DAMA DO LODO: ‘Coisas que Ninguém acredita’, por Marina Filizola

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Tudo Bem, eu sei, sou hétero. Pelo menos fui algum dia.
Mas tenho certeza que foi exatamente ali que me apaixonei por ela: do primeiro
olhar parafusado até o tchau inadmissível. Em algum momento impreciso, pra não dizer equívoco, houve transmissão dentro do nosso encouraçado universo paralelo.
E submergimos nos nossos desejos. Mergulhamos de cabeça. Sem averiguar se havia espaço suficiente para duas pessoas dentro da mesma fantasia. Apenas nos lançamos. Deu no que deu.
Somos parecidas.
Até no beijo que se completa. As línguas se enroscam sem se agredir. Todos fluidos se misturam numa dança obscena e ordinária. Eu jamais poderia imaginar que meninas beijam muito melhor que homens. Olha como as coisas são.
Gente que não te engole. Não te consome. Que saliva sem babar. Sabe?
Nosso silêncio se declara.
Não me deixa nauseada. Ainda não deixou.
Faz dessas coisas: levanta do nada e caminha na direção contrária.
– Vem, vamos andar de olhos fechados.
Como se fosse desprendida do mundo. Não justifica patavinas. Apenas levanta e vai.
Eu nunca a conheci por completo. Nem quero conhecer. São muitas óticas dentro de uma pessoa só.
– De mãos dadas?
– Não. Não precisa. A gente não precisa de nada disso.
Rasgamos todos os protocolos sociais no dia que nos conhecemos. Não foi um trato. Foi o que somos.
Nunca gostei dessas listas patéticas de obrigações sociais pré-estipuladas que definem os relacionamentos e dividem as pessoas entre as que se envolvem, e as que não se prendem. É ridículo.

Dar as mãos em tempo algum gostei. Dá choques.
Fico esquisita. Acho desnecessário. Eu não gosto muito de quase nada.

Andei sempre na contra-mão da vida.
Na contra-mão de destino.
Não porque calculei. Nem porque quis.
Mas percebi que a vida me permite errar. Eu já entendi essa parte da minha história. Mas dela, dela eu gosto de verdade.

Gosto mais que daqueles cinco minutinhos encantadores na cama depois que o despertador toca.
Eu sei. É muito. Muito mais que muita coisa.
Namorar ela era minha segunda intenção. A primeira era ser feliz na cama dela de solteiro um sábado inteiro. Algum cálculo deve ter saído errado.

É impossível viver sem errar em pelo menos alguma coisa durante a vida. A
menos que se viva de forma tão comedida que no fim, você nem sabe se viveu de verdade. E nesse caso, o erro existe: omissão.
Errar é fascinante. Eu acredito nesse tipo de coisa. Coisas que ninguém
acredita. E se um dia a vida resolver me dar as costas, eu passo a mão na bunda dela. É assim que eu funciono.
As vezes gasto a semana escrevendo coisas que não consigo publicar. Falando ao telefone sobre problemas que nem são meus. Isso me cansa.
Ela percebe quando eu fico ilhada. Quando me sinto subtraída. Repara coisas em mim que eu evito olhar. Admiro e considero quem respeita o silencio dos outros.
Em São Paulo o amor é quase impossível. Tudo é frio. As pessoas não se esbarram. Não se olham. Não se cumprimentam. São todos fantoches digitais da geração fast-fuck que se proliferam em cyber-cafés escuros. Vivem soterrados por uma metralhadora de compromissos inadiáveis. Aniquilados pelos próprios sonhos. Se sentem vitoriosos com seus miseráveis trintas segundos de silêncio quando a merda do telefone fica no vibra-call. Esperando ligação de ninguém.

Se a gente não se atirar no mundo nada acontece. Se não acreditarmos em sincronismo de energia não nos agarramos ás oportunidades quando elas eclodem do meio do
nada. Destino não é acaso. Nada é coincidência. As coisas são o quê são e acontecem pra te fazer ver o que você não quer enxergar.
Ela dança comigo como se não houvessem pessoas ao redor. E de verdade, não haviam. Quando as pessoas bebem ficam tão enraizadas nos próprios dramas que seriam incapazes de notar nosso desejo. Por isso não bebo. Nem ela.
Ela me esconde dos raios verdes que saem da caixa de som e me empurra contra a parede.
– Tenho curiosidade em você.
Estou sóbria, sou hétero, mas não quero evitar.
– Vem.
Sinto o gosto marinho de curiosidade escorrendo na boca dela. Sei que esta pensando em um monte de coisas. Da pra ouvir a maquinaria cerebral se rompendo.
Coloca a mão dentro da minha calcinha.
Pega a minha mão e leva pra dentro da calcinha dela.
Não vejo nada. Não importa. Tenho uma igual.
É obvio que me sinto confortável com isso.
Quando tudo na sua vida falhar, tente o obvio.
Ele é a verdade mais difícil de se enxergar.

marinafilizola

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