Obra com transcrições das aulas que Julio Cortázar ministrou em Berkeley chega ao Brasil

0ae34b88-fa30-4558-b0ca-10c1152e24fdNo ano de 1980, o argentino Julio Cortázar, um dos escritores mais importantes do século 20, aceitou ministrar um curso de dois meses na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Durante os encontros com seus alunos, o autor abordou temas diversos, como os aspectos do conto fantástico; os domínios do realismo; o humor, o erotismo e o lúdico na literatura. Falou também sobre seu universo ficcional e seu processo criativo. Aulas de literatura, obra inédita que chega às livrarias em novembro pela Civilização Brasileira, reúne transcrições fiéis das aulas oferecidas por Cortázar e mostra que sua fala tem tanta astúcia e fluidez quanto sua escrita.

Ao analisar seu percurso como autor, Cortázar lembra que passou por três fases bem definidas: a estética, a metafísica e a histórica. A primeira remete a um ideal de perfeição estilística almejado por muitos da sua geração. A segunda propõe uma indagação mais profunda sobre o homem, sua conduta, seus dramas, seu destino, seu “caminho dentro de um itinerário misterioso”, como ele mesmo explica. A terceira e última fase entende a literatura como uma forma de participar dos processos históricos de um país e um povo.

Dentro desse contexto, Cortázar conduz seus alunos – a agora também os leitores – a uma viagem por seus contos e romances, ampliando os sentidos de obras como Os prêmios, O jogo da amarelinha e muitas outras. Mas o autor vai além e, enquanto analisa suas próprias criações, propõe também uma reflexão sobre a literatura como um todo e sobre a produção latino-americana especificamente.

Julio Cortázar é um dos escritores argentinos mais importantes de todos os tempos. Nascido em Bruxelas, em 1914, formou-se em letras, dedicou-se à pedagogia e trabalhou como professor no interior da Argentina. Em 1951, fixou residência definitivamente em Paris. Seu romance O jogo da amarelinha abalou o panorama cultura de toda uma época e se tornou referência para a narrativa contemporânea. Morreu em Paris, em 1984.

TRECHO DO LIVRO

Comecei a escrever contos muito cedo e escrevi muitos que nunca cheguei a publicar, porque, ainda que continue achando que as ideias eram criativas e a estrutura já fosse de um verdadeiro conto, o tratamento literário era fraco. Eu escrevia como se costuma fazer no início de uma carreira literária: sem suficiente autocrítica, dizendo em quatro frases o que se pode dizer em uma e esquecendo-me da que deveria dizer, multiplicando uma adjetivação que infelizmente vinha da Espanha em quantidades navegáveis. O estilo de fim de século se fazia sentir ainda numa escrita frouxa, cheia de flores retóricas e com uma diluição contra a qual se começava a reagir pouco a pouco na América Latina (e também na Espanha; é preciso ser justo e dizê-lo). Comecei a escrever contos e um belo dia, quando tinha seis ou sete que nunca publiquei, me dei conta de que todos eram fantásticos.

Aulas de Literatura – Berkeley, 1980
De Julio Cortázar
Não ficção estrangeira
Tradução: Fabiana Camargo
Páginas: 336 / R$ 45,00
Editora: Civilização Brasileira
(Grupo Editorial Record)

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