Coluna 38: ‘Selfie espontânea’, por Lucimar Mutarelli

unnamedLembro de uma caixa onde a minha mãe guardava fotos e tentei ficar com algumas

Ela me deu todas que eu pedi

– Pega antes que eu morra porque depois as meninas vão brigar com você

Eu falo que roubei para que minhas irmãs não pensem que a minha mãe deu as fotos pra mim. Com a Marina tentava fazer o mesmo mas ela é muito apegada as fotos e não deixava. Aí eu fazia aquele beicinho e ela voltava atrás:

– Leva pra copiar mas devolve!!!

Sempre que estou na casa de parentes ou amigos agradeço o momento das fotos. Os livros de etiqueta ensinam que é gafe do anfitrião. Adoro foras desse tipo. Pode ser relatos de viagens, festas de aniversário, velório. Tudo. Eu não ligo. Quer dizer, ligo muito pras fotos, não ligo para essa regra do bom anfitrião

– Tem mais?

Mostre e conte. Sigo São Tomé: acredito quando vejo

A maioria dos fatos da minha vida, só lembro por causa do registro fotográfico. As máquinas digitais comprovam isso. Tem dias que preciso fotografar o tempo todo, melhor seria filmar até mas e quando você vai viver de verdade o momento?

Outro dia meu sobrinho neto, Pedrinho, desabafou:

– Chega de foto! Agora vamos brincar!

É sabido e lugar comum, com as câmeras analógicas a gente precisava pensar antes de sair fotografando. Viajávamos com rolos de filmes limitados a 24 ou 36 poses. Corríamos o risco de ter o filme velado, de não receber nenhuma imagem na hora de ir buscar as ampliações e de brinde recebia o rolo de negativos, as fotos ao contrário. Eram fotos concretas, mais verdadeiras? Não. As digitais podem ser verdadeiras também. Depende de quem vê e de quem tira

Da infância, guardo poucos exemplares das imagens dos monóculos que passei para o papel. Meu cunhado Dirceu, marido da Marina, foi o primeiro da família a ter uma máquina fotográfica. Contaram, não lembro. Não tem foto dele tirando foto. Deixou o hobby de herança para minha sobrinha afilhada, Adriana

Vivo ansiosa esperando fotos compartilhadas

Sigo meus amigos em suas viagens. Ano passado estive em Paris com o Edson. Este ano fui para Nova Iorque com Ivana e Itália com o Martinelli, carona no olhar do outro

Sigo o roteiro das famílias, acompanho namoros, espio noivados, casamento, Lua de mel em Peruíbe, o primeiro ultrassom, a primeira foto na maternidade, brigadeiros, passeios e festas. As brigas não são registradas nas redes sociais. Vem um tempo de sumiço. Depois, o recomeço, a história se repete aqui, diante dos meus olhos onde a única dúvida é curto ou não curto a nova namorada? E se a outra vir que eu curti, vai achar que estou traindo nossa amizade?

Os celulares acessíveis com cartões de memória cada vez maiores acumulam duzentas e setenta e cinco mil fotos. De tempos em tempos preciso apagar. Fotos que não me agradam. Piadas preconceituosas

Meu marido, terapeuta de plantão, avisa que esquecer também é bom

– Perdoa. Deixa passar. Não leva tudo tão a sério

Lourenço Mutarelli, Marcelino Freire e Ricardo Tiezzi, professores de vida, escrita e roteiro, insistem

– Conte uma história que só você pode contar

Com as fotos é assim também. Se você tiver personalidade, seu perfil também será único. Depois de duas semanas, viciada, seguindo todos os amigos e conhecidos, você já sabe quem está ali de verdade e quem está só ostentando e qual o problema com a ostentação? Adoro os exibicionistas. Meus likes são direcionados para crianças, gatos, namorados, gente brincando, artísticas, flores, animais, paisagens do por do sol ou da Lua, mar, museus, comida, dias de chuva, dias de sol com frio, gente brincando na neve e selfies. Selfies de todos os tipos, inclusive aquelas diante do espelho e as espontâneas. Se a pessoa quer aparentar o que não é, o que não tem, qual é o problema? Cada um mostra o que pode e o que quer. Até a falsidade é a verdade do indivíduo. É o que se tem para escancarar neste momento ou o que pode ser exibido

Antes de compartilhar o certo seria pedir a autorização do amigo no meu álbum. Posto e depois pergunto. Falo e depois penso. Escrevo antes de ler. Publico muito rápido. Tenho urgência de passar pra frente e contar a próxima história. Há pouco tempo aprendi a perguntar: posso postar no face???

Mostrar ou guardar? Compartilhar somente com um grupo ou escancarar no público mesmo? Quantas fotos cabem nos álbuns do facebook? Onde estão minhas fotos que sumiram?

Ainda não digitei no Google por medo da resposta. Tenho pavor da saturação dos álbuns virtuais e que não possa mais armazenar a minha memória. Resta a seleção, o que arquiva, salva na nuvem, imprime, apego desnecessário. A impossibilidade de apagar uma foto em qualquer meio. Gente que rasga fotos acreditando se desfazer da lembrança. Os piores momentos não são fotografados e não esquecemos. É muito mais fácil lembrar de um amigo que foi no enterro, que passou a noite acordado no velório do que daquele que só aparece nas festas. Encontros onde fotos são desnecessárias porque a gente não esquece. Nunca

Outro dia fui ver uma palestra da Maria Rita Kehl e ela deu uma aula incrível sobre o início do foco sobre o homem comum. Foram os fotógrafos, os pintores e os escritores responsáveis por ditar que qualquer vida é interessante. Qualquer história merece ser contada. O protagonismo na transição do século 19 para o 20. A primeira e a segunda guerra, o pós-guerra, o Rock, a liberdade, os anos 60, Beatles, Elvis, Jovem Guarda e a invenção da juventude

O homem pisando na Lua. Divulgação e popularização das drogas. Rádio, TV, Cinema, jornais que possibilitam saber de tudo. Toda a informação na internet. Tudo que você consegue aprender. Fome de fazer tudo, ocupar o tempo, fazer passar o tempo. Aproveitar

Selfie espontânea quer dizer

– Segura esse segundo e não me deixa esquecer!!! Registra, por favor <3

Meu irmão Guilherme compartilhou um texto do ator Nelson Freitas fazendo uma analogia com os segundos de um dia e o saldo de um banco. Eu lembrei agora quando pensei: hoje tem um filme com 24 poses para tirar. Faz de conta que é analógico. Reveja o filme “Uma questão de tempo”

– Por que você não escreve sobre isso?

– Não precisa gritar

Protagonize a sua história, conta e compartilha. Aproveita o mural do face e conta de verdade. O povo quer sangue, violência, discussão política

Sigo alienada, assistindo vídeos de gatinhos fofos, pratos de comida, festas de formatura, rolês de bike, shows e baladas. Exposições, passeios e domingos no parque, seu portfólio, book da primeira, segunda e quinta idade. O que eu quero é conteúdo. Piadas bem construídas, Cinema, música erudita e MPB, morangos com suspiro porque o fígado não pode mais com chantilly

Comida é cultura, é história. Seremos estudados sobre aquilo que produzimos e, acompanhando o mural dos meus amigos, sigo acreditando “tudo será melhor que antes”, dia após dia, tempo para cicatrizes, não cutucar feridas, participar da festa do seu amigo, ser coadjuvante na festa da Moranguinho, fazer número, engrossar o caldo, voltar a ativa, escolher visitar o pai de uma amiga a uma feijoada com caipirinha, ler para um amigo ou para a sua irmã que no momento não pode curtir e compartilhar suas fotos

– Quem vê TV de mãos dadas?

Propaganda falsa

– A gente. A gente vê TV de mãos dadas

Três corações juntos e separados. Família delícia. Comercial de margarina

– Eu entendo você gostar das fotos. O que eu não entendo é precisar postar

Quando a minha vida passou a ser interessante? Do mesmo modo que você gosta de ler a história do seu amigo e ver as fotos, ele também gosta de ver a sua

Alguém já deve ter dito que escrever é falar sozinho. Postar, fotografar. Nem sempre. Tem gente de olho, tem muito amigo, irmão, parente, sobrinho, prestando atenção

“você tem uma nova mensagem”

“Francisco Neto comparecer a SSO”

“a gente não fala nada pessoal”

“ela vem aqui todo dia”

“deixa assim pra ver como é que fica”

Espera um pouco

Pausa

Respira

Congela numa foto. Preserva este silêncio. Guarda a foto dentro de você

Não consigo

– Cadê as fotos dessa árvore?

Tenho todas as estações, eu juro. Tá tão linda essa paisagem. Dia cinza. Meu marido também gosta. É o melhor clima para falar sozinho

– Acorda, Marina. Volta!

Como diz o Lourenço: volta no seu tempo. Prometo que não roubo mais as suas fotos!!!

Dia

Amanheço

Like na foto do Corinthians e de um gato na amiga do Jardim Paulista ao mesmo tempo que o amigo do Jardim Romano. Atravesso São Paulo no meu feed em segundos. Passeio pelo mundo

Eu sigo fotógrafos profissionais e amigos que curtem fotografar por hobby e, esteticamente, estão muito próximos. Maravilhoso. Pelo menos virtualmente somos iguaizinhos. Pra mim Bresson, Luciana Dal Ri, Steve McCurry, Jessica Ribeiro, Ansel Adams, Richard Avedon, Rafael Abreu, Helmut Newton, Ana Carolina Shinobe, Robert Doisneau e Gabriela Colombo, estão na mesma categoria. Meus corações de like são completamente sinceros. Não posso esquecer que os fotógrafos contemporâneos conheci pelas mãos do Dan, na Livraria da Vila na Lorena. Aliás, todos os livreiros eram apaixonados pelos livros de fotos. O Rogério é fã de fotos antigas de São Paulo. O Junior, dos nus masculinos. Takai me mostrando Paris do Brassaï. Nos raríssimos momentos que dávamos uma parada sempre tinha alguém folheando um livro ou contando uma história sobre o livro que estava lendo

Paro para ouvir a fábula que o Rodrigo Lacerda está contando

Quatro cegos e um elefante. Cada um descreve o animal e cada vez, o animal é apresentado de forma diferente, porque falam de partes, das pernas, do rabo, o tamanho, a tromba, os dentes, ninguém fala do todo. Falamos somente sobre aquilo que está perto, o que conhecemos. É preciso alguém de fora para enxergar a situação completa

Nossas fotos representam uma parte do que somos. É só um flagrante

Um dos ângulos

Um recorte de nós

Nosso olhar sobre o outro revelando a gente

Verdade verdadeira

lucimar-mutarelli2

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