DAMA DO LODO: ‘Meninas Que Beijam’, por Marina Filizola

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Hoje quero dormir mais tarde.

Eu, meus livros e minha ideia comunista de uma vida ousada e larga, sobrevoando todos os escombros do meu quarto-picadeiro.

Todos precisamos acordar mais tarde.

Como aconteceu aquele beijo é uma lembrança que vai se reconstituindo lentamente entre trombadas desembestadas de neurônios colapsados.

Só sei que liguei pra ela.

– vem pra cá.

E ela veio.

Sabe o que mais admiro nela? Não tem medo. Nem duvidas. Não há desassossego. Não ali. Ali não existe mimimi.

Quando me vi enroscada nos seus cabelos tive a sensação de cavalgar no gelo. Estilhaçou minha rotina cálida de aquariana sistemática.

De égua de boca dura.

Égua que mastiga as rédeas.

Agarrou minha crina cheia de nó e me encarou como domadora. Como quem diz “continua”.

Eu continuei.

Não poderia parar.

Ainda mais porque somos parecidas em tudo.

E por essa razão deveria ali, ter freado o tesão. A tensão. E desde o momento em que minha língua entrou na sua orelha, me sinto muito mais apaixonada do que me permito normalmente. E isso significa que jamais seremos felizes juntas. Graças a deus.

Me incomoda não saber onde colocar as mãos. Não há volume debaixo da braguilha, as costas são menos largas do que gostaria, a voz não é rouca pausada aveludada. Não sei o que vou fazer com aquela falta de peso em cima do meu corpo. Provavelmente não vou fazer nada. Todos aqueles volumes mal colocados me incomodam. E isso não importa.

Ela sorri. Eu estou mareada.

As duas vestidas de preto. Preto em tudo. Preto os cabelos, pretas as unhas, pretas. Não fosse um dia qualquer, juraria que estávamos de uniforme. Duas ninjas dançando numa discoteca em Tóquio.

– Esses pássaros tatuados não estão livres. – Ela dá de costas pra mim e desliza a mão pelo edredon.

– É, acho que estão presos em mim.

Ela não vê as coisas como eu vejo e isso me encanta.

Não consigo sintonia com pessoas obvias. Admiro mentes que não consigo deduzir.

É difícil encontrar alguém que me surpreenda.

Ainda mais difícil encontrar alguém que não se surpreenda com o obvio.

– Sede?

Mais difícil ainda alguém que goste de água como eu gosto.

Foi assim que ela disse: quero sentir teu gosto.

Como eu diria não? E porque eu diria não? Gosto do improvável. Dele nascem muitas coisas.

– a capa daquele livro é linda.

Não sei de qual livro ela estava falando. Sinceramente, nem estava muito curiosa. Por mim nós ficaríamos ali apenas respirando, sem ter o que pensar.

As vezes livros são só capas. As vezes livros são apenas a primeira frase. Muitas vezes eu apenas os compro para que determinado dia fique pra sempre na minha estante. O

livro daquele dia. E eu jamais o leio.

Quanto mais você lê mais você sabe. Sabe que elegeu um governo de merda que faz faltar comida na sua mesa. Sabe que nunca sentiu amor de verdade e quando sentiu deixou passar batido. Sabe que nasceu de uma Foda bem dada num banheiro químico de uma festa no centro da cidade. Saber faz mal.

O vizinho acendeu um baseado e aquele cheiro de show de reggae espalhou. Já sei o que ela ia dizer antes mesmo de abrir a boca. “Detesto maconha”. Eu também. Somos iguais. Atiramos palavras no vácuo sem precisar de uma frase. Rimos de tragédias e falamos de coisas que a gente nem sabe. Me sinto livre.

– vamos abrir a cerveja.

– Abre que eu bebo.

Não precisávamos de mais nada além de uma cerveja e um beijo. Sabíamos disso.

Era nosso segredo. Eu me sentia estufada por ter esse segredo guardado com ela. Ninguém me conhecia daquele angulo. Éramos comuns, bêbadas e imortais.

Tem pessoas que prefiro mudas. E surdas. Gente com que eu possa falar de política sem perspectiva nenhuma. Não gosto de concordar. Não que eu tenha prazer em ser do contra, mas meus gostos são quase sempre contra tudo. Ela sabe disso. Por isso eu amo ela.

Repudio dramas sem lógica. Não acredito que o amor dure pra sempre. O fato de eu ter amado tantas pessoas durante a vida não significa que nunca tenha encontrado um amor de verdade. A Disney cria filmes com finais melados pra te fazer acreditar que você é mais infeliz do que realmente é. Eu colocaria fogo na Disney.

Pode até ser que eu encontre alguém para a vida inteira.

Assim como pode ser que eu encontre alguéns para a vida toda.

Quero dizer que não sei de nada.

Que não sinto nenhum apego á ela. Mas ela não se importa com o que eu acho.

Ela só se importa com o que quer ouvir.

E hoje eu apenas disse o que ela precisava escutar.

– Volta amanhã?

marinafilizola

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