Coluna 39: ‘Gêmeas’, por Lucimar Mutarelli

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Eu e meu marido estamos revendo as dez temporadas de Friends

Ao mesmo tempo reencontrei um grupo de amigas do colégio que não via há 30 anos e lançando meu livro “Só aos domingos”. O romance trata justamente sobre 5 amigas que se reencontram trinta anos depois da formatura do colégio. Bodas de pérola

Nosso maior espanto, quando estamos juntas, é que reconhecemos muito das adolescentes em nós

Lá no centro cultural barco, fiz um curso de roteiro para série com o Aleksei Abib e agora estou estudando longa com o Ricardo Tiezzi. Os dois concordam: os Friends precisam amadurecer

No reencontro com as amigas, aproveito para tirar dúvidas de psicologia porque duas delas seguiram por essa área. Fiz Educação Artística e uma professora demonstrava, na prática, as afinidades que sentíamos pelos colegas. Ou as não-afinidades que eram as mais interessantes. É muito clichê concluir que o que não gosto no outro é aquilo que me incomoda em mim. Bora pra terapia da escrita

Perguntei pra Sandra se ela tinha estudado a trajetória do herói e ela não só estudou como me introduziu na trajetória da heroína. No caminho de ida e no de volta ao encontro fui traçando meu desenvolvimento ao longo da minha própria trajetória. Estudei, fiz o curso sonhado, trabalhei na minha área, encontrei um parceiro perfeito até quando erra, tive um filho lindo, determinado, convicto, que trabalha direitinho e é elogiado por todo mundo. Para as corujas, basta

No encontro, a Débora levou um caderno pequeno com a capa da Sarah Kay, escrito Recordações. Virei motivo de piada porque ocupei muitas páginas do caderno e a Débora pediu que renovássemos nossos votos. O que me chamou a atenção no texto que escrevi pra ela foi a presença do cotidiano, o improviso, o texto rápido e urgente, tudo muito semelhante aos textos de hoje

Algumas sobrinhas e amigas, chamo de gêmeas. Nos reconhecemos nos momentos de crise, principalmente naqueles onde o herói perde. Seguimos juntas tentando conviver com nossos conflitos externos e internos

Tudo isso para falar que no Friends, é obvio que rio muito e adoro os meninos mas Rachel e Monica monopolizam a minha atenção. Tiezzi explica que se você compara um personagem de ficção com alguém na vida real é porque o trabalho do roteirista/escritor foi bem feito. Quando vejo Monica desesperada em chamar a atenção da mãe que só tem olhos para Ross e seu amor lindamente construído por Chandler fico vidrada, apaixonada. O amor pela comida também me encanta. Até a compulsão pela limpeza me representa metaforicamente. Tento achar um isqueiro dentro da bolsa e vejo o caos projetado na escrivaninha, na pilha de roupas, na pia. Tudo acumula. Vai juntando até a hora do balde e da vassoura. Preciso lavar, uma vez por semana. Desordenadamente, junto as palavras e lanço aqui

Com Rachel sou mimada, meu fascínio para comprar, pouco para mim, muito para os outros e o fato de amar moda. Quem repara no modo como me visto já percebeu: eu faço a minha moda. Minha mãe era costureira e isso me proporcionava sempre ter modelos exclusivos. Camisas brancas com o bolso do Capistrano costurado sobre o lado esquerdo do peito, o vestido da Formatura no Dom Pedro, shorts, saias, vestidos, a calça preta de cintura alta, o blazer preto. Até o meu vestido de casamento foi a minha mãe que fez <3

Todo trabalho é lindo e perfeito mas pegar um tecido e transformar em roupa, de acordo com as medidas do outro, eu acho mágico, cinematográfico. Artistas criando a partir de folhas em branco, telas vazias, moldes inanimados no balcão do escultor, todo o material de pesquisa e referências e exercícios dos bailarinos, mestres da fotografia, das histórias em quadrinhos. Os gregos. Tudo acaba e começa com os gregos

Tiezzi pede um exercício para contar nossa história em sete beats. Divido com a Vana duas premissas e escolhemos a mais simples, aquela em que nos reconhecemos. Usamos a gente mesmo de modelo e nossas mães, tias, irmãs, sobrinhas, todos os amigos reais e imaginários ou alguém agindo diferente na rua no metro no ônibus. Sim, isso meu personagem faria. Não é o personagem que é humano. É um humano que escreveu aquele personagem e suas observações e seu próprio mundo

Rachel sendo mimada, Rachel paparicada. No caderno da Débora, na adolescência, ocupei cinco páginas com letras grandes e espalhafatosas

– Sim, você gostava de aparecer

Tento, desesperada, nomear o arquétipo que me representa e falho. Não lembro. Espero o diário chegar nas minhas mãos e em meia página e com a letra discreta e miúda exerço meu poder de síntese, arco finalizado. Sim, reconheço a adolescente em mim mas reconheço também a importância dos trinta anos. Amadureci em algumas coisas

Temos pequenas trajetórias a partir do momento que abrimos os olhos na nossa série, filme ou novela particular. O caminho a ser percorrido. No clímax, a heroína sempre ganha. Mesmo que ela tenha que morrer no final porque o que importa é o exemplo, a moral, o ensinamento, o legado que a gente deixa

Lourencinho sempre lembra: a vida nunca acaba bem. A gente sabe o final do filme mas o episódio de hoje pode começar com uma ação diferente. Jogar do lado claro da força

– Você não é boba. Você é feliz!

Bobo é quem achava que o Menino Maluquinho era bobo

De verdade. Tudo depende do ponto de vista ou saber do momento que você precisa do ponto de virada. Está faltando a cena do protagonista puxar a toalha. Mesmo que depois precise arrumar tudo de novo. Rearranjar. Limpar. Lavar. Dia de faxina. Organizar as ideias. Começando pela agenda. Compromissos de trabalho. Encontros com a família e os amigos. Prioridades. O que me faz feliz tem em muitos lugares, até no Pão de Açúcar

Me encontro com Monica e Rachel porque elas são estereótipos, uma parte do que eu também sou porque foram inspiradas em mulheres reais, a mãe, a tia, sobrinha, irmã de alguém que vivia lá na Grécia e observou e escreveu tudo isso

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