LITERATICES E OUTRAS CONVERSAS… “Amar a literatura”, por Jorge Valentim

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Professor Joel Rufino dos Santos

Professor Joel Rufino dos Santos

Ao pensar sobre o que escrever na coluna deste mês (setembro), passou-me pela cabeça uma série de possibilidades: o Prémio Camões dado à escritora portuguesa Hélia Correia; o reconhecimento da Associação Portuguesa de Escritores a Mário Cláudio, com o Grande Prêmio do Romance, pela obra Retrato de rapaz; os últimos acontecimentos que acabaram atingindo todos os Programas de Pós-Graduação do país; as novas configurações do Prêmio Portugal Telecom, que passou a se chamar “Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa”, ou, ainda, a bela celebração ocorrida, dias atrás, no evento “Mulheres ex-cêntricas: a ficção de autoria feminina contemporânea nas literaturas de língua portuguesa”, na UFSCar.

No entanto, diante do impacto de mais uma perda, todas as minhas atenções acabaram se voltando para a despedida prematura a um grande mestre. Sem querer, no entanto, que esta seção passe uma imagem de déjà vu saudosista, ou, em outras palavras, de repositório de reflexões sobre quem já se despediu de nós – como aconteceu com o falecimento de Corsino Fortes –, não tive como me manter insensível a uma perda irreparável, ocorrida no último dia 04 de setembro.

E digo nós, na primeira pessoa do plural, porque a sociedade brasileira, nas suas mais diversas áreas (histórica, social, cultural, artística, intelectual, etc), perdeu, sim, um pensador, um intelectual de primeira grandeza.

Joel Rufino dos Santos acumulou na sua trajetória os ofícios de historiador, jornalista, escritor e professor. Aliás, sem sombra de dúvida, foi nesta última função que definitivamente se projetou e teve seu nome reconhecido. Mestre, acima de tudo, exemplo de compromisso com a sua maneira de pensar, com o processo de ensino e aprendizagem, com as formas de olhar os seus objetos de estudo.

Meu testemunho dá-se – e não haveria de ser de outra forma – como testemunha ocular e presencial de sua trajetória como docente. Foi em 1988, na Faculdade de Letras da UFRJ, que tive a oportunidade de tê-lo como professor, numa disciplina que ainda permanecia na grade curricular, herança rançosa dos anos de chumbo da ditadura: “Estudos dos Problemas Brasileiros”. Hoje, felizmente, extinta.

Naquela época, num auditório com seus 90 lugares completamente tomados, Joel Rufino entrava para ministrar de maneira singular uma disciplina que já se encontrava no seu crepúsculo. Com um ímpeto motivador, instigou toda a turma a pensar no contexto dos anos de 1980 e a refletir sobre ele a partir da leitura e da análise de obras anteriores a 1950. Gesto didático que objetivava a percepção, por parte dos seus alunos, de que a intelectualidade brasileira, já no século XIX, tinha os seus olhos voltados para as camadas mais diferenciadas da sociedade da época.

Lembro-me, como se fosse hoje, o olhar manso do mestre, dirigindo-se a mim e me perguntando qual o tema que mais me interessava. Na época, cursando a disciplina Literatura Brasileira II, informei que estava muito detido na leitura do romance Lucíola, de José de Alencar. Na mesma hora, ele tirou os óculos e me perguntou: “por que, então, não tratar do tema da prostituição, lendo Alencar em comparação com Rubem Fonseca – Lucia Macartney”?

Sedento como estava, na época, por temas pouco convencionais e nada corriqueiros no elenco dos preferidos pela maioria dos meus colegas, aceitei de pronto, sem nem me dar conta de que, décadas mais tarde, a preocupação com uma literatura marginal-izada (nos moldes sublinhados por um Arnaldo Saraiva, por exemplo) faria parte dos meus suportes de investigação.

Este é o Joel Rufino que ocupa o meu imaginário. Mestre motivador, intelectual sempre aberto a novidades e provocador de novas experiências. Simples e generoso nos seus apontamentos, indicava caminhos de produção de saberes, bem como estimulava uma busca por horizontes diferenciados em seus alunos.

Autor de obras fundamentais para se pensar a história do Brasil, os caminhos da escravidão, os processos de reflexão sobre a presença da cultura negra no país, além de obras destinadas ao público infanto-juvenil e adulto, Joel Rufino soube gerir os mais variados temas na sua produção intelectual.

Para os mais jovens, por exemplo, teve o cuidado de adaptar um clássico da literatura de língua inglesa: Robin Hood (2002), sobre a figura mitológica do ladrão da floresta de Nottingham, cuja primeira aparição acredita-se ter se dado por volta de 1377, com o poema Piers Plowman, de William Langland. Aliás, sempre preocupado em deixar registrado uma maneira de atingir os leitores mais novos, escreveu obras galardoadas com Prêmio Jabuti, como, por exemplo, O barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta (2007). Da história do ladrão que tira dos ricos para dar aos menos favorecidos, Joel Rufino passeia pelas malhas da história nacional e revisita figuras tutelares para se pensar exatamente em personalidades convenientemente esquecidas: Zumbi (985), obra que recupera a trajetória de um dos ícones da luta pela libertação dos escravos, e Carolina Maria de Jesus – uma escritora improvável (2009), título referencial no repertório do mestre.

Vale destacar esta última obra pela forma bem conseguida com que tece toda uma visibilidade sobre a mulher negra, semi-analfabeta, catadora de papel, oriunda de uma comunidade, e sua paixão incontida pela leitura e pelas possibilidades de contar suas histórias. Ao se debruçar sobre a vida e as particularidades da autora de Quarto de despejo (1960), não deixa o autor de entrelaçar os meandros da sua biografada com o contexto social brasileiro e as questões que envolviam temas como raça, classe, sociedade e paixão pela escrita. Contar a vida desta mulher, enfim, não o impediu de olhar criticamente para todo um cenário social, reivindicando o seu espaço de origem e de pertença.

Sempre reivindicativa, a sua pena escritural incidia sobre aspectos fundamentais para se pensar a memória cultural do país e daqueles que deram uma contribuição inequívoca para a sua construção, além de tocar e esclarecer temas presentes no cotidiano brasileiro. Tal é a percepção que deixou em obras como O que é racismo (1982), Abolição (1988) e, mais recentemente, A escravidão no Brasil (2013) e A história do negro no teatro brasileiro (2014).

Mas, não há como falar da obra deste homem negro militante e deste intelectual da educação, sem tocar num título singular e – é claro – de minha especial preferência: Quem ama literatura não estuda literatura (2008). Trata-se de uma obra referencial e de leitura obrigatória para quem lida com o processo de ensino-aprendizagem da disciplina no seu cotidiano. O título, instigante de saída, apela para a idéia de que aqueles que verdadeiramente amam o seu objeto de estudo e pesquisa (a matéria literária) não podem e não devem se adequar ao modelo gasto e corroído de como se estuda literatura no país. Na verdade, a sua idéia concentra-se na capacidade de perceber os diálogos que a literatura estabelece com outras áreas do saber: a sociologia, a antropologia, a história, a filosofia, a psicanálise, as artes, enfim, toda uma gama de signos, como bem pontuou certa vez Octavio Paz, em pleno estado de rotação. Pensar a literatura como um grande bloco monolítico e icebérgico, imutável às transições do tempo e dos contextos históricos e sociais, constitui um gesto ingênuo, para não dizer míope, de encarar uma matéria que, de maneiras várias, ensina exatamente o contrário, afinal, tudo passa, tudo é móvel, tudo merece reflexão e diálogo.

Não vou ficar, aqui, resumindo esta coletânea que, na feliz expressão do autor, designou como “Ensaios indisciplinados”. Não pretendo, portanto, roubar o prazer da leitura. Até porque, este é um dos aspectos mais sublinhados por Joel Rufino, quando de sua entrevista sobre Quem ama literatura não estuda literatura (2008), e que vale a pena conferir (http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/joel-rufino-santos-nao-existe-lista-livros-imprescindiveis-610083.shtml). Sem o prazer da leitura, sem a motivação da descoberta, todo gesto perde a sua credibilidade.

Mesmo quando se referia a questões cruciais dentro das malhas sociais do país, não se desvencilhava das lições tiradas de sua experiência como leitor. Tal é o que se percebe, quando de sua explicação sobre o tema do racismo, por exemplo:

O racismo e sua forma benigna, o preconceito racial, têm algo em comum: ambos se enraízam na psique sob a forma de esquizofrenia – uma repartição da mente com a conseqüente substituição da realidade pelo delírio. Assim, por exemplo, o brasileiro rejeita o negro, sendo ele próprio a síntese de negro, branco e índio; e substitui o negro real pela idealização do negro (sujo, sensual, burro, etc.). Essa vertente profunda do racismo não foi captada pela sociologia, mas pelos grandes artistas e escritores, uma vez que são fenômenos inconscientes, simbólicos e afetivos. Alguns desses criadores, como Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, eram reacionários, ou conservadores no plano político-ideológico, o que parece indicar, entre outras coisas, que direita e esquerda no Brasil partilham os mais importantes “mitos de fundação” do país, como, por exemplo, a crença geral de que negro rico não sofre preconceito. Anjo Negro é a demonstração contrária. A riqueza e o poder de Ismael são a origem da sua verdadeira danação: o ódio ao próprio nascimento, “Odiei minha mãe, porque nasci de cor”. O incômodo que Anjo Negro causa no público, toda a vez que é reencenado, é geral. Nem brancos nem negros gostam de “tratar disso” e os negros politizados (movimentos negros) não gostam de “tratar disso dessa forma”. Que forma? Sem piedade nem hipocrisia. Em Anjo negro não apenas os brancos odeiam os negros, é um Grande Negro que odeia a si próprio e a todos os negros da face da terra. Eis o homem danado e solitário, de que falava Franz Fanon nos anos 1950 (RUFINO, 2008, p. 118).

Com sua sensibilidade singular, Joel Rufino olha para a conhecida peça de Nelson Rodrigues e, a partir dela, faz um diagnóstico cortante e pontual da realidade brasileira. Ao sublinhar as angústias da personagem diante da percepção de sua identidade, o autor de Quem ama literatura não estuda literatura (2008) conjuga a construção da persona dramática rodriguiana com o pensamento do negritudinista Franz Fanon, sugerindo, assim, uma ligação de modos de pensar o homem e a sua condição em contextos completamente diferentes, mas, nem por isso, impossibilitados de pôr em cena cesuras sociais.

Na obra de Joel Rufino, pensar o racismo, o preconceito racial, a intolerância, a violência, o repúdio gratuito, constitui um gesto necessário e emergente na contemporaneidade. Ao contrário, aliás, do que muitos “críticos” de linhagem ortodoxa fazem, ao condenar sumariamente à fogueira da inquisição, escritores com manifestações completamente discutíveis aos olhos de certos contextos sociais contemporâneos, Joel Rufino parece ter sempre preferido a clareza da leitura e a percepção da diferença em entender que se, em determinado momento, uma obra e um autor conjugaram situações que poderiam ser compreensíveis naquele contexto, no atual, eles carecem de atenção, cuidado, reflexão crítica e lucidez no seu tratamento. E, é claro, sem nunca perder de vista, as reivindicações dos grupos sociais e duas prerrogativas mais emergentes, e a permanência do diálogo.

Isto, acredito eu, ter sido a lição maior de amor à literatura e à maneira de ensiná-la. Mas, confesso que não sou um especialista da obra de Joel Rufino, sou apenas mais um aluno, que guarda de maneira afetiva as recordações daquele professor de EPB, no fim dos anos de 1980. Por isso, como sempre gosto de finalizar, este texto constitui apenas uma singela e livre opinião sobre este grande intelectual, que nunca cansou de ensinar, nas palavras e nos gestos, o amor à literatura. Bem haja, querido mestre.

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