DAMA DO LODO: “FéDeMenos”, por Marina Filizola

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Tem dia que tem dó.

Desperto desordenada, o raciocínio desfigurado.

São rajadas de ondas cerebrais inclassificáveis. Nada se equilibra.

O dedão do pé virou migalha depois da milagreira dose de endorfina mal-calculada de todo dia. Pois é, eu não sei me comportar.

Nem controlar.

Ou me importar.

Sim, com meus atos.

Todos eles.

Me conservo letárgica apática e indiferente.

Ensimesmada com o espelho com meu cabelo com a sujeira incompreensível da minha pele estéril. Tudo bolhas, uma muntueira de disfarce, sei bem, nunca me vestiu essa

desgraceira.

Mais um dia o único dia um dia de cada vez. Faz dias que as horas rastejam cegas.

Atravancam meus hábitos vagabundos, fajutos, desesperados.

Nem se esfregassem o Alcorão na minha fuça, nem assim.

Teimosa cabeçuda resistente, frise com letras maiúsculas meus adjetivos de estimação,

faço do meu jeito. E ponto final.

Decorar, decorei tudo. Como mandaram. De trás pra frente. “Fique hoje, volte amanhã” em cinco idiomas diferentes.

Não adianta, não consigo dar conta de mim.

Vinte dias no máximo, de abstinência renuncia e castigo. Um celibato.

Depois é aquele arregaço: o telefone constipado, contaminado, vinte e sete mensagens sem retorno.

“Tá viva? Tá morta? Responde delinqüente!”

Vão dizer o quê?, “coitada da menina, tem doença progressiva..”

Vai brincando.

É Viciada Pervertida Deturpada, disso pra baixo. Tô dizendo.

Seguir sigo sempre, sou cabeçuda com diploma, são trombadinhas meus primeiros pensamentos. Desmedidos, grosseiros, inconstantes.

As minhas vontades me traem.

O tempo todo.

Não acredito em nada que venha de mim.

E em nenhum representante da fé, em nenhum Deus que não dance. Eu finjo estar bem e basta. E todos fingem se importar com isso.

Minha religião?

Um pano azul encardido.

Problema horroroso esse, ter fé demais ou de menos. Tudo fede.

Isso mesmo, tenho enjôo de gente.

Todos se enquadram, não há santo que se salve.

Minha mãe o ex e as quatro irmãs, todos crescendo um dentro do outro, sentem por dois e mijam por cinco, faz o favor, não agüento. Catalogam defeitos endeusam doenças

prescrevem remédios, adoram conselhos que não usam. Isso se chama Família.

Povo tóxico, pior que inimigo. Vírus hospitaleiro, um veneno.

Fumar maconha não pode, tô sabendo.

Antes era só vista grossa, mas agora o quê? Essa depravação deslavada, pra todo mundo saber. Queria ver fumar pedra na esquina tempo atrás, pensa o quê, era calamidade coisa dessas á vista.

Hoje, foda-se.

Esparramaram os vícios por todas as esquinas.

Seda na banca ninguém comprava, que vergonha, nem pense. Era guardanapo de boteco ou folha de bíblia. E olhe lá.

Eu amava escolher santo e versículo pra carburar fumo sagrado, passa-tempo dos infernos.

Na minha época só dentro de casa, no quarto trancado a chave tetra.

Agora isso.

Resta “Eu” sem artifícios.

Tô perdida, eu sei. Sem saída.

Depois que tirei a droga sobrou eu comigo mesma, não tenho mais como justificar o processo.

Não tem como. O povo precisa de provas, de ação, de vacilos, de protesto.

Doençinha silenciosa da peste, nem explicando numa maquete. Não dá conta do processo.

Acendi vela em umbanda, tomei passe pra encosto. Mas meditar de que maneira,

me explica?, com a cabeça atarantada desse jeito.

Se nem tiro pijama dia inteiro, se afundo pára-choque na garagem de casa, se nem sei escolher entre vermelho ou preto saia ou calça casamento ou velório, não consigo.

Fui roubada.

Levaram de mim o poder da escolha.

Tento explicar que nem sentar sem espasmos, nem fazer unha sem tremer, nemcagar em paz. Não sei ficar comigo meio centésimo de segundo sem desvairar, nada disso.

Estou descarrilhada.

Fazem anos que perdi meu eixo.

Dormir eu tento, juro.

Todo dia é igual.

Tantas pra meia-noite e o relógio biológico não entende a canseira. Que antes era hora do abate e se pendurar no açougue com pouca roupa e má intenção, agora não. Sobrou

Chaves Tom e Jerry e alguns espasmos sem explicação. E é coceira na bunda e mexe o braço coça e dedão, porra nenhuma, reclamo do olho ardendo na tela do telefone sem

mensagem, que dó, remoída de solidão.

Sobrou ar quente de bafo de leite morno no cangote sobrou sapato alto que comprei antes da falência e os vestidos de festa das festas todas que nunca mais fui. E continuo comprando, parcela divide que agora é assim, que prioridade mesmo é leite A e fralda Pampers e pra isso dinheiro gruda no dedo, vai explicar.

Ontem fiquei louca mesmo, foi feio de ver. Vesti meu longo e fui na farmácia comprar colírio, velho hábito que não desadapto, mas o olho pulava mesmo pra caixa tarja preta dentro da sacola do velho insone, velho feliz do caraleo!

Ô doença dos infernos.

Desenho animado de pretinho básico e batom de puta lôca não pega bem, meu menino não entende, ontem roubou o batom e comeu inteirinho que parecia morango mas era quase uma semana de trabalho, ele nem sabia, maloqueirinho lindo.

Tá, reunião mais tarde, juro, se eu fosse forte até passava na igreja pra tomar um porre de água benta, mas não consigo nem virada, morro de medo.

Sempre tem uma criança na igreja te encarando, como se soubesse todos os seus pecados.

Já percebeu?

Não, jamais, com isso não tenho estruturas pra lidar.

Deus me livre.

marinafilizola

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