DAMA DO LODO: ‘Um Puta Casal’, por Marina Filizola

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– Olha aquele cara.

– Qual?

– O da ponta. Com pinta de esquisito. Olhar endurecido sorriso engasgado. Viu?

– Vi.

– O filho da puta tem cara de homem-bomba. Olha que postura insociável da porra.

– Ô sujeitinho ruim você é, viu… Pior que o desgraçado tem cara de homem-bomba mesmo.

– Num disse?

– Serial-Killer extraditado. Tá perdido aqui.

– Parece que tem um cabide preso na camisa. Ou é a bomba amarrada com silver-tape na costela. Por isso não respira.

– Quando vira o pescoço o resto todo vira. Todo maciço. Curioso né?

– Sugestivo, isso sim… Um homem-bomba bem na nossa frente. Quem diria. Nossa vida pode estar por um fio. Casa comigo?

– Cala a boca.

Era assim quando o casal comia fora.
Mesmo se só estivessem se deslocando sem pretexto por aí, gostavam de dissecar as pessoas.
Não era por mal que olhavam. Apenas gostavam de olhar as pessoas sendo.

Era sempre um espetáculo de comentários arbitrários. Despropositados. De suposições curiosas. Das mais aleatórias e despretensiosas que se possa imaginar.

Tornavam o mundo, quase sempre tão sólido tão inflexível, numa erupção de cores.

Quando flanavam pela paulista entravam em êxtase. Era um show de excentricidade.

– E aquele casal de mãos dadas? Olha que coisa esquisita.

– As mãos estão mortas.

– não sei porquê dão as mãos se não querem dar mãos.

– devem ter brigado. Não acha? Bate-boca e panelada.

– estão tentando se conciliar… Olha a cara de bosta dela. Não fode a meses.

– Faz aniversario que não trepam. Certeza. Dali não sai mais nada.

– Deve se chamar Lurdes. Lurdes é nome de meia-foda. Combina com ela.

– Anda de mãos dadas comigo?

– Vai se fudê antes que eu me esqueça.

Dali, saíam as pérolas jamais conjeturadas por seres regulares.Era preciso muita sensibilidade e discernimento para observar as anormalidades camufladas.

Adoravam imergir naquele universo paralelo que vinham bordando a meses.
E pressupor o que os outros pensavam de noite no escuro. Dentro do banho. Se metiam de luz apagada. Se davam a bunda ou comiam gente. Ou se escondiam um vibrador rosa-choque dentro da bolsa Louis Vuitton.

– O pai japa e o filho japa vindo. Se liga.

– O pai ainda não sabe.

– O quê?

– Que o filho é gay. Não tem a menor idéia.

– Nossa, fiquei arrepiada!

– E o melhor: não vai saber nunca.

– Nunca. O cara é da yakuza, repara na tatoo saindo da manga da blusa. Não aceitam gays na Yakuza.

– Sensacional mulé!

O ser humano era um bicho peculiar. Disso, tinham certeza absoluta.

As pessoas que valiam muito, como eles, tinham maneiras simples de viver a vida. O problema é que as maneiras simples de viver bem eram quase sempre vistas pela sociedade como sinais e rastro de pouco valor.

Um erro descomunal. Na verdade, vive-se muito bem com pouco.

Faziam do seu mundo, um universo contaminante.

A maioria das pessoas se contentavam com migalhas. E se fantasiavam de grife pra maquiar o vazio desabitado que as devorava por dentro.

Não se arriscavam a dizer o que sentiam.

A fazer o que queriam.

Jamais mergulhariam em situações com desfechos duvidosos.

Deviam achar que engabelavam todo mundo com aquelas risadas sem dentes.

Mas não enganavam á eles.

E eram tantas as verdades inventadas, que se algum infeliz tomasse conhecimento de tudo o que era criado a seu respeito, na certa não suportaria.

– qual era o nome do poderoso chefão?

– Marlon Brando.

– Não jegue! Não o ator… Eu vi esse filme com o Al Pacino, não era o Marlon Brando.

– Era o Marlon Brando.

– Tá porra. Al Pacino, Marlon Brando, que se foda! O nome do personagem, lembra qual era?

– Porquê?

– Ali atrás. Dá um 360 graus..

Era um lorde o sujeito. Em restaurantes com mesa no canto, a visão privilegiada era sempre dela. Ele cedia o camarote sem pensar. Não se importava. Até preferia assistir as cenas através da ótica ímpar daqueles olhinhos puxados lindos que ela tinha.

– Don Corleone! Lembrei! Puta merda, o Don Corleone tá sentado ali atrás.

Ele se virou. Lá estava o homenzarrão quadrado com rosto de bolacha, sentado sozinho, o pão italiano inteiro dentro na boca.

A reação foi automática e genuína. Como tudo o que havia nele.

– sensacional, toca aqui mulher, essa foi de fuder. Você tá se superando.

E deram um “touch” com uma conexão química inabalável. Parecia que tinham visto uma estrela cadente se suicidando no céu da Bahia numa praia deserta.
Não havia ninguém fora eles ali. Uma cumplicidade ímpar.
Única.
Coisa rara de se encontrar.

Levantou da cadeira, se debruçou sobre a mesa toda chiquetosa, e tascou-lhe um beijo doce nos lábios com olhos apaixonados e completamente entregue.

– Amo você mulé. Muito.

A felicidade deles contaminava.
Nada precisava fazer sentido.
Essa era a graça.

– Por sinal, toda a máfia italiana veio aqui hoje.

– num é? Só gente esquisita. A macarronada deve ser de fuder.

– Vai comer o quê gata?

– O mesmo que o Don Corleone.

– O que ele tá comendo?

– Não tenho a menor idéia.

As coisas mais simples da vida eram as mais extraordinárias.
Era uma formula simples:
levantavam de manha e iam pra cama a noite. E nesse meio tempo, se ocupavam da melhor forma que podiam.
Se encantavam com a magia escondida na rotina do dia-a-dia.

– Vamos pra casa.

– vamos.

– Sabe porque te amo tanto?

Uma pessoa inteira não merece uma pessoa pela metade. Por isso estavam junto.

– Você tira sorrisos de mim quando eu menos espero e mais preciso. Por isso.

Eram um puta casal.

marinafilizola

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