‘Eu, tu… eles não’, por Caco Ishak

Escritor Caco Ishak

Escritor Caco Ishak

Por Caco Ishak

Como falam corretamente os paraenses, não? Última província brasileira a aderir à Independência (mais por conta da estreita relação da aristocracia local com a coroa portuguesa do que real expressão da vontade popular), alguns “costumes” provincianos de fato teimam em resistir. Em especial, nossos contra-cabanos linguísticos. Pois bem. Eu, Pasquale.

E não, não falam. Ainda bem. Ou melhor: falam sim. Uma língua legitimamente urbana, viva e em constante mudança. Como deve ser. E é justo o que, linguisticamente, a cultura paraense tem de mais curioso. Um cantarolar todo próprio, construções gramaticais próprias, expressões, ainda que próprias de toda uma região.

O uso pronominal, por exemplo, e o que mais me fascina. A predominância entre os cabocos (sem L mesmo) se dá no que chamo de dialeto “parayoda” — o pronome vai (ou repete-se) ao fim da sentença:

— Tu sabe dela, tu? Quede ela? Tá lá no teu setor, ela?

— Num sei de nada não, eu. Sou trabalhador, eu, mano. Num sou bandido eu não, eu.

Nem precisa sair de casa. É só ligar a TV na RBA (Bandeirantes), pouco depois do meio-dia, e lá está toda a tchurminha reunida no Barra Pesada (Google it). Mas um passeio pelos bairros do Jurunas, Sacramenta, Guamá, Terra Firme, ou mesmo pelo centro da cidade, também pode ser de grande ajuda.

Qual a inocente tela de um artista lowbrow e os grafites de um “pichador” provocam torções de narizes entre entusiastas da alta cultura, as batidas do tecnobrega e o português das ruas parecem estuprar os tímpanos dos órfãos da borracha em nossa eterna província.

O que fica bem claro no uso da segunda pessoa de acordo com o interlocutor, com a classe do interlocutor. Questão de cunho social levada às últimas consequências em Belém, verdadeira cabanagem sociolinguística. Milagres acontecem na terra de Nazica, por supuesto, embora seja mais difícil encontrar alguém entre o povão que se valha do pronome TU de forma correta do que um playboy errando a conjugação ao tentar falar bonito com os pais durante um toc-toc na Assembleia Paraense (tradicional clube recreativo de quem faz e acontece em Belém). Tranquilo, irmãos papa-chibés, não é motivo de vergonha: o mal assola todo um planeta, resta-nos esperar pelo meteoro.

Obviamente, os antagonistas linguísticos das classes mais abastadas, econômica ou culturalmente, talvez como maneira de se diferenciarem dos reles mortais, ainda hoje fazem questão de utilizar o TU de forma correta (ainda que, entre quatro paredes, se permitam relaxar um pouco e soltar um “tu não te manca”). Quixotes lusitanos contra a Torre da RBA, na falta de um moinho de vento.

Ainda mais interessantes, porém, são as motivações que levam a todos, ricos e pobres, bregueiros ou habitués das óperas no Theatro da Paz, a usar VOCÊ como pronome de tratamento. Quando uma conversa fica tensa, por exemplo (ninguém, afinal, quer correr o risco de conjugar um verbo incorretamente de cabeça quente ou acirrar ainda mais os ânimos ao contrariar nossa língua portuguesa no caso de um interlocutor purista, nunca se sabe). Alto nível de formalidade, embora amigas tenham me garantido que também é usado na hora do xaveco, construção de empatia junto ao interlocutor. Não lembro disso. Do oito ou oitenta, sim.

Algo semelhante acontece na variação entre “égua”, “eras” e “ébe” — este último já um tanto em desuso, porém não extinto, um urso panda da Ray Society, bem popular até os anos 90. Funciona(va) assim: quando o caboco se acha bonito demais pra usar uma terminologia tão chula (WTF) quanto “égua”, vale-se de um “eras” — mais de acordo com o requinte e os bons modos, senão com a própria nostalgia em si do paraense. Agora, quando o caboco tem certeza de que é O bonito, um excêntrico autista em meio à selvageria urbana, solta(va) um “ébe”. Qual o sentido? Sentido nenhum. Se égua é a mulher do cavalo, afinal, dadaísmo nunca é pouco (cit. ref. Reuben da Cunha Rocha) no fantástico mundo esquizofrênico da belle époque utópica.

Outro ponto a se notar: os sotaques. Variam muito. O Pará, como já estamos carecas de saber, é um “estado com dimensões continentais”. Como também se sabe, o Pará recebeu uma enxurrada de migrantes em meados do século passado: gente interessada na exploração de minério, madeira, no agronegócio, contrabando, alguma oportunidade de emprego, uma paixão ou simplesmente fugindo da prisão — nada como se esconder da lei numa terra sem lei, e o sul do Pará, nesse sentido, era uma autêntica Catedral. Pablo Escobar só não deu as caras por lá porque o setor era controlado pelo Cartel de Cali.

No estado cuja capital já foi carinhosamente batizada de Petit Paris, cabe até um sotaque com forte influência francesa, ecos da colonização dos “sapos” na região:

— Tu já si vá?

— Ô já mi vu!

Piada batida em Belém sobre Cametá, que fique claro. Das mais auto-referenciais.

Ao que se chega a uma única conclusão possível: baixa autoestima. Não andamos mais de carruagem (ainda que uns insistam em andar pelados em suas carruagens imaginárias por entre os túneis de mangueiras, qual um Syn de Conde na fábula do rei nu), mas o português continua corretíssimo. O que é nosso, é nosso. E é o melhor do Brasil, embora nunca reconhecido como tal. Uma mentira contada várias vezes até que se torne realidade e, quem sabe, a província do Grão-Pará volte a imperar soberana.

Primeira cidade brasileira a receber energia elétrica, nossa Petit Paris até hoje sonha com as conquistas do passado, vangloriando-se de faíscas contemporâneas que explodem aqui e ali. Único estado brasileiro a crescer economicamente em meio à crise atual. Único time de futebol a ter destronado o Boca Juniors em plena Bombonera (Papão, porra! Haters gonna hate). A disputa com Manaus persiste em pleno Século XXI. Imaginem qual não foi o fuzuê quando a Bahia resolveu reivindicar a maniçoba. Logo a maniçoba. Poucos sabem, mas é o segundo nome de Wagner Moura. Que me desculpem os irmãos paraenses, portanto, mas: a Maniçoba é baiana. Faz sucesso nas telas falando tu foi, tu vai ou… tu fica. O português falado no Brasil. E viva a adesão.

Caco Ishak nasceu em Goiânia, embora seja filho, irmão e pai de paraenses com os quais passou a morar em Belém desde os cinco. Autor do romance Eu, Cowboy (2015), e das compilações de poesia Má Reputação (2006) e Não Precisa Dizer Eu Também (2013). Mais sobre o autor: http://ciaocretini.org. Confira uma entrevista com Caco Ishak sobre o livro Eu, Cowboy. 

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