Companhia do Miolo estreia “Casa de Tolerância”

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DISCUTINDO A VIOLÊNCIA CONTRA O GÊNERO FEMININO EM UMA “CASA DE TOLERÂNCIA”

A partir do dia 21 de novembro, um antigo prostíbulo doméstico, localizado no bairro da Penha, será o cenário para o primeiro espetáculo teatral realizado em um ambiente fechado, pela Companhia do Miolo. O grupo, que possui um trabalho emblemático no teatro de rua, com espetáculos como “Relampião” e “O Burguês Fidalgo”, dirigido por Bete Dorgam, agora se prepara abrir as portas de sua sede, para apresentar o resultado de uma intensa pesquisa com o bairro.

O espetáculo “Casa de Tolerância”, criado na atual sede da Companhia do Miolo, uma casa onde antes funcionava um prostíbulo doméstico, é fruto de uma pesquisa do grupo que deu ênfase a CASA como elemento de uma poética necessária e urgente, a fim de tratar de um tema espinhoso e recorrente: a violência contra a mulher e contra a tudo aquilo que se levanta como força no feminino.

Com direção de Patrícia Gifford, a montagem explora as questões das violências sofridas ao corpo da mulher e as intolerâncias e discriminações a tudo que seja ligado ao feminino.  De forma itinerante, as atrizes da Companhia do Miolo, convidam o público para uma travessia pelos cômodos da casa, fazendo uma fricção entre realidade e representação. Na trama, são realizadas ações de um cotidiano doméstico, que ganham outras dimensões quando colocadas em contato com narrativas sobre a memória do lugar, uma antiga casa de tolerância, além de outras narrativas como a possibilidade de que alguns corpos podem ter sido enterrados ou emparedados neste local.

Através das histórias locais, o grupo encontrou outras inúmeras histórias, violentas e terríveis, como a questão do feminicídio em Cidade Juarez, no México, onde matar mulheres tornara-se uma prática recorrente. Em Cidade Juarez, estima-se que desde 1993, cinco mil mulheres foram mortas ou estão desaparecidas, apenas pelo fato de serem mulheres, e até hoje não há nenhum condenado.

Historicamente convivemos com a violência contra esses corpos femininos: mulheres, transgêneros, performers e tantos outros que ousaram exaltar o feminino. É neste sentido, que o espetáculo por meio de narrativas reais/ficcionais, busca em uma travessia por esta CASA, dar lugar a potência de vida desses corpos silenciados. Desde a exploração sexual infanto-juvenil, ao extermínio por motivações transfóbicas, os corpos à margem, vão sendo lembrados e exaltados por suas presenças insistentes pela VIDA.

Neste trabalho, o grupo convida o público para saborear uma galinhada, mote que dará vida a histórias de mulheres exploradas, violentadas e desaparecidas. A CASA, testemunha viva no bairro, devolve ao público uma arqueologia museológica, um memorial de tantas vozes silenciadas nesta condição do feminino.

Em 2015 o grupo adentrou os prostíbulos domésticos da Penha, visando iluminar a relação entre casa-teatro e vizinhança. Durante o processo de criação, o grupo realizou almoços, apresentações de cenas e bate-papos com as mulheres da vizinhança, e com a abertura da CASA para esta temporada, procura dar continuidade ao sentido de pertencimento e vínculo, aprofundando as ações do grupo no entorno da sede. “A história da CASA, relativa à prostituição, é completamente velada! Os rastros se ocultam no bairro e na rua, nos quais ninguém quer tocar. Portanto, desvelar essas memórias, também nos torna cúmplices da vida local e nos permite de algum modo, pertencer àquele lugar. Além das apresentações, durante a temporada abriremos a CASA para atividades que visam ampliar e aprofundar o sentido de vínculo.” – explica Renata Lemes, integrante da Companhia do Miolo.

O espetáculo “Casa de Tolerância” nasceu do desejo do grupo em pesquisar a história desta casa, que desde agosto de 2011, funciona como a sede da Companhia do Miolo. Neste sobrado discreto, funcionava um prostíbulo doméstico, em um local predominantemente residencial, produzindo assim um espaço de “exceção”. Suas histórias e memórias estão intrinsecamente ligadas às experiências do bairro, quer seja revelando seus paradoxos, quer seja afirmando a existência de um mundo particular, sob os olhares curiosos de uma vizinhança pouco afeita àquelas antigas personagens.

Neste espetáculo feito só por mulheres, o grupo investe em uma narrativa que traga à tona a questão da condição feminina na contemporaneidade. O espaço, que também é dramaturgia durante o percurso do grupo, mais uma vez surge aqui como subjetividade, abrigando e construindo narrativas privadas. O grupo convida o público para uma conversa rara, porém necessária, entre vizinhos, sobre temas olhados apenas pela superfície ou calados sob outras formas de submissão.

Com o pretexto de convidar as pessoas para um almoço/mutirão de reforma da sede, as três atrizes da companhia recebem o público ao som de Lindomar Castilho. Em meio à tijolos, picaretas, comida e bebida, aos poucos, os acontecimentos da casa vão revelando o real intuito do convite.

Toda casa carrega em suas paredes memórias, palavras não ditas, silêncios, histórias que circulam pelo encanamento. Nas sombras, segredos se misturam às camadas de tinta. As narrativas sobre as memórias da casa se misturam às memórias do grupo. Aos olhos do espectador a Casa é aos poucos revelada, e seu intrigante mistério desvelado: há ali uma mulher emparedada, um corpo ocultado, como de tantos e tantas. É preciso parar de remendar a casa, juntar as partes, cantar e velar tantas mortes sem túmulos.

A Companhia do Miolo abre a sua sede e convida o público para desvendar os mistérios de sua “Casa de Tolerância”. Para participar, é necessário reservar os ingressos antecipadamente, pois apenas quinze pessoas participam de cada apresentação.

A TRAJETÓRIA DA COMPANHIA DO MIOLO

A Companhia do Miolo, criada no ano 2000, iniciou sua trajetória através de uma pesquisa sobre o teatro popular, com a criação do espetáculo “O Casamento Suspeitoso”, de Ariano Suassuna. Dando continuidade a esta pesquisa, em 2003, levou para as ruas de São Paulo o espetáculo “O Burguês Fidalgo”, de Molière, que contou com a direção de Bete Dorgam, professora, palhaça, atriz e diretora teatral, com mais de quarenta anos de carreira.

Após período inicial de relação com o público e o espaço da rua, emergiu a necessidade de aprofundar a pesquisa, através de uma linguagem corporal que pudesse dialogar com espaços urbanos. Como resultado dessa pesquisa, em 2004, o grupo estreou “O Doente Imaginário”, também de Molière, que contou com a direção de Cuca Bolaffi e sua experiência na escola Le Coq, na investigação corporal para a rua.

Em 2006, o grupo inicia uma pesquisa sobre brincadeiras e canções infantis antigas, resultando no primeiro trabalho infantil “É de Cantar e de Brincar”, com direção de Cuca Bolaffi. Durante este trabalho, o coletivo realizou uma imersão nas histórias antigas da cidade de São Paulo, o que resultou no Projeto “Novas Histórias de uma Velha Cidade”, contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro, onde pesquisou urbanismo e buscou, na própria rua, a sua dramaturgia. A pesquisa, desenvolvida dentro de um alargamento histórico e através de uma narrativa fragmentada, constituiu uma espécie de caleidoscópio, possibilitando ao espectador a apreensão de uma totalidade da cidade, por meio de uma coleção de flashes como num álbum de fotografias. Nascia aí o espetáculo “O Largo da Memória”, dirigido por Fábio Resende.

Em 2007, revendo seu percurso e refletindo sobre os sentidos do teatro na contemporaneidade, a companhia se lança em um novo desafio e estreia em 2008, “ALICE uma adaptação urbana da obra de Lewis Carroll”, dirigida por Fábio Resende, com dramaturgia de Alexandre Krug. No mesmo ano, contemplada pelo projeto de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, e em 2009, estreou “Amores no Meio Fio”, com direção de Gustavo Kurlat.

Em 2011, retomando a pesquisa de teatro para crianças monta “ABRE-TE CÉREBRO”, espetáculo que tem na velhice, e no seu encontro com a infância, a matéria prima de sua linguagem. E no ano seguinte, realiza o projeto “Linha Vermelha”, contemplado na 18º edição de Fomento ao Teatro, que resultou na estreia do espetáculo “TAIÔ”. Ainda em 2012, estreia “Relampião”, ambos os trabalhos indicados no Premio CPT como melhor trabalho de Rua de 2012.

Em outubro de 2013, participou do Festival de Havana (Cuba),  com o espetáculo “Relampião”. E entre o mês de novembro do mesmo ano e abril de 2014, esteve em intercâmbio com o grupo NATA- Núcleo Afrobrasileiro de Teatro Alagoinhas durante o edital de Ocupação do TCA (Teatro Castro Alves) em Salvador, como grupo colaborador, compartilhando a experiência em teatro de rua.  Ainda em 2013/2014 realizou o projeto Corpo Esgotado, contemplado pela 22ª edição de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, do qual originou o espetáculo “Em Caso Emergência Quebre o Vidro”.

A trajetória artística do grupo vem sendo, desde sua fundação, norteada pelo desejo de provocar o encontro. “Para nós, o teatro carece de intervir no espaço da vida real, afetando e deixando-se afetar pela vida dos espaços coletivos da cidade. Compreendemos a Rua, por exemplo, como espaço propício para o encontro, tanto estética quanto politicamente” – comenta Renata Lemes, integrante da Cia do Miolo.

Agora, o grupo surpreende o seu público, com o primeiro espetáculo de teatro da companhia, criado para/e em um ambiente fechado. O grupo inicia uma temporada muito convidativa, abrindo as portas de sua sede, convidando o público para saborear uma deliciosa galinhada e para um passeio por sua “Casa de Tolerância”. Ótima oportunidade de experimentar um espetáculo em um local inusitado e conhecer o trabalho dessa companhia, que traz em sua bagagem a contribuição de importantes nomes do teatro, e um amplo histórico de vivências com a rua e com a cidade, debatendo e investigando diferentes campos dramatúrgicos. Para mais informações, acesse: facebook.com/CompanhiaDoMiolo ou ciadomiolo.blogspot.com.br

FICHA TÉCNICA

 

Direção: Patricia Gifford

Atrizes: Edi Cardoso, Renata Lemes e Jordana Dolores

Dramaturgia: Solange Dias

Direção musical: Antonia Matos

Cenografia: Cibele Lucena e Jerusa Messina

Figurino: Anahí Asa

Luz: Camila Andrade

Produção: Rafael Procópio

Assessoria de Imprensa: Luciana Gandelini

SINOPSE – CASA DE TOLERÂNCIA

A montagem, criada na atual sede da Companhia do Miolo, explora as questões das violências sofridas ao corpo da mulher e as intolerâncias e discriminações a tudo que seja ligado ao feminino. De forma itinerante, as atrizes convidam a platéia para uma travessia pelos cômodos da casa, fazendo uma fricção entre realidade e representação. Na trama, em meio ao cotidiano doméstico, ações como cozinhar e lavar, ganham outras dimensões, nas narrativas sobre a memória do lugar, uma antiga Casa de Tolerância. Além da busca por corpos que teriam sido enterrados ou emparedados ali na casa.

Outros corpos também são trazidos á tona, como na narrativa do feminicídio em Cidade Juarez no México, onde se estima que desde 1993, cinco mil mulheres foram mortas ou estão desaparecidas, sem que haja algum condenado por esses crimes. Sala, quartos, cozinha, quintal evocam a lembrança dessas mulheres, para dar luz, à potência de vidas e sonhos que em vão tentaram apagar.

Temporada: de 21 de novembro a 13 de dezembro – Sábados e Domingos – Horário: 17h00

Ingressos gratuitos – Capacidade: 15 pessoas

** Os ingressos deverão ser reservados através do email ciadomiolo@gmail.com  ou 11- 3871-0871

Local: Sede da Companhia do Miolo – Rua Dr Ismael Dias, 111 – Penha – São Paulo – 03631-010

Classificação: 14 anos – Duração: 120 minutos

Assessoria de Imprensa – Luciana Gandelini – Cel.: 99568-8773 – lucigandelini@gmail.com

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