Uma moeda e os múltiplos de Lourenço Mutarelli em “O Grifo de Abdera”

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O Grifo de Abdera

Por: Érico Mello

Em certo momento da trama, Mauro Tule Cornelli em conversa com Oliver Mulato revela que este é um dos personagens de seu novo livro, fazendo com que Oliver entre em desespero. Oliver não entende o motivo que o faz ser personagem de um livro, começa a afirmar que sua vida nem sequer dá um livro e que não quer ter sua vida exposta. Mauro nota que o rapaz está nervoso e o acalma afirmando que era apenas uma brincadeira.

O brincar, tirar sarro de si e das diversas formas interpretativas que as pessoas criam de um artista,  estes são os motes que Lourenço Mutarelli aborda em seu novo romance, O Grifo de Abdera (Companhia das Letas), lançado recentemente após seis anos de intervalo na literatura. O último trabalho do autor havia sido Nada Me Faltará. Mauro, seu personagem no romance, afirma que foi ideia de seu editor dar um intervalo na escrita.

Nesta nova trama, Lourenço brinca consigo e com as tantas histórias que as pessoas – leitores e amigos – têm em relação a sua personalidade. Aliás, o autor brinca até com as características de certos autores, ou avatares de acordo com a trama do romance. Mutarelli retrata que o escritor é mais um no meio da multidão, o escritor que pode ser outro durante uma palestra ou bate-papo em festivais e feiras e, também, o escritor no ambiente familiar, aquele que paga contas, fica endividado. O autor que desce do salto. Mutarelli brinca com a marca que os leitores têm de seus autores, muitas vezes criando lendas e outras características. E está aí o enredo de O Grifo de Abdera.

Para começo de conversa, o livro é assinado por quatro autores. Sim, quatro! Lourenço Mutarelli, Mauro Tule Cornelli, Oliver Mulato e Raimundo Maria Silva. Todos estes são Lourenço em parte de sua carreira cultural.

Niltinho Bicudo e Lourenço Mutarelli (Foto: Renato Parada)

Niltinho Bicudo e Lourenço Mutarelli (Foto: Renato Parada)

O principal personagem nem é Lourenço Mutarelli, e sim Oliver Mulato, um professor de educação física de meia idade, decadente com a vida que leva. Até que sua rotina muda quando começa a ter ataques sem sentidos. Oliver começa a ter rápidos lampejos de falas em espanhol nos momentos inoportunos. Mas as falas no idioma castelhanos são pejorativos. Esta ação deu inicio por causa que Mauro Tule, um dos personagens do romance, recebe de um estranho uma moeda milenar, o grifo de Abdera. Depois desse encontro inesperado e do presente inexplicável, Tule e Mulato se conectam, ou como na obra diz: se tornam duplos. Somente Mauro sabe disso, Oliver não compreende o motivo de seus ataques repentinos e a trama desenvolve uma relação diferente entre os dois.

Oliver, nos momentos vagos, gosta de experimentar o seu trabalho como desenhista. O livro também vêm anexadas oitenta páginas com os traços de Mutarelli/Oliver. Sabendo do dom do educador físico, Mauro tenta de alguma maneira ter uma relação mais próxima. Convida Oliver para ser o seu parceira artístico. É a primeira vez que Mutarelli mistura seus dois trabalhos artísticos: desenhista e escritor. Oliver tem o desejo de ser um desenhista reconhecido, mas se ilude quando percebe que a área não é lucrativa. Este uso no livro  é eficaz e sutil na carreira de Mutarelli, tornando-se uma crítica do autor à área que ele sempre trabalhou e nunca se sentiu à vontade. O próprio Mutarelli já relatou que se sente mais “abraçado” pela literatura do que no ambiente de quadrinhos.

Em paralelo com o enredo de Oliver e Mauro, encontramos Raimundo Maria Silva, ou seja, o Mauro que o público vê em entrevistas, bate-papos, feiras e festas literárias e, também, na orelha do livro quando apresenta a biografia do escritor junto a uma fotografia. Tudo isso porque Mauro Tule, o verdadeiro escritor das obras, não gosta de aparecer em público. Em um relato no livro, Mauro Tule ao lado de seu amigo desenhista Paulo, decidem criar um personagem-autor para assinar os trabalhos que os dois faziam. Porém, Paulo morreu e Mauro, não sabendo nada de desenhos, embarca na área de literatura, escrevendo o livro O Cheiro do Ralo.

A partir de um anagrama de meu nome [Mauro Tule Cornelli], eu e Paulo criamos um autor. Lourenço Mutarelli. Assim assinamos nossa primeira parceria. Quanto ao Mundinho, nem precisamos tirar foto. Quando explicamos o plano, ele [Raimundo Maria Silva] disse que tinha uma “da hora” que um colega seu tinha tirado. (p. 22).

Raimundo se destaca pelas atitudes de malandro e beberrão. Na trama, após o sucesso de O Cheiro do Ralo, Maria Silva começa a chantagear Mauro. Pede dinheiro, ameaça ir a público e contar tudo se o escritor não começar a lançar um livro logo. A esposa de Maria, a Lucimar, também faz ameaças. A relação de ambos – Maria Silva e Mauro Tule – pode até ser uma analogia à convivência de outros dois personagens da cultura pop: Batman e Coringa.

Os dois se completam, mas não conseguem assumir isso. Um precisa do outro, mesmo que a raiva e o ódio ultrapassam a convivência. Lembrei de uma passagem da clássica obra A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, que pode dialogar com a relação de Mauro e Raimundo. O final da HQ vemos os dois personagens rindo de uma piada contada pelo Coringa após diversos eventos catastróficos. O livro de Mutarelli termina com os dois protagonistas gargalhando após uma piada. O riso exagerado, assumindo um escape na companhia de uma pessoa desagradável, mas que se torna a única capaz entender e se debruçar na situação desajeirada após um evento traumático que modificou os atos psicológicos das personagens. E assim como a HQ, o Grifo de Abdera sabe cortar o seu final, sem explicação, pois a loucura não tem motivo para ser detalhada.

Final de "A Piada Mortal"

Final de “A Piada Mortal”

Como em todos os romances de Mutarelli, o personagem vai até o fundo de sua existência, chegando a ser grotesco, para compreender o seu estado e presença no mundo. A importância do sujeito, muitas vezes desnecessária, na sociedade. A decadência exacerbada para se colocar em questão e reflexão. Em O Grifo de Abdera, Mutarelli desenvolve uma trama autodepreciativa, onde a figura do escritor é idealizada, questionada por críticos e, certamente, iludida.

Nesta nova obra de Mutarelli, o autor, é que ela ultrapassa a leitura e vemos diversos relatos que o escritor acrescentou na trama que já foram ditas por ele em palestras e entrevistas. Mutarelli brinca com o leitor, mostra até que ponto a relação humana é sincera, onde na sociedade utilizamos diversos múltiplos para convivermos. Na obra, Mutarelli também confunde o leitor, quem assina o trabalho são os seus múltiplos, isto está até no ISBN. A brincadeira com a foto do autor ao lado do ator Niltinho Bicudo é de uma sátira ao narcisismo literário sem igual.

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Lourenço Mutarelli lança um romance para a época de grande leva de escritores, feiras e festas literárias. Analisa ironicamente esses ambientes e critica a forma como editoras e curadores utilizam a figura do autor como produto. Mostra que pode enganar, ficcional ou não, o sistema literário e transformar desilusões e relações humanas – mesmo que sejam entre quatro pessoas – em humor com dose alcóolica de consequências graves.

CONVITE: Lourenço Mutarelli realiza a leitura dramática do último capitulo do livro O Grifo de Abdera, seu mais recente lançamento, acompanhado do guitarrista Fábio Brum e dos atores Niltinho Bicudo e Otávio Müler, o espetáculo Spoileracontecerá no teatro do Sesc Pompeia, na quarta-feira (11/11), às 20h00, grátis. Distribuição de ingressos será realizada uma hora antes da atividade. Após a ação, haverá sessão de autógrafos do novo livro. Mais informçãoes, clique aqui.

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