Fábio Moon e Gabriel Bá ao LOID: “Um bom clássico pode ser contado e recontado em inúmeras linguagens”

Os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon (Foto: Divulgação)

Os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon (Foto: Divulgação)

O Alienista, de Machado de Assis, A Metamorfose, de Franz Kafka, O Cortiço, de Aluísio de Azevedo. Além de serem obras que – cada uma em seu tempo – são marcos da literatura, agora elas também têm outro traço em comum: todas ganharam adaptações para os quadrinhos. O interesse por HQs que têm obras da literatura como origem parece grande e o número de adaptações lançadas nos últimos anos tende a comprovar isso – há até adaptações de obras da filosofia como A Utopia, de Thomas More e Cândido, ou o otimismo, de Voltaire.

Capa da HQ "Dois Irmãos"

Capa da HQ “Dois Irmãos”

Mas hoje falaremos de mais uma obra a entrar neste rol: Dois Irmãos, de Milton Hatoum. O trabalho do autor manauara ganhou neste ano adaptação para os quadrinhos pelas mãos dos também dois irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. A dupla paulista, que começou a ganhar notoriedade com a fanzine 10pãezinhos (com volumes publicados e hoje também blogue dos irmãos), coleciona prêmios e reconhecimentos de peso. Entre eles Eisner e Harvey Awards (por Daytripper) e o Jabuti de 2008, pela primeira obra citada aqui, a adaptação de O Alienista. Além disso, Daytripper, espetacular obra da dupla, é – segundo a Panini, que edita o HQ – uma das mais vendidas nos Estados Unidos, ocupando a lista de best-sellers do The New York Times.

Entrevistamos os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá para saber o que os levou até os irmãos Yaqub e Omar, de Dois Irmãos, e como foi o processo de adaptação da obra de Milton Hatoum – uma das mais importantes da literatura contemporânea. Leia a entrevista:

Livre Opinião – Ideias em Debate: Como foi o contato de vocês na obra Dois Irmãos? E como aconteceu o projeto de adaptar a obra para os quadrinhos?

Gabriel – Quando o romance foi lançado, chamou a atenção do Fábio por se tratar de uma história de irmãos gêmeos e ele foi atrás e leu o livro. Foi só em 2009, durante a FLIP, onde conhecemos pessoalmente o Milton, que surgiu a ideia de adaptar o romance para os Quadrinhos. A ideia foi do André Conti, editor de Quadrinhos da Cia. das Letras. Como o Fábio já havia lido, sabia que era um livro longo e denso e achou que seria muito trabalho. Eu ainda não havia lido, mas tínhamos acabado de adaptar O Alienista do Machado de Assis em 2007, e não pretendíamos fazer outra adaptação tão cedo. Mas depois de insistirem um pouco mais, eu fui ler o livro e me apaixonei pela história. Realmente era um livro longo, complexo, seria muito trabalho, mas se mostrou o desafio perfeito que estávamos procurando para um novo projeto.

Quanto tempo de trabalho na adaptação do livro para os quadrinhos? Tiveram, além do romance Dois Irmãos, outras influências culturais – cinema, música, fotografia, livros, quadrinhos etc. – para a ideia da narrativa e enredo?

Gabriel – Levamos quatro anos ao todo neste trabalho, no início intercalando com outros projetos, depois focando completamente nele para conseguirmos terminar.

Fábio – Dois anos foram só trabalhando no roteiro, sem fazer nenhum esboço. Foram muitas leituras do livro, fizemos vários resumos, linha do tempo, lista de personagens, locais, plantas e animais que apareciam na história.

Gabriel – Quando começamos o projeto, viajamos para Manaus para conhecer a cidade e entendê-la. Foi fundamental para imaginar as cenas, os caminhos dos personagens, conhecer os bairros, ver o que ainda permanece lá e imaginar o que desapareceu com o tempo.

Fábio – Além das fotos e livros que trouxemos de Manaus, pesquisamos muito pela internet, principalmente numa página do Facebook chamada “Manaus de Antigamente”, com muitas fotos antigas da cidade, da virada do século XIX pro XX, até a década de 70.

Gabriel – Chegou um momento que eu não conseguia ler outros livros, ver filmes, ver mais nada de diferente, só pensava na história do livro, na cidade da história, nos personagens, em como transformar tudo em Quadrinhos.

Desenho da HQ "Dois Irmãos"

Desenho da HQ “Dois Irmãos”

Dois Irmãos, assim como todos os livros de Milton Hatoum, utiliza-se de uma singular prosa-poética. Como foi a construção dos diálogos, assim como a narrativa para outra arte, no caso os quadrinhos.

Fábio – Essa foi uma das maiores preocupações com os Quadrinhos, pois nosso desafio era manter ao máximo o estilo do Milton e, ao mesmo tempo, conseguir traduzir a poesia em desenhos.

Gabriel – Foi preciso estudar bem quais textos seriam mantidos nas recordatórias, na narração, e quais seriam transformados em diálogo para dar mais dinamismo à história. Também criamos várias cenas em silêncio, onde os desenhos contam tudo, uma ferramenta que os Quadrinhos possibilitam.

Em entrevista concedida ao Livre Opinião no ano passado, Hatoum comentou que não se intromete nos trabalhos de adaptação de sua obra, ele havia falado da série televisiva de “Dois Irmãos”, produzida por Luiz Fernando Carvalho. E com vocês, houve total liberdade criativa também?

Gabriel – Ele nos deu liberdade total, não se meteu em nada. Nós também não o solicitamos para quase nada, pois queríamos confiar nas nossas impressões do livro.

Fábio – Durante os quatro anos de produção da HQ, nós só perguntamos a ele dicas sobre Manaus quando visitamos a cidade e mostramos a ele os rascunhos iniciais dos personagens, e ele foi fundamental na construção da Zana, que estávamos criando diferente do que ele imaginava. Foi crucial conversar com ele nesta etapa.

Gabriel – Encontramos com ele em eventos, mas não perguntamos mais nada, nem ele quis ver como andava o trabalho. Ele sabe que o processo é difícil e demorado e respeitou isso. Nós só mostramos páginas prontas para ele, quando já tínhamos capítulos prontos.

O trabalho visual da adaptação é incrível. O que levou mais trabalho, assim como a pesquisa, na realização da obra de vocês: o ambiente de Manaus ou a construção das personagens?

Gabriel – Tanto a cidade quanto os personagens mudam muito ao longo da história. Entender estas transformações foi a parte mais difícil, depois de várias leituras do livro.

Fábio – A medida que fomos construindo a história, os personagens foram se transformando daqueles descritos pelas palavras do Milton para os desenhados nas páginas da HQ. A cada nova cena, crescia a intimidade com aquela família, com os cômodos da casa, com a praça e o porto.

Gabriel – Mais importante era conseguir entender e passar as emoções contidas no romance, o sentimento por trás da história. Todas as escolhas feitas no texto e na arte queriam passar estes sentimentos.

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Desenho da HQ “Dois Irmãos”

Já tivemos clássicos da literatura adaptados para quadrinhos e cordéis. Vocês acham que é um bom caminho obras literárias serem adaptadas para os quadrinhos? Embarcariam mais uma vez em outra adaptação literária?

Fábio – Um bom clássico pode ser contado e recontado em inúmeras linguagens, descoberto e redescoberto por novos  e diferentes leitores. Se o trabalho for bem feito, todo mundo sai ganhando.

Gabriel – Estamos muito orgulhosos do resultado desse trabalho, mas acabamos de fazer uma adaptação literária e não estamos pensando em fazer outra, por enquanto.

Fábio e Gabriel, como o próprio nome do site (Livre Opinião – Ideias em Debate) pode sugerir, deixamos este final da entrevista como um espaço livre para o artista desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Vocês têm algo a dizer?

Gabriel – Os eventos de Quadrinhos, pequenos ou grandes, têm se espalhado por todas as partes do país e isso tem ajudado tanto os autores independentes a encontrarem o público, como ao público a encontrar os autores e os livros que dificilmente ele acha nas livrarias, mas acho que as editoras ainda podem fazer um esforço maior para participar destes eventos, montar estandes, levar os livros dos autores convidados. A presença das editoras fica muito dependente da livraria ou loja local. Acho que, enquanto os autores precisam dar a cara pra bater, as editoras estão sempre na defensiva, jogando na segurança. Se a distribuição ainda é um dos maiores problemas do mercado nacional de Quadrinhos, os eventos tem oferecido a chance de estreitar as distâncias. Os autores têm aproveitado essa chance, mas as editoras precisam ter mais coragem e arriscar mais.

Durante o Festival Gaveta Livre, realizado no final de junho deste ano, Fábio Moon e Gabriel Bá concederam um depoimento em que contam o que guardam na gaveta. Confira no vídeo abaixo.

 

Entrevista: Equipe Livre Opinião

3 comentários sobre “Fábio Moon e Gabriel Bá ao LOID: “Um bom clássico pode ser contado e recontado em inúmeras linguagens”

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