Coluna 41: ‘Bodas de pérola’, por Lucimar Mutarelli

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30 anos tem sido uma referência nesta semana

Depois de três anos concluído, chegou meu novo romance “Só aos domingos”. Em um dia eu conto sobre cinco amigas que se reencontram trinta anos depois da formatura no colégio. Sincronicamente, reencontrei cinco amigas que não via há trinta anos. Nosso maior espanto foi constatar que não mudamos muito. Mudamos um pouco de assunto mas na essência, permanecemos as meninas que riam, brigavam, choravam, brincavam e estudavam muito no Colégio Dom Pedro

Na confusão, alguém quis saber

– 30 anos é bodas de quê?

– Pérola – amigo Google responde

Mais uns dias, agora nos falamos pelo whatsapp, pesquiso novamente para saber sobre o significado do símbolo que nos reuniu e inspirou o livro. Pérola pode ser feminina, virgem, pura, lunar, “bela como a lua”, brilhante, forte e constante

Todos os adjetivos me levam, prontamente, de volta aos 15 anos, a mudança para a escola nova, reconhecimento do território e a procura de novos amigos. O Colégio me trouxe um novo mundo, descobrir novos anos que passei acompanhada por pessoas incríveis e encantadoras. A Lua, regente das emoções profundas, me fazia assinar o nome com uma pequena crescente que desenhava no lugar do acento. Mais tarde aprenderia: monossílabo tônico terminado em u não leva acento. A Lua virava um ponto final. Companheira decisiva de passagens marcantes na minha travessia

Vocês vão ler no livro produzido pelo Coletivo Palê: Estive na Lua e lembrei de você

Na hora de criar o grupo no zaps, o nome veio pronto: Lua literária. Depois eu brinquei, Lu, a literária. Fiquei calada e apreensiva. Não me faz feliz essa posição de estar escritora. É uma exposição grande demais. Parece faniquito a la Greta Garbo mas, é verdade, não é nada confortável

Ando sentindo muita falta do trabalho burocrático. Aquele que você chega no banco e tem um milhão de cheques para somar ou pastas dos alunos para colocar em ordem alfabética. Aquele que você vai, faz o seu trabalho e no final do mês recebe férias, décimo terceiro salário e feriado. Segunda a sexta, cartão de ponto, festa da firma

Curiosamente, muitos amigos queridos sonham em fazer o contrário: se livrar desta rotina e se dedicar a criação artística. Eu sempre brinco: cuidado com o que você deseja. Certo mesmo seria ter uma bolsa de incentivo a criação artística porque ninguém vive sem música, cinema, literatura ou histórias em quadrinhos. Ok, mas ninguém vive também sem médico, dentista, engenheiros, bancários, técnicos de informática, encanadores, analistas de contratos, astronautas, assistentes administrativas, atendentes de telemarketing, professores, secretários, eletricistas, recepcionistas, telefonistas, acionistas, deu pra entender né? Então, todos deveríamos ter uma bolsa para suprir as necessidades básicas e tempo para nos dedicarmos a fruição ou produção do fazer artístico. Tempo dentro da concha. É no casulo que a transformação ocorre. Para tranquilizar meu espírito vou pensar que estou pausada, encapsulada, visto que meu marido está provendo a minha bolsa de criação artística

Quando casei pedi emprestado a minha irmã e madrinha Marina seus brincos de pérola. Na época não sabia o simbolismo queria somente combinar com os botões do vestido que a minha mãe costurou e usar algo emprestado, representando a tradição. Pérolas, pra mim, tem um conceito clássico, mágico. No colégio, copiando uma foto da revista Manequim, usava uma blusa de lã amarelo bebê e arrematava com um colar de pérolas. Falsas, sempre. Primeiro, porque não tenho dinheiro para comprar um verdadeiro e segundo, mesmo se eu tivesse dinheiro não daria num colar de pérolas. Sempre tive a convicção de que não importa que seja bijuteria, importa é o ornamento, o signo representado. Fiquei radiante quando ouvi Audrey Tatou, no papel de Channel, reafirmar que não são as joias que precisam ser verdadeiras e sim, a mulher. É tipo isso, tem algumas mulheres que são autênticas, honestas, verdadeiras. É muito fácil perceber. Basta segui-las durante uma semana em qualquer rede social. Se ela é verdadeira você percebe, se ela é uma imitação, você percebe também. Talvez, por isso, esteja tão incomodada com essa condição de “artista”. Me sinto imitando outra pessoa. Não o meu marido, outra escritora ou qualquer pessoa do mundo real. Sinto que imito uma persona, uma máscara que não me serve

Estou estudando os arquétipos para escrever um trabalho e a cada um que lia, decidia: este! Este é o arquétipo que me representa. Passei assim por 32 tipos, masculinos e femininos para chegar a conclusão, óbvia e fácil, de que somos a soma de todos

Somos todos pérolas e borboletas

Cada um com um tempo diferente para se formar e crescer e viver, intensamente, todas as transformações possíveis ao longo deste tempo que passamos por aqui

Ou não

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