Coluna 33: “Dança que passa”, por Lucimar Mutarelli

Foto: Lourenço Mutarelli

Foto: Lourenço Mutarelli

Quem lembra dos bailinhos que aconteciam nos quintais e na escola? A dança com a vassoura, as meninas encostadas na parede esperando os meninos tirarem pra dançar

Rosaninha me conta que ensaiávamos coreografias no quintal da minha casa. A memória dela, na hora, reconstruiu os passos, a música, a colagem com papel laminado colorido formando um sorvete na camiseta e a faixa na cabeça pra ficar parecida com Olivia Newton John cantando Physical

Antes disso minha mãe fez um conjunto que combinava a calça com o colete. Procurei muito e não achei uma foto com a roupa. Gostava de usar com uma camisa branca de bolinhas azuis e vermelhas e dançava, na frente da TV, imitando Sidney Magal, Gretchen, Xuxa e as chacretes. Nos pés, Melissa com meia listrada e colorida e brilhante

“por isso canta, dança, grita”

Com a Vera frequentava a matinê do Scorpions. Era lindo de ver o início do passinho de um grupo ir se reproduzindo pelo salão todo. Michael Jackson, Madonna, Tim Maia, funk, samba rock e música lenta. Dançávamos tudo. Claro que na hora da lenta vinha de novo aquele constrangimento dos meninos de um lado e as meninas do outro e não tinha nem a vassoura para ajudar no divertimento

Em 1985 fiz um curso de dança com a Sueli Kimura. Minhas primeiras polainas. Centro Cultural do Itaim Paulista. Iniciação ao balé. Lembro direitinho das poses básicas dos pés mas não consigo lembrar que participei da apresentação. A professora até me indicou na foto. Não me reconheço

Logo depois fui estudar em São Miguel e os bailes ficaram mais longes de casa. Foi a vez de Legião Urbana, Titãs, Ira, Paralamas, Ultraje a rigor, RPM, Capital Inicial. Dançávamos loucamente. No pátio do colégio Dom Pedro e nas festas nas casas dos amigos, decretávamos o fim de dançar aos pares, agarradinhos, era a hora de uma dança coletiva e solitária, forte, instintiva. A gente queria só se divertir e cantar bem alto: “temos todo o tempo do mundo”

Bailes de Formatura são os meus preferidos porque tem um roteiro sempre muito certinho: anos 50 e 60, Elvis, Beatles, Jovem Guarda, Abba, Queen, tudo junto e misturado nos anos 70, rock nacional para 80 e nos noventa, a tia para e senta porque não gosta de house, techno, música eletrônica e só volta pra pular no axé, marchinhas antigas carnavalescas ou para imitar as sobrinhas no bonde do Tchan e do Tigrão

Zil, Vânia e Erica me ensinaram o caminho das boates no centro e do Projeto SP. Com elas, mais a Elaine, vieram o momento barzinho e violão onde a gente não dançava mais, só sentava e ficava cantando junto Chico, Caetano, Lô Borges, Almir Sater, Bethânia, Simone e todo o Clube da Esquina. Foram anos mais calmos. Contemplativos. Estava lá para assistir não para dançar

“ainda gosto de dançar, bom dia”

Educação Artística, Unesp, Faculdade de Artes e a Dança nem era mencionada. Nós que fazíamos um monte de festa para dançar a noite inteira, quadrilha, festa do mundo antigo, escória, os temas eram somente pretextos, a gente gostava mesmo era de festa. Louise, Ana Cláudia, Regina e Dri Andrade, testemunhas, cúmplices

1991 trouxe meu par perfeito. Lourenço foi me levar na rodoviária para o casamento da Simone Prato em Fernandópolis. Não conseguimos nos despedir. Dançamos, muito. Ele toca nossa playlist e me arrasta pelo salão. É segredo. Não deixa ele saber que eu contei – carinha amarela sorrindo e piscando sempre, dois corações

Adoro vídeos e apresentações de danças. Sejam elas dos sobrinhos netos ou dos amigos adultos. Nesse momento lembro aquela do menino que se empolga no estádio (obrigada Priscilla Amaral) e outro que, enquanto todas se esforçam para seguir a coreografia corretamente, uma das meninas se destaca porque ela está lá só para se divertir. E isso é dança, pra mim

A Simone Noronha citou numa conversa aquele boneco de ar que decora postos e lojas e, agora, enquanto escrevo, associo com o ato de dançar. Dependendo da música que toca, meu corpo se infla, vibra meu sistema circulatório e eu saio me movimentando do jeito que vem a emoção

No final dos anos 90 fiz outra oficina mas a professora se dizia contra dançar de acordo com o ritmo da música, ela propôs outro conceito, não gostei, fugi. Fiz as pazes com a dança contemporânea na companhia de Vanessa Macedo e Iolanda Sinatra. Dica do Roberto Alencar, outro que dá gosto de ver dançar. Muito mais do que a rima pobre, ver o Beto tão concentrado, dançando, é a prova concreta de que realmente a dança é uma grande linguagem artística e foi completamente ignorada pelos meus professores na graduação. Um exercício e forma de expressão tão prazeroso devia ser disciplina obrigatória, do berçário ao asilo

Tem um vídeo que meu marido sempre lembra e passa pra gente: Chrstopher Walken dançando. Se você gosta de dança, joga no Google e veja agora, uma delícia deliciosa. Mesmo

Lourenço criou uma oficina: aulas de desenho para quem acha que não desenha e de escrita para quem acha que não escreve. Pedi pra Vanessa e para a Iolanda que elas deveriam criar um curso assim. Para quem acha que não dança

Lourenço diz também que desenhar é tipo uma dança quando fala sobre a sua maneira de conduzir o pincel. Prefiro escrever a mão para desenhar as palavras. Desde criança tenho uma mania de colocar um fio de cabelo na ponta da caneta e brincar com ele no papel. É lúdico. Terapêutico, sempre

Em 2004, colegas do Colégio Etapa me levaram para conhecer a Trash e, desde então, descobri o meu lugar para dançar

Abraço a Amanda e cantamos unidas: “sempre em frente, não temos tempo a perder”

Paro um momento: água, recuperar o fôlego que obviamente aos 46 anos não é mais o mesmo e procuro no corpo das pessoas aqueles que estão lá pelo mesmo motivo que eu. Olho em volta e conto que a maioria tem mais de 30, na cabeça, 16

Dançar para se reencontrar com quem você era na infância e adolescência

Danço comigo

Um dorflex antes. Um dorflex depois

Ninguém precisa saber disso

“o mundo vai acabar e ela só quer dançar, dançar, dançar”

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