Chico César sobre ‘Estado de Poesia’: “É um disco que fala muito com a nossa época”

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Chico César durante show em São Carlos

 

Para viver em estado de poesia
Me entranharia nestes sertões de você
Para deixar a vida que eu vivia
De cigania antes de te conhecer

Na última quinta-feira (29), São Carlos entrou em estado de poesia ao som dos versos das novas canções do recente álbum do cantor e compositor, também poeta, Chico César. De volta à cidade e no palco do Sesc, Chico apresentou a turnê do álbum Estado de Poesia, o oitavo da carreira. Com roupas brilhantes e óculos escuros, o cantor trouxe samba, forró, frevo, toada, morna e reggae.

Para viver em estado de poesia, Chico entregou um pouco da Paraíba, terra natal, para a noite são-carlense, revisitou seus clássicos e até abriu a porta para Espumas ao Vento, de Fagner. A palavra mágica para o show de Chico César foi simpatia. Sempre dialogando com o público, o cantor não deixava a agitação abafar. Em tom alto, Chico fez o baile com as novas canções que já estavam na voz do público, são elas Miaêro, Guru, Negão, No Sumaré, passando pelo momento marcante do concerto com Respeitem os meus cabelos, brancos, do álbum homônimo lançado em 2002, chamando a força e presença do nome de Mandela para o show. “Se eu quero pixaim, deixa / Se eu quero enrolar, deixa / Se eu quero colorir, deixa / Se eu quero assanhar, deixa / Deixa, deixa a madeixa balançar / Mandela / Mandela / Mandela”.

Minutos antes do show, Chico César, prestativo, concedeu uma entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate, em que contou sobre o novo disco, Estado de Poesia: “Eu defino o Estado de Poesia como um momento de libertação, apesar das canções terem sido feitas em ambiente de gestão pública, o disco vem depois, sendo uma liberdade”. Sobre as canções, Chico destacou: “Estou usando mais a guitarra porque para mim o disco tem um espírito dos anos de 1970. Espírito mais libertário, anárquico e que a guitarra traz um pouco disso”.

Confira a entrevista completa abaixo: 

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Chico César e banda em estado de poesia

O que diferencia Estado de Poesia dos seus outros álbuns

Existem várias particularidades, do ponto de vista estrutural o diferencial foi que o disco saiu devido o edital Nacional da Natura Musical. Não saiu por uma gravadora grande, como havia acontecido com os meus outros discos. Além disso, o álbum saiu pelo meu próprio selo e fisicamente pelo selo da Heloisa Aidar, a Pommelo, e distribuido digitalmente pelo Laboratório Fantasma, de Evandro Fióti e do rapper Emicida. Já do ponto de vista da superestrutura, ou seja, do que está dentro do disco, tem o fato das musicas terem sido compostas na Paraíba, no ambiente que me deu origem, onde eu nasci. Há também o fato de eu ter feito muitas canções como uma louvação à paixão por Bárbara Santos, com quem estou casado.

Como surgiu o título do disco?

O Estado de Poesia vem depois de um tempo que vinha trabalhando como gestor do estado – da Paraíba. Eu defino o Estado de Poesia como um momento de libertação, apesar das canções terem sido feitas em ambiente de gestão pública, o disco vem depois, sendo uma liberdade.

O álbum passeia por diversos estilos, nesse período de produção como foi a preparação das melodias?

Em todos os meus discos eu faço misturas de ritmos, somente no Aos Vivos (1995) que tem uma particularidade por ser um disco de apenas voz e violão. Eu sempre estou passeando em diversas melodias e parcerias. No Estado de Poesia eu uso a guitarra 99% das músicas, toco violão apenas em uma faixa, que é no Miaeiro, uma espécie de morna. Estou usando mais a guitarra porque para mim o disco tem um espírito dos anos de 1970. Espírito mais libertário, anárquico e que a guitarra traz um pouco disso.

Libertário e também engajado. Todas as canções retratam as discriminações que ainda são praticadas no nosso cotidiano. Encontramos isso no preconceito racial em Negão, os moradores de rua em No Sumaré, chegando na canção-denúncia Reis do Agronegócio. Fale um pouco sobre esta música, que você até chegou a cantá-la no Congresso. 

Sim, exatamente. A canção Reis do Agronegócio, que é da letra de Carlos Rennó, já estava mixada e eu a musiquei. Nós a apresentamos em um encontro de Sem Tetos, em São Paulo, uma semana depois em um acampamento indígena, em Brasília, e foi ali que eu senti que a música tinha uma urgência, não podia esperar. Senti que a música era deste tempo, do nosso tempo. Acabei cantando ela no Congresso. Decidi registrar Reis do Agronegócio no disco. Nos shows eu vejo as pessoas cantarem de cor, isso é muito bonito.

É um disco que fala muito com a nossa época. Estamos em uma época de muitas contradições e contra pontos de vista. Temos uma sociedade que avança de um lado, aquela que aceita a relação e o casamento de pessoas do mesmo sexo, aceita mãe solteira, aceita que os índios tenham um lugar digno para viverem. E tem também o outro lado, uma parte do Congresso que representa a sociedade conservadora, que é contra o anticoncepcional, contra o direito das mulheres, que votam em pautas conservadoras. Essas são as contradições de nossa época. O disco conversa com a tensão da nossa atualidade.

E qual é o estado de poesia do Chico César?

É um estado de autogestão. Ou seja, cada vez menos instituições e mais pessoas. Menos Estado e mais poesia. Quando eu digo isso, significa menos igreja, menos família tradicional e mais as pessoas no movimento delas. O meu estado de poesia é isso, para as pessoas que vivem poeticamente. O catador de papel pode fazer o seu trabalho poeticamente, um professor mesmo com o salário péssimo pratica o ensino de forma poética. No fim é o que sobra para a gente. Quando a gente vê a polícia parando carros de professores e os tirando de dentro na cacetada, é uma coisa surreal, difícil de compreender. E quando começamos a ver essas atitudes como cotidianas, algo está errado, e uma ala conservadora da sociedade está tomando conta, Nós precisamos combater isso de todas as formas, com cidadania e poesia.

Entrevista: Livre Opinião

Confira as fotos do show

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2 comentários sobre “Chico César sobre ‘Estado de Poesia’: “É um disco que fala muito com a nossa época”

  1. Pingback: Abertura da Balada Literária terá show de Chico César no Auditório Ibirapuera | Livre Opinião - Ideias em Debate

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