Diego Moraes realiza lançamento do livro “Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘Eu te amo’ no orelhão” em São Paulo

unnamed

O coletivo paulistano Corsário-Satã ganha o segundo título de seu catálogo: Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘Eu te amo’ no orelhão, do escritor amazonense Diego Moraes. O primeiro, Nominata Morfina, de Fabiano Calixto, que estava esgotado, recentemente ganhou reimpressão. Ambos os autores estarão na Balada Literária, numa conversa junto com o poeta Bruno Brum, no dia 20 de novembro, em São Paulo, para marcar o lançamento do novo volume.

Quarto livro de Moraes, este poemário é composto por 234 peças epigramáticas, começando por frases soltas, hiperconcentradas, que vão ganhando corpo na medida em que as páginas avançam, terminando em peças líricas e poemas em prosa. O livro se assemelha a um tratado de ética literária, despido de toda a moralidade, tomando a pobreza do poeta como condição existencial de sua arte. Menos que uma lista de precursores ou um cânone, Dostoievski, Bukowski, Baudelaire e Camões formam, com o próprio autor, uma lista de nomes sujos no Serasa. O estado financeiro crítico da poesia é uma constante no livro de Diego Moraes, sem com isso se transformar em lamento. Ao contrário, há uma espécie de celebração constante das pequenas vitórias, da sobrevivência diária que, de algum modo, contorna a pecúnia artística sem financiamentos ou jabás.

Ao mesmo tempo, o livro parece ir na contramão de qualquer processo jurídico: vai da sentença até a narrativa do crime. Um crime sobretudo passional: há uma violenta ternura com a qual Diego Moraes nunca deixa de se dirigir à poesia.  Por isso, os cenários são o bar, a zona, a escola – as instituições literárias do submundo. É um amor a moda antiga: desde seu título, ainda emprega métodos que parecem agora de outro mundo, de outro tempo. A máquina toma suas moedas, ameaçando a qualquer momento corta a linha. Diego Moraes se equilibra na corda-bamba da comunicação, sem ter certeza quando será ouvido. Por isso, é preciso ser conciso. Por isso, não pode perder tempo.

Sua luta é contra os mitos das dívidas saldadas, da ascensão da classe C: a fé no dinheiro, alimentada por Silvio Santos e pela Mega Sena, em troca da qual só se recebe o tédio. Não por acaso domingo é um dia maldito no calendário de Moraes – primeiro da criação, último da poesia.

Seu lirismo é paradoxalmente anônimo: suas confissões de amor, suas máximas sobre a bebida, dotadas de uma profunda melancolia, parecem habitar uma dor comum, a verdade por trás dos chavões amorosos, das músicas bregas, dos conselhos de garçom, das frases calculadas sussurradas pelas putas de Manaus, do heroísmo dos filmes da Sessão da Tarde ou do Corujão (é um fã inveterado de Charles Bronson e Clint Eastwood).  Extrair daí o sofrimento, os afetos e o ódio dos desolados – essa parece ser a tarefa da poesia segundo Diego Moraes. Como diria seu insuspeito precursor, o poeta de Boedo, letrista de tango, Raúl Tuñon: “Eche veinte centavos en la ranura/ si quiere ver la vida color de rosa”. Do outro lado da linha, o poeta ainda espera uma resposta.

Esse código de conduta extravasa as páginas do livro. Diego Moraes, não por acaso, é um dos idealizadores da Flipobre. Seus livros são publicados em editoras experimentais, paralelas: primeiro na Barteblee, onde lançou seus dois primeiros livros (A fotografia do meu antigo amor dançando tango e A solidão é um deus bêbado dando ré num trator, de 2012 e 2013); depois, Um bar fecha dentro da gente (2015), pela Douda Correria, editora lusitana; agora, na Corsário-Satã. Logo estará também em tradução, na Argentina, numa coletânea da editora Ediciones Outsider.

Diego Moraes vive do mercado negro da literatura, último recôncavo para a poesia.

diegomoraes

DEPOIMENTOS SOBRE O LIVRO

Conheci o Diego Moraes há mais ou menos dois anos, pelo Facebook. […] Até então, eu, distraído que sou, não tinha parado para prestar atenção em seus comentá­rios controversos, seus poemas líricos e cortantes. Aliás, acho que muita gente conheceu o Diego da mesma forma que eu, nas redes sociais. O cara é um fenômeno do meio virtual. Lá de Manaus, onde nasceu em 1982 e vive até hoje, mobiliza uma crescente legião de seguidores fiéis. Pessoas sedentas pelo próximo post, a próxima tirada, a próxima grande frase. Nesse sentido, Diego é um iluminado que nunca decepciona seus seguidores. É uma usina de criação literária em constante funcionamento. Passando dos trinta anos, idade em que muita gente já está deixando de escre­ver para cuidar da vida, ele segue com o furor e a paixão de um jovem que acabou de descobrir a literatura. E isso alimenta muita gente. Me alimenta.

Bruno Brum, poeta, autor de Mastodontes na sala de espera, no prefácio para o livro

Diego vem da mesma laia de escritores como Lima Barreto, Charles Bukowski, John Fante, Mário Bortolotto. Escritores que procuram reestabelecer um cenário que não é (faz muito tempo) mais aquele do escritor da elite, fadado a seu próprio conforto, escrevendo sua literatura asséptica para o deleite de seus pares sorbonícolas. Não. Não é uma literatura de escritor criado a leite ninho que estudou em escola bilíngue e sempre teve biblioteca em casa. Diego, assim como muitos dos melhores e mais autênticos escritores em atuação no Brasil hoje, chega para meter o pé na porta. Sua cosmogonia é construída pelos becos sujos, pelos mendigos, putas, traficantes, pelas ruas vomitadas, pela prosa enviesada das criaturas da noite. “A rua é um poeta lido em voz alta”. E a voz que habita estes escritos vem de outro lugar de enunciação. Um lugar tenso. Estes aforismos formam essa voz que canta na miséria, que vai do humor gauche ao desalento, da acidez ferina ao lirismo mais tocante. O nome no serasa, a dívida no bradesco, o peito rachado pela metralhadora da desilusão amorosa, a poesia (numa metalinguagem sem afetação, onde impossibilidade do fazer poético é a mesma impossibilidade de viver no mundo capitalista). O campo da enunciação de Diego Moraes é um campo minado. Muita treta pra Vinicius de Moraes.

Fabiano Calixto, poeta, autor de Nominata Morfina e Sanguínea, na orelha do livro

Ignoro quem seja Diego Moraes. Suspeito que seja apenas uma fachada. Não um pseudônimo, que traveste o RG contra desonra do batismo. Algo mais como o nome de fantasia da empresa fantasma da poesia, com ficha suja no Serasa, e a qual vi meu nome ser atrelado como editor. Golpe corsário.

Assim me chegou às mãos um documento – suspeito – de Manaus, composto por 200 sentenças incriminadoras, caindo sobre o pescoço do mundo. Ligeireza e peso típicos do aforismo. E, no entanto, sua lâmina já acumula sebo e ferrugem em demasia para continuar atrelada a um gênero moral. Seu estilo é outro: o daqueles que escrevem sem caneta nem papéis, em superfícies que repartem público e privado, indigno e digno, o infame do medíocre. O texto de Moraes se dissipa como livro e se espalha nas inscrições em portas de banheiro (“o facebook dos pobres”, como se lê numa delas), nos lamentos suicidas em criados-mudos de zona, nos desenhos em carteiras de escolas públicas, nas vinganças em paredes de cadeia, nos convites em cabines telefônicas, nos testemunhos profanadores em bancos de igreja. Mensagens condensadas, últimas palavras, escritas em uma textura rugosa, com a ruidosa caligrafia da mão trêmula, auxiliadas por canivetes, lápis de olhos, pregos, branquinhos – com as próprias unhas, se necessário. Escavando lentamente para romper as linhas de confinamento e adequação.

Eis a força de Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava eu te amo no orelhão: a das demonstrações anônimas que acumulam o ódio pela vida dividida e endividada, repetidamente reproduzida por essa legião de revoltosos ainda tímidos, desses desesperados agonizantes, cuja assinatura falsa é “Diego Moraes”.
Conspiração para detonar este maldito dia de domingo e arrancá-lo dessas corolas da vida cultura que imploram por afeto literário, desses sacerdotes trabalhistas que buscam a consciência limpa na terceirização de todo o trabalho sujo.

Tiago Guilherme Pinheiro, professor de literatura na Universidade Estadual do Paraná

COMO ADQUIRIR O LIVRO

Pela página da editora Corsário-Satã no facebook: https://www.facebook.com/Cors%C3%A1rio-Sat%C3%A3-705902019436586/?fref=ts ou pelo e-mail: corsariosata@gmail.com

SITES SOBRE O AUTOR

Site pessoal do autor: http://ursocongelado.tumblr.com/

Entrevista com Diego Moraes por Bruno Brum:

http://mamiferosblog.tumblr.com/post/100164343258/entrevista-com-diego-moraes

Entrevista com o autor na Substantivo Plural: http://www.substantivoplural.com.br/entrevista-escritor-diego-moraes-livio-oliveira/

Site da Balada Literária 2015: http://baladaliteraria.com.br/

Página da Flipobre no Facebook: https://www.facebook.com/pages/Flipobre/915573951794533?fref=ts

Matéria em O Globo sobre a Flipobre 2014:

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/flipobre-reunira-mais-de-40-autores-homenageara-lima-barreto-14703719

Título: Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘Eu te amo’ no orelhão
Autor: Diego Moraes
Editora: Corsário-Satã
Nº de páginas: 64
Preço: R$ 30

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s