Coluna 43: ‘Epitáfio’, por Lucimar Mutarelli

unnamed

(Foto: Rogério de Castro)

 

“queria ter aceitado as pessoas como elas são

cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”

Eu acho que foi o Lucas, meu aluno, que me indicou A Casa do lago

– A senhora gosta de arquitetura

Vi e amei. Além da presença dos meus queridos Sandra Bullock e Keanu Reeves, a história é linda

Em um curso sobre literatura fantástica, a professora Ana Lucia Trevisan, fez uma análise do conto A casa tomada, do Cortazar, que me deixou transtornada

Na oficina com o Caio Fernando, ele teve a ideia de escrever uma história coletiva onde cada um dos participantes seria um membro da família e o Caio, a Casa

Caio

Caso

Casa

Nós começamos a história, cada um desenvolveu um personagem. Com o término da oficina, o romance ficou inacabado

Escrever sem o Caio, não tem sentido mesmo

Os meus pais construíram uma casa no Itaim Paulista e, hoje ela pertence a minha cunhada e comadre, duas sobrinhas e dois sobrinhos netos. Elas mantém a história da casa viva. Sempre que tem festa na família, sou uma das primeiras a pedir que seja lá. Às vezes, até esqueço de consultar a Lalinha. Ajo como se a casa ainda fosse minha

A casa vibra com tantas marcas das pessoas que passaram por lá. Fiquei aqui pensando. Uma parte de cada um foi deixada naquela casa. Não somente dos moradores. Todas as pessoas que respiraram ali dentro

Ou não respiraram

Quando meu pai morreu, no dia 31 de dezembro de 1990 (segunda-feira), insisti para que fosse velado em casa. Muitos foram contra. Eu argumentava dizendo que seria muito melhor para a minha mãe, passar a noite toda no velório, poderíamos comprar pão, leite e fazer café. Depois foi a vez da minha mãe

– Eu só saio daqui morta

Ela não morreu em casa. No dia que ela morreu, 16 de outubro de 2010 (sábado), fiquei do lado daqueles que queriam o velório em casa

Meu marido me ensinou a lidar com a perda de uma maneira muito simples

– Eles seguem vivos dentro de você

Este ano, perdi meu irmão (06 de abril, segunda-feira)

Guilherme deu vida a esta casa somente durante cinco anos. Na minha memória afetiva foi muito mais. Estava habituada a chegar lá e encontra-lo com seu cigarrinho, jogos online e o canal de esportes sempre ligado. Tento confortar minha cunhada. É impossível. Ela não se contenta somente com a lembrança. Não posso fazer mais nada além de sentir compaixão. Eu sei o que é perder pai, mãe, irmão, gatos, primos e amigos mas eu não sei o que é perder o marido ou o filho. Quando eu e meu marido concordamos que teríamos somente um filho, ouvia muito

– Quem tem um filho, não tem nenhum

Ficava tão chocada com essa fala. Isso quer dizer que se você tem dois filhos, você pode perder um que vai doer menos? É um ditado absurdo e cruel, muito cruel. Quem tem vinte filhos também não tem nenhum. Porque filho a gente cria pro mundo, para ir embora mesmo, para viver a própria vida. Ou deveria ser assim

Falar é muito fácil. Escrever também, é bico

O tempo é o melhor remédio e vai passar e porque você não viaja, olha pras crianças, a vida continua, pelo menos você tem seu trabalho, levanta dessa cama, a gente não pode enfraquecer, tem que ser forte, levanta e vai trabalhar, se apega com deus, pensa em quem está pior do que você, não pode ficar triste, tem que pensar nos seus outro filhos que estão vivos, olha quanta coisa boa a senhora tem, depressão é coisa da cabeça, tem que arrumar alguma coisa para fazer, a vida continua, deus não quer te ver triste

Falar é muito fácil

Mesmo

– E a casa?

– A casa tem um simbolismo profundo. Tem um texto lindo do Bachelard que ele discute cada parte da casa e faz uma comparação, tipo, o porão é o inconsciente e o sótão, a elevação espiritual

– Ao mesmo tempo, a casa também pode ser prisão. Tem gente que escolhe morar na rua para viver plenamente a liberdade

– Eu gosto da ideia de uma casa viva, antropomórfica, orgânica. De uma casa que te recebe bem

– Não é a casa. São as pessoas que moram na casa

– Nosso corpo, nossa casa

– Tem aquela frase do Mutarelli “morrer é como voltar pra casa”

– Do pó ao pó

– Mas a gente não veio da terra

– Eu não quero ser enterrada. Quero ser cremada e jogada na 23

– Na Avenida?

– É

– Credo! Por que você não escolhe um lugar mais bonito. No mar, um jardim, em Paris

– Eu quero na 23 porque nasci no dia 23 de maio, é meio que lógico

– E qual é o seu epitáfio mesmo?

– Vai ser bom, não foi?

“o acaso vai me proteger

enquanto eu andar distraído

o acaso vai me proteger

enquanto eu andar”

Sérgio Britto (Titãs)

lucimar-mutarelli2

Leia as outras colunas publicadas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s