Elegia ao feminismo

imagem_head_mar151Não se trata apenas de que “deus” está morto: a “deusa” também está.

Haraway. Manifesto Ciborgue.

Esta elegia se dirige a um tipo específico de feminismo cuja delimitação se dará ao longo do texto.

Não parece estranho quando percebemos que feministas, com sua sororidade seletiva, nunca estiveram tão próximas do patriarcado contra o qual vociferam, espalhando homofobia e transfobia (especialmente transmisoginia) pelos quatro cantos? Aparentemente, a única coisa que os distingue é a misandria de um em relação à misoginia de outro…

Já fui testemunha ocular de várias situações embaraçosas: já vi várias delas sendo homofóbicas, já vi várias delas silenciando opiniões de homens (sejam cis, gays ou trans) em questões de gênero apenas pelo fato de serem homens (como se estas questões dissessem respeito apenas às mulheres) e já fui vítima de transfobia de algumas delas. Estou ciente de que ações individuais não podem falar por todo o ideal de um ‘movimento’, mas no caso do gênero, as práticas destas feministas são justificadas por uma teoria que, por incrível que pareça, sustenta-se no mesmo “cistema” de gênero-sexualidade ditado pelo patriarcado: a relação entre genitália e gênero.

A transfobia dessas feministas é justificada pelo “fato” de que mulheres são apenas aquelas que nascem com vagina – um dos discursos prediletos do machismo, aliás, que determina que mulheres são pedaços de vaginas ambulantes –; logo, a empatia destas feministas remete-se apenas às mulheres cisgêneras que, dizem elas, não reproduzem estereótipos de gênero – uma contradição, já que as mulheres cis constantemente reproduzem os estereótipos de gênero, ou usar batom, salto alto, saias, etc., não é reproduzir estereótipos? Se disserem então que isso é natural às mulheres o discurso fica pior ainda, já que se envereda em mais uma tentativa de naturalização de aspectos culturais.

Outro ponto bastante utilizado na fundamentação da transfobia é a questão de que “mulheres trans não foram socializadas como mulheres”. Bom, o sistema patriarcal além de socializar as “vaginas ambulantes” como mulheres, socializam-nas também como submissas, fracas, etc, e não me parece que essa socialização legitima uma essencialização das cis como fracas e submissas. Então por que a socialização determinaria o gênero? Estranho serem contra características advindas dessa socialização (submissão, fraqueza) e serem a favor da própria determinação do gênero (através da genitália) advinda dessa mesma socialização… Querem ser contra o patriarcado utilizando-se do patriarcado? “Sou mais mulher que você, pois o patriarcado assim o determinou”? Esse argumento, na verdade, só demonstra o quão raso é conhecimento destas feministas sobre as pessoas transgêneras e quão precário é esse pensamento enquanto epistemologia. Afirmam que as mulheres trans não sofrem a mesma violência que as cisgêneras no que se refere à socialização, ora, será que é cegueira ou mau-caratismo ignorar a imposição que a sociedade faz às mulheres trans de viver nas ruas, através da prostituição e morrendo estupradas e espancadas? A transmisoginia faz vítimas diariamente no Brasil, que é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Como diz Maria Clara Araújo, “travestis e mulheres trans espancadas, estupradas e mortas possuem gênero, raça e classe, então não me é novidade perceber que um feminismo branco, hegemônico e fluente em inglês para traduzir PDF dos anos 70, não nos embarque.”.

A relação buceta-gênero também fundamenta a misandria e homofobia (aos homens gays), dado a mesma empatia seletiva: levando seu discurso às últimas consequências, macho é opressor por natureza e deve ser eliminado, silenciado, enquanto as mulheres (que nasceram com vagina) devem ser canonizadas.

Elegeram, obviamente, a “teoria queer” como sua rival, tendo como alvo especialmente a noção de “performance de gênero”, mas a impressão que dá é a de que nunca leram uma linha sequer de Butler, criadora deste conceito, e a certeza aparece quando lançam suas “críticas” – para ajudar as coleguinhas, há uma crítica poderosa ao conceito de performatividade de gênero no ‘Manifiesto Contra-sexual’ de Preciado (pra facilitar, pg.74-75 da primeira edição da Pensamiento). É cômico como agem como se a “teoria queer” se resumisse à noção de performatividade de gênero e como se essa noção já não fosse contestada dentro da própria “teoria queer” – e como se a “teoria queer” fosse, numericamente, uma única teoria, totalmente uniforme, etc.. Além disso, não existe apenas a “teoria queer” que critica e nega as noções de “ser mulher” e de gênero fundamentadas num biologismo, vide Donna Haraway, por exemplo, que já no Manifesto ciborgue de1985 nota como a fragmentação entre as feministas e as fissuras no conceito de mulher é escorregadio, tornando-se desculpa para a matriz das dominações que mulheres exercem umas sobre as outras.

Outra característica do discurso destas feministas é afirmação de que em épocas de “meras teorias” elas é que serão ouvidas, dado o caráter prático de sua “doutrina”. Mas quem é que quer ouvir mais um sistema de pensamento que põe em prática preconceitos, opressões e dominações? Seriam estas feministas os novos “machos”? Pois não parece nada revolucionário reproduzir fundamentos patriarcais e preconceitos derivados dos mesmos, trocando apenas o polo misógino pelo polo misândrico, em nome de uma “igualdade” entre gêneros e um suposto “respeito”. É totalmente contraditório. Isso me traz à mente um evento que participei esses dias, no qual a única pessoa que se dirigiu a mim de forma desrespeitosa foi uma destas feministas, enquanto o mar de machos opressores por natureza me tratou de modo respeitoso – aliás, é engraçado de se notar que os únicos desrespeitos que tenho sofrido vêm destas feministas.

Querem respeito, mas não querem respeitar? Pois bem, que tenham muita sorte nesta missão natimorta de “igualdade”, pois como diria o grande Sabota, “respeito é pra quem tem”.

Giovanna Braz

São-carlense, transgênero e graduanda em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos.

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