‘Sobre fracassos, holofotes, engraxates e clichês’, por Marcelo Flecha

A aprovação do nosso projeto no Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, o ineditismo do fato, e a consequente capa no caderno de cultura do jornal O Estado do Maranhão, me fez refletir sobre o quanto dependemos de factoides para que o nosso trabalho artístico seja assimilado e reconhecido pela sociedade não vinculada às artes cênicas.

A percepção da relevância não se estabelece mantendo temporadas regulares dos espetáculos gratuitamente, oferecendo oficinas de formação, dedicando dez longos anos na construção de um dizer artístico, na consolidação de procedimentos metodológicos, ou na tentativa de alargar as opções teatrais do espectador. É preciso da manchete, do fato, da notoriedade.

A ideia do homem de sucesso, do caso de sucesso, da empresa de sucesso, do sucesso do espetáculo, do ator de sucesso, do grupo de sucesso está tão consolidada na sociedade contemporânea que por mais que você renegue esses valores o interlocutor suspeitará, torcendo a boca ao imaginar que você blefa, pois é inconcebível hoje alguém ignorar um holofote.

Ainda que o caro leitor desconfie, eu afirmo: meus valores são outros. Sobre essa perspectiva, prefiro ser um homem de fracasso. Não acredito nesses valores. Sucesso e fracasso são bases de um conceito que de nada contribuem para a formação do cidadão, do artista, da sociedade. Se o conceito de sucesso é a medição da minha sobreposição ao meu entorno posso concluir que todo o entorno fracassou, e passo a medir o meu sucesso pelo fracasso dos outros?

Há décadas abandonamos a ideia de medir a arte teatral através desses parâmetros; lutamos para que hoje 99% dos festivais e mostras de teatro brasileiro não sejam competitivos, por acreditar que não é sobre o escudo desse tipo de valores que conseguiremos mensurar a relevância de uma obra de arte para a problematização da sociedade, contudo, permanecemos reféns do reconhecimento pálido, da exposição fugaz, da notícia vaga, da visibilidade anônima.

Penso que é nosso dever romper com essa lógica e assimilar a virtude da nossa insignificância. Como sentencia o clichê, a arte é inútil, e mais inútil ainda é insistir em tentar chamar a atenção do cidadão indiferente ao nosso fazer através da exposição de um esporádico episódio de sucesso. A ação artística chegará a esse cidadão de outra forma, sutilmente, sem ele perceber, e sem a necessidade de que ele reconheça a grandeza da nossa insignificância.

Mas como sobreviver sem esse reconhecimento? Como manter uma atividade artística permanente sem a visibilidade necessária para que a sobrevivência possa ser possível? Trabalhando. Da mesma maneira que a médica, o engraxate, o feirante, a professora, o barbeiro. Nenhum deles depende do reconhecimento daquele que não necessita dos seus serviços. O engraxate não depende do reconhecimento de um homem que só usa tênis. A médica não precisa do reconhecimento do são. O barbeiro não necessita do reconhecimento de um careca. Contudo, trabalham para sanar necessidades básicas e vitais para a existência humana, e lidam cotidianamente com sucessos e fracassos diários: a graxa que manchou a calça, o sorriso do paciente curado, o alto índice de reprovação na sala de aula, a fruta que apodreceu e não chegou à boca do faminto porque não dispunha do dinheiro para comprá-la.

Com o artista não é diferente. Vivemos do entendimento daqueles que enxergam em nosso fazer um sentido para suas vidas, e esse sentido está além da proximidade do sapato, do cabelo, da saúde. É nesse interstício da vida das pessoas que a arte se mostra, com o fracasso diário de tentar alargar essa brecha e com o sucesso esporádico de encontrar cabida em outro coração inquieto.

Marcelo Flecha

Diretor e dramaturgo, é um dos idealizadores da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA). Publicou o livro Cinco Tempos em Cinco Textos: Dramaturgia Reunida

 

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