LITERATICES E OUTRAS CONVERSAS: ‘Cartografias’, por Jorge Valentim

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Já não era hora das « Literatices ». Alguns me escreviam, curiosos, para saber da coluna do mês de novembro. Diante das inúmeras atividades que a vida universitária impõe, nem sempre é possível escrever e mandar os textos a tempo. Mas, por outro lado, o atraso veio a calhar, porque pude juntar uma série de informações para deixar registrado no texto o viés temático eleito para ele.

No Dicionário de Língua Portuguesa (www.priberam.pt/dlpo), é possível encontrar a seguinte série de sinônimos para a expressão-título acima: “Cartografria: arte de traçar mapas geográficos e topográficos”. E sobre este último termo, o mesmo dicionário oferece a seguinte definição: “Topografia: descrição exata e minuciosa de um lugar; arte de representar no papel a configuração de um terreno com todos os acidentes que tem à superfície”.

Chamo a atenção para dois aspectos importantes nas definições do termo: 1º.) “arte de traçar mapas”, e 2º.) “arte de representar no papel a configuração de um terreno”. Ainda que a expressão indique uma certa precisão no exercício e nos resultados do ato de quem se propõe a executar uma cartografia, o fenômeno artístico e a representação em papel evocados na sua explicação não deixam dúvidas: trata-se, na verdade, de uma forma possível de perfilar determinado terreno ou espaço, sem descartar a carga de subjetividade que o seu autor carrega ora nas tintas, ora nas linhas do desenho executado.

Não será à toa, portanto, que, na esteira destas maneiras de também fazer arte, um dos eventos mais relevantes na área dos Estudos Literários, ocorrido em Manaus, de 08 a 13 de novembro, nas dependências da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) – o XXV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa –, tenha escolhido exatamente este mote para o tema central do encontro: “Cartografias literárias em língua portuguesa: experiências estéticas e culturais no contexto global”.

Ora, se estamos falando exatamente de cartografias literárias em língua portuguesa, aproveito o mote alheio para começar uma espécie de mapeamento deste diálogo entre diferentes fronteiras de diferentes universos culturais para defender o fato de que não estamos tão longe delas. E inicio com a primeira cartografia: a oferecida por Paulo Lins, em outubro deste ano, numa mesa redonda muito enriquecedora e divertida. Num bate papo quase informal, o autor de Cidade de Deus falou sobre sua relação com a crítica, com os diretores e adaptadores de cinema, com os leitores e consigo própria, enquanto leitor de outros escritores. Sobre esta mesa, basta conferir na coluna do mês de outubro (https://livreopiniao.com/2015/10/06/literatices-e-outras-conversas-eu-sou-o-samba-por-jorge-valentim/).

Jorge Valentim e Paulo Lins

Jorge Valentim e Paulo Lins

Logo em seguida, de 13 a 16 de outubro, em 4 locais diferentes (Consulado de Portugal no Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, Fundação Casa de Rui Barbosa e Faculdade de Letras da UFRJ), ocorreu o Colóquio Internacional “Há 100 anos, Orpheu canta para Cleonice”, nas efemérides do Centenário da Geração de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros e de preparação da mesma faixa temporal de Dona Cleonice Berardinelli, uma das grandes mestras da literatura portuguesa no Brasil, formadora de gerações de outros professores da disciplina no país, ensaísta de primeira grandeza sobretudo das obras de Luis de Camões e Fernando Pessoa.

Este evento foi uma oportunidade singular para a juventude inserida no mundo acadêmico atual poder conviver não só com a obra da grande mestra, mas também com as vozes de pesquisadores formados por Dona Cléo (como é carinhosamente chamada pelos seus alunos e ex-alunos). Ao longo de toda a semana, o evento proporcionou uma oportunidade única aos ouvintes, posto que conseguiu reunir, em mesas absolutamente magistrais (e não há exagero algum na aplicação deste adjetivo), professores do Brasil e do exterior, tais como Carlos Reis, Carmen Lúcia Tindó Secco, Elza Miné, E. M. de Mello e Castro, Fernando Cabral Martins, Hélder Macedo, Ida Maria Ferreira Alves, Isabel Pires de Lima, Jorge Fernandes da Silveira, Laura Padilha, Luci Ruas, Maria Fernanda Abreu, Mário Lugarinho, Martha de Senna, Silvio Renato Jorge, dentre outros.

Mas, alguns momentos deste encontro foram marcados por uma profunda cartografia afetiva. Seja porque relembrar o nome de Dona Cleonice significa também recuperar uma memória cultural que abrange todo o século XX, mas porque também foi um encontro de gerações, de rever os mestres responsáveis pela formação de muitos que ali estavam, enfim, de reencontrar amigos e colegas de profissão, irmanados pelo reconhecimento da homenageada.

No Consulado de Portugal, por exemplo, poder ouvir e ver de perto Maria Bethania lendo Fernando Pessoa e relembrando os momentos que marcaram a gravação em CD e DVD de “O vento lá fora” (www. https://livreopiniao.com/2015/01/07/duas-divas-e-um-poeta-sobre-o-vento-la-fora-cleonice-berardinelli-maria-bethania-e-a-poesia-de-fernando-pessoa/), foi uma oportunidade única, marcada sobretudo pela emotividade na abertura do encontro. Muito sensível, Maria Bethania elegeu textos do ortônimo e dos 3 heterônimos que evidenciam os motivos da paixão das duas intérpretes pelo poeta português.

Dona Cleo e Jorge Valentim

Dona Cleo e Jorge Valentim

Mas, dois momentos, ao meu ver, constituíram o ponto alto deste Congresso. Um deles foi a mesa redonda com os primeiros orientandos de Dona Cleonice: Margarida Alves Ferreira (a primogênita de Dona Cleonice), Maria Elizabeth Graça Vasconcellos, Clécio Quesado e Therezinha Val. Além de poder reencontrar os nossos professores, aqueles que formaram toda a geração que hoje atua nas principais universidades do país, foi poder ouví-los, recebendo deles uma lição pontual: o saber, além de ser humilde, precisa se renovar. Assim, foi arrebatador poder presenciar a professora Margarida, autora de uma belíssima tese de doutorado sobre a obra de Almeida Faria (Do rumor do caos ao vislumbra do cosmo, UFRJ, 1979), recuperar o viés de sua leitura e ampliá-la para outros títulos, publicados depois da defesa do seu trabalho de doutoramento (Lusitânia, 1980 e O Cavaleiro andante, 1983). Ou, ainda, assistir uma fala emocionada de Therezinha Val, contando a sua aventura de pesquisa e conclusão do seu trabalho sobre a obra de Carlos de Oliveira. Podem me chamar de saudosista, mas presenciar esta mesa me fez voltar no tempo e recuperar um passado que eu mesmo já não me recordava. O outro momento marcante: a mesa de encerramento com os membros organizadores do evento – Rafael Santana Gomes, Mônica Figueiredo, Teresa Cristina Cerdeira e Luci Ruas. Lado a lado, no conjunto, eles conseguiram reunir diferentes gerações de pesquisadores da área, da mais atual àquela que conviveu de perto com Dona Cléo em sala de aula. Mas, o mais emocionante foi poder ouvir Luci Ruas, de maneira inflamada, defender em tom de protesto a necessidade de não se esquecer ou sepultar o passado em nome de uma pretensa defesa de um futuro predominantemente dominador.

É certo que existe uma corrente que sublinha a relevância do olhar para frente, para um futuro que bate já à porta, sem se preocupar com aqueles que, antes, não puderam conviver de perto com as inovações que os novos tempos impõem. No entanto, não se pode querer construir o novo, sem deixar de reconhecer as inegáveis contribuições que o passado deixou. Ainda que este só possa ser recuperado pelas suas ruínas, como sugeriu certa vez Walter Benjamin, não se pode negar que, ainda nestas, há marcas e vestígios de alicerces que não se apagaram. Sobre estes e com eles, o novo pode sim dialogar. Talvez, por isso, uma das imagens mais felizes, recuperadas por Monica Figueiredo, na sua fala, foi o exemplo deixado por Dona Cléo. Quando esta falava em mesas redondas, sempre lembrava a presença dos seus professores: Fidelino de Figueiredo e Thiers Martins Moreira. Em outras palavras, antes de se apresentar como professora, Monica relembrou que Dona Cleonice fazia questão de sublinhar a sua função de aluna, de discípula, e os responsáveis pela sua formação. Lição exemplar deixada pela grande mestra, afinal, todo o saber não está condicionado a uma atitude arrogante e estática. Pelo contrário, ele é dinâmico e, como bem diria Octavio Paz, está em constante rotação.

A terceira cartografia, nesta sequencia iniciada com a mesa da “Pré-Balada Literária” com Paulo Lins, ficou por conta do evento já aqui citado em Manaus. Reunindo os principais pesquisadores e professores de literatura portuguesa do Brasil, o Congresso Internacional da ABRAPLIP ainda contou com as presenças de importantes nomes da área das literaturas de língua portuguesa nos âmbitos nacional e internacional, a saber: Inocência Mara, Isabel Pires de Lima, Joana de Matos Frias, Marcia Manir, Marcio Muniz, Mark Sabine, Renata Soares Junqueira, dentre outros. Numa aposta absolutamente aberta aos contatos entre as literaturas da África, do Brasil e de Portugal, a comissão organizadora do encontro foi extremamente feliz em promover uma reunião de diferentes investigadores e escritores destes universos culturais de língua portuguesa.

Um dos momentos mais expressivos do Congresso foi a sequencia de mesas redondas com escritores. Foram três no total. A primeira, com Almeida Faria e Possidónio Cachapa (ambos já entrevistados para o Livre Opinião), procurou deixar em evidência o diálogo entre duas diferentes gerações: aquela que vem escrevendo desde os tempos da ditadura de Salazar e outra, mais recente, que vem produzindo sistematicamente após a Revolução dos Cravos (1974). A segunda mesa, com membros da Academia Cabo-verdiana de Letras, foi composta pela Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (grande nome dos estudos sobre a cultura e a literatura de Cabo Verde) e o escritor Danny Spínola, poeta, ficcionista e artista plástico. Na ocasião, os convidados abordaram aspectos sobre autores significativos do Arquipélago (Corsino Fortes) e sobre a produção literária no país, numa conversa marcada por lembranças afetivas, sentimentos positivos de diálogo entre os dois países. Por fim, a terceira, com as escritoras Margarida Paredes (Portugal) e Tatiana Pequeno (Brasil), promoveu a reunião entre uma romancista e uma poetisa, lendo seus textos e conversando com o público sobre aspectos de suas obras e suas motivações nos seus respectivos projetos de escrita. Um luxo, sem qualquer risco de incorrer em lugares comuns!

ABRAPLIP

ABRAPLIP

Por fim, encerrando esta sequência da cartografias literárias e geográficas (de São Carlos, com Paulo Lins, ao Rio de Janeiro, com Dona Cléo; depois mais ao norte, em Manaus, e, por fim, de volta a São Carlos) a 19ª. Jornada de Letras, seguida pelo II Seminário do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura. A mesa de abertura, com a presença do escritor português Almeida Faria, foi um dos instantes mais emocionantes na história dos dois eventos. Com um auditório lotado, o autor de A paixão respondeu as perguntas, sempre com simpatia, elegância e atenção, além do seu marcado senso de humor. É preciso também destacar a homenagem à Profa. Dra. Tânia Pellegrini. Responsável pela criação, consolidação e amadurecimento da área de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras e do PPGLit, da UFSCar, a professora Tânia recebeu um justo reconhecimento do Programa pelo seu trabalho e empenho, procurando promover os Estudos Literários numa região afastada dos grandes centros e formar outros pesquisadores, capazes de disseminar o interesse pelo magistério e pela pesquisa na área.

Jorge Valentim eTania Pellegrini

Jorge Valentim eTania Pellegrini

Com isto, mais uma vez, chegamos ao mote principal, afinal, antes de concluir qualquer cartografia, é preciso reconhecer os primeiros que promoveram as linhas do mapeamento dos saberes. De Dona Cleonice (no primeiro evento) a Tania Pellegrini (no ultimo, em novembro), há-de se destacar a necessidade e a urgência de não perder o passado, mas de o renovar e o revigorar, seja de maneira afetiva, seja de forma mais pragmática, para se poder pensar num futuro mais seguro e mais dinâmico.

Por isso, estes dois últimos meses foram intensos na sequencia de realização de eventos e circulação de saberes culturais. Mas, acima de tudo, foram momentos importantes para se refletir sobre o futuro de nossa área e de seus continuadores. Minha esperança é a de que, daqui alguns anos, os que se formam e que entram no espaço acadêmico atual consigam olhar para trás, e a exemplo daqueles que hoje fazem o mesmo em relação aos seus mestres, possam repetir os versos de Luis de Camões: “Porque é tamanha bem-aventurança / O dar-vos quanto tenho, e quanto posso, / Que quanto mais vos pago, mais vos devo”.

Mas, como sempre gosto de encerrar, isto é apenas uma livre opinião.

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