Terça Tem Teatro apresenta ‘{Entre}’, do Coletivo Negro que aborda o resultado político e social da falta de afeto

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A montagem coloca em cena quatro histórias passadas em um conjunto habitacional, cujos personagens, mesmo em meio às adversidades,buscam preservar e celebrar suas vivências; a trama é permeada por uma trilha sonora, interpretada ao vivo

No dia 17 de novembro, às 20h, o Itaú Cultural recebe o Coletivo Negro com a peça {Entre}, na programação Terça Tem Teatro. Segunda montagem do grupo poético-racial que pesquisa a presença do negro no teatro e no Brasil, o espetáculo mergulha na essência de quatro histórias passadas na periferia, para retratar a ausência do pai nas famílias, em texto dirigido por Raphael Garcia, e interpretado pelos atores-criadores Flávio Rodrigues, Jé Oliveira, Jefferson Matias e Thaís Dias.

Em {Entre}, quatro vidas convivem de parede-e-meia em um conjunto habitacional – separadas no palco por portas móveis, que viram elementos de cena e são usadas como objetos, e como base para a projeção de vídeos –, em dilemas que se desenvolvem isoladamente, mas que poderiam estar juntos. Em um deles, uma mulher grávida e abandonada vive a dúvida se irá criar o filho sozinha; em outro, um pai que deixou a família há anos deseja retornar ao seio familiar; em uma terceira, um jovem busca sua identidade para poder se construir como homem; e, por fim, um médico negro retorna ao local de seu nascimento após uma especialização na África, em um reencontro com o passado.

Segundo o ator Jé Oliveira, a proposta do espetáculo é politizar a história do afeto, a partir do racismo e da discriminação vivida pelos negros. “O retorno que temos do público sobre a peça é que ela é racial, sem ser racista. É importante para todo mundo tratar essa questão, que é social e também política”, observa. “Para os negros, o espetáculo acaba sendo catártico”, complementa.

Nesta busca de preservação e celebração destas histórias, assim como a necessidade do encontro do afeto, a trama de {Entre} é costurada por uma trilha sonora original, interpretada em cena pelos músicos Melvin Santhana, na guitarra, e, na percussão, por Fernando Alabê, que responde também pela direção musical do espetáculo. Seguindo uma linha guiada pela música africana desenvolvida no Brasil, no Caribe e no Peru, com bases fincadas na religiosidade afro-brasileira e no rap – em especial do grupo Racionais MC’s –, a trilha integra a peça em diversos formatos.

“A música, aqui, é usada tanto para a ambientação de cena, quanto narrativa e até como personagem, quando um dos atores trava um diálogo com um solo de guitarra”, adianta Jé Oliveira. Para o espetáculo, o elenco teve preparação de canto assinado por Bel Borges, e preparação do corpo afro-diaspórico por Luciane Ramos Silva.

Estreada em maio de 2014, {Entre} é resultado de uma investigação do Coletivo Negro sobre o homem comum, contemplada pela XXI Edição da Lei de Fomento ao teatro para a cidade de São Paulo. O espetáculo teve duas temporadas na FUNARTE, e além de outras apresentações na capital paulista, integrou a programação do Circuito TUSP de Teatro, passando pelas cidades de Bauru, Piracicaba, São Carlos e Ribeirão Preto. Fora do estado, participou da Mostra Benjamin de Oliveira, em Belo Horizonte.

Sobre o Coletivo Negro

Do encontro entre o diretor Jé Oliveira e os artistas Thaís Dias, Jefferson Matias, Raphael Garcia, Flávio Rodrigues e Aysha Nascimento, foi criado em 2008 o Coletivo Negro, grupo de afrodescendentes comprometidos com a recriação artística do imaginário construído em relação ao negro brasileiro.

Em 2007, após a montagem do experimento cênico Um longo caminho que vai de Zero à Ene, de Timochenko Wehbi, dentro do curso de direção da Escola Livre de Teatro de Santo André, Jé Oliveira, diretor da experimentação, começa a fomentar junto com os então artistas-aprendizes Thaís Dias e Jefferson Matias, a possibilidade de aprofundar a pesquisa que tinham realizado para aquele trabalho, cujo pano de fundo era a invisibilidade social. O desejo de continuar a debater e a fazer um teatro comprometido com questões étnico-raciais, levou Oliveira a convidar os também atores Raphael Garcia, da Escola de Arte Dramática da USP, Flávio Rodrigues e Aysha Nascimento, também da Escola Livre de Teatro de Santo André, a formarem um grupo de pesquisa que se voltasse para a situação socioeconômica e a produção estética do negro brasileiro.

A pesquisa verticalizou-se com a realização de workshops, com os seguintes temas: História e Tradição Oral, Usos e Costumes (alimentação e vestuário), Produção Musical e Religião. A vivência subsidiou os exercícios cênicos que foram montados a partir dos textos O Anjo Negro, de Nelson Rodrigues; Além do Rio, do Agostinho Olavo, e Arena Conta Zumbi, de Gianfracesco Guarnieri e Augusto Boal. Neste mesmo ano, em decorrência do espancamento sofrido por um negro, Januário Alves de Santana, em uma unidade do Carrefour em Osasco, onde foi “confundido” com um ladrão e acusado pelos seguranças do supermercado de estar roubando o próprio carro, um Ecosport, que estava estacionado na loja, foi realizada uma intervenção artística que expunha o evento a toda a população.

Em 2010, o Coletivo Negro foi contemplado pelo PROAC (Programa de Ação Cultural) do Governo do Estado de São Paulo (edital de obras inéditas), com o projeto Quilombos Urbanos, que subsidiou Movimento Número 1: O Silêncio de Depois…, primeira montagem do grupo, estreada em 2011. O espetáculo rendeu duas indicações ao prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro, nas categorias Grupo Revelação e Melhor Elenco.

Em 2012, o Coletivo Negro, via edital público, foi o primeiro grupo de teatro que desenvolve pesquisa racial a ocupar artisticamente o TUSP (Teatro da Universidade de São Paulo – USP), com Movimento Número 1: O Silêncio de Depois… A ocupação foi responsável pela indicação do público ao Prêmio Aplauso Brasil, na categoria Destaque de 2012.

No mesmo ano foram contemplados pela primeira vez na XXI Edição da Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, com Celebrização do Homem Comum, projeto realizado em parceria com o coletivo CasadaLapa. O resultado da investigação subsidiada pela XXI Edição da Lei de Fomento foi a montagem da peça {ENTRE}, em 2014.

SERVIÇO

Terça Tem Teatro
{Entre}
Coletivo Negro

Dia 17 de novembro, às 20h
Direção: Raphael Garcia. Atores-criadores: Flávio Rodrigues, Jé Oliveira, Jefferson Matias e Thaís Dias.
Duração: 100 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos

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