Em entrevista ao Livre Opinião, Edyr Augusto fala do livro ‘Pssica’

Edyr Augusto (Foto: Danilo Verp)

Edyr Augusto (Foto: Danilo Verpa)

A Belém pelas feridas abertas causadas pelo contrabando de prostituição infantil, assaltos, drogas, corrupção política e violência urbana. A capital do Pará dos corpos boiando no rio e dos conflitos sociais. Tudo isso e ainda mais está em Pssica, o recente livro de Edyr Augusto. Com um enredo frenético e uma narrativa singular, o romance aprofunda em temas enraizados no país, mas sem cair no clichê e na violência gratuita. Pssica, sem dúvida, já é considerado um dos melhores livros do ano.

O romance aborda a histórias de três personagens e o conflito violento que cada um enfrenta. Uma adolescente é raptada no centro de Belém do Pará e vendida como escrava para casas de show e prostituição em Caiena. Outro enredo explora a vida de um imigrante angolano que vai parar em Curralinho, no Marajó, onde monta uma pequena mercearia que é atacada por bandidos que assassinam sua esposa, fazendo com que comece uma busca por vingança. Entre os assaltantes está um garoto que logo assumirá a chefia do grupo.

Nascido na cidade onde se passa a trama, Edyr começou a carreira literária com Os Éguas, em 1998, seguido pelo elogiado Moscow (2001) e continuou com Casa de Caba (2004), Um Sol Para Cada Um (2008) e Selva Concreta (2012). Seus livros já foram traduzidos em diversos países, como Inglaterra, Peru, México e França. Este último, Edyr venceu o prêmio Caméléon.

Jornalista e diretor de teatro, Edyr concedeu uma entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate para contar sobre o processo de escrita de Pssica e outros assuntos relacionados à carreira.

11900035_848524978577958_130006506360005708_nLivre Opinião: Tráfico de drogas, de pessoas, prostituição, corrupção, morte, violência, prazer. Tudo isso chega aos olhos do leitor como numa rajada de metralhadora, em Pssica. De Belém à Guiana encontrada no livro, foi a realidade que invadiu a ficção ou a ficção que, como numa trama policial, se apropriou da realidade para formar esse cenário?

Edyr Augusto: Marcelo Mirisola disse uma vez “ficcionistas, cuidado, a realidade é uma concorrente”. A região em que vivo atravessa situação bem difícil na area de segurança pública. Os cadernos policiais, dia após dia noticiam casos terríveis. Um prato cheio para ficcionistas como eu. Fiz pesquisas sobre dois cenários absolutamente atuais e depois bastou criar personagens e descrever seu percurso.

Os capítulos do livro, como dissemos antes, parecem atingir o leitor como uma rajada de metralhadora. Porém, como se isso não bastasse para que caísse morto no chão, busca desvairado o próximo capítulo, como uma salvação. O ritmo da narrativa é alucinante, o que contagia a leitura e a toca no mesmo ritmo. Ainda assim, alguns ecos parecem surgir. Como Janelice – ou Jane – que, apesar de em muitos capítulos dizer apenas “me salva”, parece gritar por ajuda a todo o momento. Esse eco, para além de traçar uma realidade local – quiçá nacional – também pode ser ouvido como uma denúncia? Um pedido de socorro real para a situação desse fato – prostituição infantil – que nunca se teve solução?

Sim. A região pede socorro. Belém é considerada uma das cidades mais violentas do mundo. O Marajó, e seus arredores, a capilaridade dos rios, as grandes distâncias, a falta de apoio do Estado, tudo pede socorro. O livro é ficção. Quer divertir. Prender a atenção. Mas, ao mesmo tempo, nào há como não reconhecer o pano de fundo. Meu estilo é intenso. Muito ritmo, solavancos, rajadas, trazendo, chupando o leitor para dentro do texto. Deixando-o sem fôlego. Tenho certeza que o cenário local é bem pior que o nacional.

O livro termina com o narrador descrevendo os pensamentos do personagem Portuga: “Passava aquela floresta imensa e ele pensava no tanto que havia vivido e em Jane. Agora sua realidade era Angela e o supermercado São Cristóvão”. Este final é para dizer o mesmo ao leitor que, após acompanhar com tanta adrenalina as histórias das personagens, vai voltar a “normalidade” do dia-a-dia? Ou seja, depois de tantos fatos violentos, estamos longe de nos compreender?

Viver é perigoso. Diria que o Portuga opta por uma vida mais tranquila, após tantos problemas. Fugiu de seu país acossado pela Guerra. Foi tirado de seu sossego e jogado em um turbilhão de acontecimentos. A última visao de Jane o confronta, deixa em choque. Então deixa-se levar pelo que parece ser uma vida tranquila, sossegada, novamente. A floresta o engoliu e cuspiu de volta.

Sua escrita é concisa, bem como se utiliza de diálogos de modo teatrais. Este estilo é da sua experiência em outras profissões como radialista e dramaturgo? Conte um pouco desse estilo para escrever os seus romances.

Escrevo diariamente, seja para jornal, radio, publicidade, teatro e literatura. Logo em meu primeiro livro, Os Éguas, me peguei cortando frases, procurando a concisão, à qual cheguei realmente a partir de Moscow. Creio que em Pssica, esse estilo já está bem moldado. Chamo o leitor para dentro da cena. Quero colocá-lo como a dois, três metros da cena. Nos blocos de ação, mudo falas de personagens, troco tempo de verbos, mas ali estamos juntos, eu e o leitor, trabalhando nossas imagens, trocando sensações. Essa é a ideia.

Na narrativa de Pssica há elementos geográficos de Belém. Como foi a pesquisa para a elaboração do livro e como se deu a ideia do enredo?

Toda minha obra se refere à minha cidade, Belém. Aos leitores da minha terra, ofereço as ruas, lugares, bares, points, para que eles se reconheçam. Para quem é de fora, um novo cenário. Quanto às outras cidades presentes em Pssica, vieram através de pesquisa. O enredo chega no dia-a-dia, quando escrevo os capítulos. Deixo os personagens agirem e definirem a história.

Você faz parte de uma companhia de teatro, o Grupo Cuíra. Conte-nos um pouco do seu envolvimento com o teatro em Belém e o amor por essa área cultural?

Belém tem uma grande tradição de grupos teatrais. Infelizmente, há uns vinte anos a Cultura local vem sendo dizimada por um partido politico que está no poder e colocou para gerir na Secretaria uma pessoa que nada entende do assunto. Assim, há vinte anos lutamos para não morrer. Minha primeira manifestação literária foi escrever uma peça de teatro. Hoje são mais de vinte. Trabalho com o Cuíra, que complete 30 anos de atividades. Somos um pequeno grupo que encena espetáculos com grandes e pequenos elencos. Até o começo do ano tínhamos um teatro próprio, com cem poltronas. Atrasos em repasses de prêmios federais e nenhuma ajuda estadual ou municipal fizeram com que o fechássemos, após nove anos de luta. Já estamos em outro local, menor, mais adequado à nossa realidade, mas já estamos ensaiando dois espetáculos que devem estrear até o final do ano.

Edyr, como o próprio nome do site (Livre Opinião – Ideias em Debate) pode sugerir, deixamos este final da entrevista como um espaço livre para o artista desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Você tem algo a dizer?

Sou um autor paraense. Moro no Pará. Mesmo com a internet encurtando as distâncias, sofro por não estar presente em seminários, debates, oficinas e feiras pelo Brasil. Sofro por não encontrar com os colegas. Mesmo assim, sou publicado com sucesso na França. Felizmente, meu livro novo Pssica está chamando a atenção de muitos, o que vem fazendo com que esteja com a agenda cheia até o final do ano. Como todo autor, quero ser lido. Tenho sorte de ter atrás de mim uma editora como a Boitempo, que me apoia em tudo.

Entrevista: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s