Qual fosse a cidade, sempre tive a sensação de que jamais chegaria até ela se não fosse o teatro.

Em que momento da minha vida eu decidiria passar vinte dias na cidade de Sousa, na Paraíba, para conhecer o Luizinho, o Felipe, a Adriana, a Rose, o Kleyner, ver pegadas pré-históricas, discutir o ponto da carne no Restaurante Mussambê, ver uma exposição no Centro Cultural BNB? Nunca. E eu teria perdido uma chance inusitada de continuar entendendo este Brasil, sem intermediários, sem guias, sem o mercado do turismo que tanto distorce a realidade.

O teatro. O teatro promoveu duas décadas de “turismo” constante a um ranheta contumaz, porém, permanentemente disposto a pegar o primeiro volante, avião, ônibus ou barco para levar um pouco de teatro ao espectador mais improvável, e surpreendê-lo com a própria circunstância do inusitado encontro, ver um espetáculo de São Luís do Maranhão.

Se eu tratasse das minhas viagens fora do teatro sobraria muito pouco o que contar, e o destino primordial seria quase sempre o mesmo, Buenos Aires, cidade de onde saí aos dez anos e que nunca termino de visitar. Foi de lá que parti para a primeira viagem sem ter a menor noção de que minha vida seria viajar em busca de espectadores e retornar em busca do meu lugar.

Portanto, agradeço ao teatro. Sou grato à Pequena Companhia de Teatro, ao Centro Cultural Ópera Brasil, e a todos os grupos e companhias de teatro que me levaram a experimentar o sabor de morar no mundo e descobrir as delícias de ter um lugar para onde voltar. É no retorno que se entende o motivo da partida. Partamos, então, rumo ao desconhecido, com a certeza de que a nossa casa sempre nos espera.

Marcelo Flecha

Diretor e dramaturgo, é um dos idealizadores da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA). Publicou o livro Cinco Tempos em Cinco Textos: Dramaturgia Reunida

 

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