Coluna 35: ‘Currículo’, por Lucimar Mutarelli

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1991 –  saí do banco para ser professora

Larguei um salário de 4000 por um de 400

Minha mãe brigou muito, não gostou

– um dia você vai ter um filho

24 anos depois, entendo a Dona Maria. Não por ter um filho e sim, 46 anos

Aos 22 eu sabia de tudo. Não precisava dos conselhos da minha mãe. Mas se eu não tivesse tomado essa decisão, não estaria de folga na noite do dia 07 de maio de 1991, não teria chamado a Geovana para ir comigo a Gibiteca e não teria conhecido o Lourenço <3

Em 2007 estava estabelecida e realizada sendo professora. Trabalhava em um grande colégio, adorava alguns professores e alguns alunos. Voltei a ganhar 4000 moedas e me achava absolutamente o máximo

A disciplina era História da Arte e 94% da plateia não estava nem aí pra mim ou pra matéria

Me deliciava com 6%

– Eu dou aula para meia dúzia

Era o meu discurso inicial e essa meia dúzia segue trocando comigo. Alguns viraram amigos de frequentar a minha casa

Estava me achando tanto e fui demitida

Três meses no sofá chorando

Meu amigo parceiro amante marido terapeuta, tentava aliviar meu sofrimento

– você fez isso durante vinte anos. Podia fazer algo menos estressante, mais divertido (isso é segredo mas o produtor e mecenas e querido amigo Rodrigo Teixeira dobrou o salário do meu marido quando soube que eu havia sido demitida)

– eu gostava de trabalhar na livraria (Saraiva, José Bonifácio, 1985)

E foi um dos meus alunos queridos, o Pablo, que levou meu currículo

De novo

Dos 4000 aos 400

E da mesma maneira que amava ser professora, amei ser livreira

Curiosamente, desta vez a mãe não brigou comigo. Talvez porque eu tinha o Lourenço, meu filho já estava com doze anos, acho que ela pensou que não precisava se preocupar mais comigo

E se eu não tivesse sido despedida, não teria conhecido meus amigos da Vila, não teria publicado o primeiro livro, não teria passado por mais essa vivência tão rica

Ser vendedora em uma livraria no Jardins vale outra crônica

Tudo isso pra dizer que eu e meu marido não sabemos lidar com dinheiro. Muitas vezes passamos por apuros e precisamos pedir ajuda à família e aos amigos

Somos do tipo: quando a gente tem, a gente tem e sai comprando CD, DVD, vai ao cinema, sorteia livros no face. Quando não tem, vendemos os quadrinhos, o cabelo, os originais do Lou, passa a semana jantando na casa dos parentes e dos amigos ou fazendo economias do tipo:

– até o dia 10 temos 20,00 por dia

Seguimos

Temos muitos padrinhos que nos abençoam com seus conhecimentos de juros, empréstimos, bolsa e economia

Por outro lado, temos o nosso trabalho, carinho e gratidão a todos

Gratidão é a palavra que Lourenço sempre usa nos seus autógrafos. Mais uma que eu aprendi com meu menino <3

O mundo precisa dos economistas e precisa dos artistas

Um precisa alimentar o outro

Nem sempre com comida

Se hoje moramos na Vila Mariana devemos a outro padrinho, Glauco Matoso, que fez um trato completamente generoso com a gente

Todas as vezes que fui demitida ou pedi as contas, ouvia dos colegas

“Deus escreve certo sobre linhas tortas”

“Fecha uma porta e abre uma janela”

Escolhas nem sempre dependem da gente

Vamos seguindo

Observo apenas meus pés, neste momento, quando preciso decidir entre a esquerda e a direita ou continuar no meio, melhor ainda, pelas beiradas frias

Talvez esteja me sentindo estagnada neste momento porque estou esperando Deus escolher por mim e mostrar o caminho certo

Que ele venha com a fantasia do Batman e a cara do George Clooney

Ninguém precisa saber disso

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