Coluna 42: ‘Eória’, por Lucimar Mutarelli

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A letra m do meu teclado está solta. Meu marido encaixou mas, ás vezes, não funciona

Escrevi um email e assinei Luci ar

Eh claro que virou motivo para um texto

Quando comecei a frequentar a escola, tive consciência do meu nome inteiro porque em casa e na rua com os amiguinhos era Ci, Cimar, tia ou menina. Não gostava. Na escola, os colegas tentavam me animar

– Imagina, é tão bonito: Lua, Céu e Mar

Passei a desenhar essa sequência para não precisar escrever

Perguntei para a minha mãe sobre a origem, talvez uma história mudasse a implicância

– Era o nome de uma apresentadora de rádio

Procurei no Google: apresentadora lucimar 1969

Nada

Desconfio da memória da minha mãe ou que ela inventou isso só para se ver livre de mim e voltar sossegada para a sua costura

Infelizmente meus pais não estão mais aqui na Terra para que eu possa perguntar. Olho para a Lua e imagino os dois lá. Ele agachado, pitando, plantando e cuidando das galinhas e ela na máquina de costura. Tadinha, meu pai se divertindo e minha mãe na labuta. É o estereótipo que guardei. Meu pai trabalhou muito, a vida inteira e duro, começou a vida na roça e sabia reservar um tempo para o lazer. Gostava muito de jogos. Só lembro da minha mãe sentada na sua poltrona favorita, na sala, depois que meu pai morreu. Antes disso só lembro dela cozinhando ou costurando. Até hoje gosto de ouvir o som da máquina de costura. Visualizo os dois protegidos por São Jorge, salve o Corinthians e quem me convidou para escrever aqui, foi o jornalista Jorge Filholini

Muito tempo depois da primeira vez que eu quis saber sobre a escolha do nome, estava vendo Faustão com a Dona Maria. Ela apontou para a TV e sorriu a risada do Mutley, da Corrida Maluca, como bem observou meu namorado na época, Lourenço. Ela também cobria a boca igual ao personagem. Este sorriso me deixava mais desconfiada porque não conseguia decifrar se ela estava brincando ou se era verdade mesmo. Quanto mais eu pedia para ela confirmar, mais ela ria. O ciclo não tinha jeito de acabar

– Seu nome veio dessa mulher aí. Ela que falava no rádio

Era a Lucimara Parisi, produtora do programa. Busco e descubro que ela nasceu em Santana (eu também), que aos 16 anos mudou de nome: Maria Tereza Romano. O nome da minha mãe era Maria, quando eu era adolescente perguntei na secretaria da escola se poderia trocar de nome, morava no Jardim Romano e sempre brinco que deveria ter nascido em Paris porque amo muito aquele lugar, sem nenhuma razão específica, tirando os macarrons, o champanhe, os impressionistas, o Van Gogh, o Orsay, o Pompidou, a Elis, o cinema, a Camille Claudel, a Chanel, a Juliete Binoche, puxa, eu tenho muitas razões para amar Paris, vou ter que escrever outro texto para falar sobre isso

– E a Tereza?

Meu marido tenta acabar com a brincadeira das coincidências incríveis e mando

– Tereza não tem nada mas outro dia um colega da oficina de roteiro no barco falou que combino com o arquétipo da Madre Teresa

– E ela é a mãe do Roger

– A Madre Teresa?

– Não. A Lucimara. Você me falou que tinha um galo com o nome dele e as galinhas eram Marylou e Sara Lee

– Meu Deus, é verdade!!! E eu sou galo no chinês…

– Isso não tem nada a ver

– Mas é muito engraçado. E ela é jornalista, eu tive uma fase que queria ser jornalista por causa da Marília Gabriela que apresentava um programa na TV. A Lucimara dirigiu o Perdidos na noite e eu fui numa gravação só pra ver o Ultraje a rigor!!!!!!!!!!!!

Neste momento do texto, meu marido me pergunta se eu vi um texto no facebook que uma amiga de uma amiga me marcou, que fala do café Vila França (Paris de novo) e ela pensou que algumas pessoas pareciam personagens do Grifo de Abdera que tem um professor de Educação Física e a Lucimara casou com um professor de Educação Física e eu tenho muitos amigos que são professores de Educação Física – carinhas amarelas gargalhando

Foco

Quando meu marido escreveu a história de Cosme e Damião e quis dar o título de “Eu te amo Lucimar” reclamei muito, falei que era piegas, que não gostava do meu nome, etcetera. Não adiantou. O livro existe mas hoje, mais conformada, acho bem bonitinho quando algum fã ou amigo do meu marido escreve o título pra mim – carinha amarela sorrindo com dois corações vermelhos no lugar dos olhos

Tudo isso para falar que ar é o meu elemento. Luci ar tem muito sentido mas o mar também tem e é muito mais profundo e é isso que eu busco com esses textos. Sair da superficialidade e inconstância do ar e mergulhar no Mar onde tem caranguejo, e meu ascendente é câncer, água, signo da minha irmã Maria Lucia, mãe do Marcio, meu afilhado, que acabou de ter uma filha com a Mery e deram o nome de Maria que nasceu no mesmo dia que a minha mãe. Maria Luiza – figurinhas de coração e lacinho rosas e de oncinha

– Tem Mar também da Marina, Marcia e Marli. Marina era o nome que eu queria por se tivesse uma menina

– Tá vendo, tudo isso porque o Francisco quebrou o seu teclado. Precisa agradecer a ele

– Ele falou que já estava quebrado. Reclamei com ele. Tadinho

– Está tudo bem

– Sim, está tudo bem. O que não está é porque ainda não acabou. É o que dizem os otimistas

– Imagina o que dizem os pessimistas

– Quando eu ligava pra minha mãe e perguntava se estava tudo bem, ela respondia

– Tá tudo a esma erda de sempre

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