Coluna 48: ‘Lucy, no céu com diamantes’, por Lucimar Mutarelli

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PS: todos os nomes foram trocados para preservar a identidade dos envolvidos

O céu existe e pode chover em cima de você

“eu pensei que ela fosse a sua mãe”

Dona Sônia, Diretora da Escola Cantinho da Lua

“as crianças ficavam brincando na rua, sem ninguém olhando, sem escola. Quando construíram o CEU foi uma benção. As crianças foram pro CEU. Eu sou uma testemunha viva disso. As pessoas reclamam demais, não podem ver ninguém reclamando e começam a reclamar também” minha irmã Maria Lucia me contando sobre os benefícios trazidos pelo CEU Três Pontes (lindo nome), na comunidade do Jardim Romano

“a população em volta dele” “não é construído longe, é feito perto, para os moradores da comunidade mesmo” – complementa Naldinho – “tem cultura, tem um monte de coisas para as crianças”

– O Marcio joga bola aqui, precisa ver a felicidade dele – Mery Maria compartilha comigo – A senhora já viu o Marcio jogando bola? É a coisa mais linda!

– Claro que eu vi. Acho que até já joguei no time dele – carinha amarela gargalhando – Ele jogou na Portuguesa, lindeza linda mesmo – sorrimos juntas e conduzimos o carinho, ops, carrinho de Maria Luiza – o corredor ortográfico nem erra tanto assim

Aliás, foi a Mery que me convidou:

– Olha ali o CEU, é pertinho! Quer conhecer?

Eu já contei aqui que sou uma das crianças da periferia da Zona Leste. Confessei também que a escola Capistrano de Abreu e a Igreja São José Operário mais as brincadeiras até meia noite na rua eram meu refúgio

A igreja, não no sentido religioso, no sentido social mesmo, os filmes que exibiam, as festas juninas, as apresentações teatrais, concursos de karaokê, era tipo um Centro Cultural decorado com Jesus pregado na cruz

As tardes que eu passava com a família da Dona Albertina, comendo pão e vinho. Esses dias reencontrei a Bete e ela me tratou com o mesmo carinho que sempre me tratou quando eu era criança. Não somente ela mas o Zé Orlando, a Amanda, a irmã Alice que era meio brava mas me ensinou muita coisa também. Uma família com o sobrenome Jardim – figurinhas de flores, muitas árvores e borboletas amarelas e sorridentes

Irmã Irene, minha Professora de catecismo, ensinava a gente a cantar e a ler as palavras da Bíblia e explicava

– Decorar não é ficar repetindo que nem um papagaio. Decorar é aprender com o coração – a Marli assopra que ela esteve no Brasil recentemente e eu perdi a oportunidade – duas mãozinhas unidas em prece e muitas estrelinhas amarelas iluminando nosso céu

Os discursos políticos na hora da missa

Curiosamente, aquilo que me atraía foi exatamente o que afastou a minha mãe da igreja. Rezava em casa, dizia que Deus ouvia do mesmo jeito. Pra mim, foi o contrário. A política abriu os meus olhos para a situação que vivíamos na época, cheguei a usar a estrelinha vermelha sobre o lado esquerdo do peito mas, hoje, quero distância total da política. Quando alguém no facebook me procura com essas intenções, me afasto. É claro que eu entendo perfeitamente que estamos nessa situação por causa da omissão de muita gente e muita gente me cobra uma postura. No momento, eu não tenho. Permito manifestações saudáveis e discussões inteligentes, na minha linha do tempo, de todos os lados, enquanto a poeira não baixa e a gente possa voltar a enxergar novamente com clareza

A Biblioteca de São Miguel e do Tatuapé, eu só descobri porque a Professora Alfa que sempre entrava na sala cantando e me ensinou a trocar bilhetes com trechos de poemas e letras de música e até hoje ela me ensina

– Não é porque a gente não tem dinheiro que não vai fazer as coisas. Vai ler na Biblioteca Pública

– Que é paga na verdade, né? A gente paga um monte de impostos. Não tem nada de graça

O trabalho da Maria Lucia dentro da comunidade e as festas promovidas em prol dos outros. Beneficente é isso

Minha sobrinha me leva para conhecer o CEU e a imensa constelação de cursos que eles oferecem

– Será que eu posso fazer essa oficina de corte e costura?

Eu sempre quis aprender a costurar mas só aprendi a pregar botões e a fazer barras muito tortas. Minha mãe ria e mandava eu refazer mas como eu só fazia das minhas próprias roupas, deixava torto mesmo. Eu nunca achei que o hábito faz o monge, pra mim é o contrário

Minha mãe aprendeu a costurar sozinha, olhando uma vizinha. Aprendeu a ler sozinha também. Só olhando. Eu olhava a minha mãe costurar e não aprendia. Eu sempre precisei do outro para me ensinar. Gosto da aula, do professor. Abria o saco de botões coloridos e espalhava na cama. Pegava emprestado a Revista Manequim e copiava os vestidos nas últimas páginas dos cadernos da escola. Até nos livros eu desenhava e marcava resultados do jogo de buraco que aprendi com meu pai. Era eu também que escrevia nos cadernos da minha mãe as medidas: ombro, quadril, busto, cintura, tudo. Ela media e ia me falando e eu anotando. Mais tarde eu quis ensinar pra ela as letras e as palavras que aprendia na escola. Ela reclamava

– Não tenho tempo

A Márcia relembra que escrevia muitas cartas e cartões para a Vó Maria. Antes disso era eu quem escrevia. Preciso lembrar de perguntar para as minhas tias se essas cartas ainda existem. Seriam documentos valiosíssimo hoje para toda a minha família. Paro e escrevo para os primos Reginaldo e Marcia na tentativa de reencontrar esses tesouros <33

Mais tarde ela aprendeu a ler sozinha na Revista Contigo que a Marli comprava e nos programas de TV. Como uma pessoa consegue aprender tanta coisa sozinha??? E ensinar também; sem usar livros ou apostilas, ensinava. Ensinava sendo. Outro dia fui na inauguração de outra priminha, Kely Bembem e pedi a trança igual da minha mãe. Quando ela acabou ficamos chocados: eu virei a minha mãe. Quase. Mas imito muitas de suas manias e trejeitos. Quem sai aos seus, não degenera. A sabedoria popular sabe tudo, aliás, foi daí que vieram todos os conhecimentos eruditos, não é? Aprendemos fazendo, vivendo e continuando aquilo que recebemos. Compartilhamos

Maria Lucia continua

“o povo reclama demais. O CEU aqui do lado, tão pertinho”

E o que quer dizer a sigla CEU? Eu, que não consigo aprender nada sozinha, pergunto para quem sabe ou para o Google

O Google responde primeiro: Centro Educacional Unificado. Foram criados pela Prefeitura mas o partido que criou não me interessa mais. Dizem que política, futebol e religião não se discute porque “gosto é igual a cu, cada um tem a seu”. Outro dia, escrevi que foi a Dona Iracema que disse isso mas agora acho que já ouvi a minha mãe falar isso também, rindo a risada de Mutley (observação do Lourenço) e cobrindo a boca com a mão. Gesto que imito nesse momento

Quando queria ler o Caio Fernando e os outros autores que descobri no livro Língua e Literatura do Faraco e Moura – que eu sempre achei que era uma pessoa e hoje, no Google, aprendo que é o Carlos Faraco e Francisco Moura – era nas bibliotecas públicas que podia ler ou levar para ler em casa

“brilha brilha estrelinha

quero ver você brilhar

lá em cima flutuar

com diamantes a brilhar”

é a música que toca na caixinha de música e dá vida para as bailarinas

durante 20 anos fui Professora na Rede Estadual e Particular. Os alunos da privada se dedicavam mais porque tinha a consciência de que eram eles que pagavam o meu salário. Nas salas do estado, transmitia o recado daqueles e bradava nas aulas “gratuitas”

– Vocês pagam o meu salário também. Seus pais estão trabalhando e pagando para que vocês tenham as oportunidades que a maioria deles não teve. Para, menino, não arranca a folha da apostila para fazer aviãozinho. É seu material. Seus pais trabalhando que nem uns trouxas e vocês aqui fazendo essa zona toda?

No dia seguinte, seis mães queriam me levar para a delegacia porque eu havia chamado os pais das crianças de trouxas. A coordenadora da escola limpou a minha barra me obrigando a pedir desculpas para a sala toda. Obedeci. Contrariada mas obedeci e, mesmo assim, no final do ano, fui demitida. Não devia ter pedido desculpa nenhuma. Tem muita gente trouxa no mundo, inclusive eu

Passeio pelo CEU, guiada pela Mery que explica que os funcionários são, na grande maioria, moradores antigos do bairro e isso é um motivo para que a população respeite o local. Tem um clima comunitário mesmo. Lindo de ver

– Mery, por favor, faz umas fotos porque eu quero escrever sobre isso

– A senhora já viu o dique?

– Não, não vi. Resolveu o problemas das enchentes?

– Não sei. Nunca mais choveu daquele jeito pra gente saber

Sigo conduzindo o carrinho de Maria Luiza que nasceu no mesmo dia da Dona Maria que se entristecia com os moradores que perdiam tudo nas enchentes e tinham que morar um tempo dentro do Mattathias, escola do estado, e minha mãe, separava tudo que tinha em dobro na despensa, pedia pra gente juntar umas mudas de roupa que a gente não usava mais e entupia o guarda roupa pequeno dividido com mais três irmãs e pedia para que eu fosse entregar na escola

– A gente tem pouco mas tem gente que não tem nada

Ela lembrava do barraco da Avenida São Carlos, no Lauzanne Paulista, pertinho do barraco onde eu nasci na rua 8 – que era o mesmo nome da Rua onde eu passei a infância, antes de mudar para Confluência da Forquilha, que alagava também quando chovia e eu lembro direitinho das marcas do barro na geladeira. A água me cobriria se não fosse meus pais e meus irmãos me carregarem no colo – a Val, tipo uma irmã da Maria Lucia, também lembra de muitas histórias porque era nossa vizinha e depois entrou pra família

Aprendemos com o exemplo daqueles que vieram antes da gente. Herança é aquilo que deixamos para o próximo, até para um próximo que a gente nem conhece

Lara é a única com o colar da Frozen

– Eu quero um também mas não tem só da Ana? Eu não gosto da Elsa

– Mas tia, você tem que gostar das duas – Lara me ensina

– Não gosto. Só gosto da Ana

Fico em dúvida qual das duas é a mais infantil neste momento

O que tem a ver Frozen com o Pequeno Príncipe?

“você é responsável por aquilo que cativa”

Escrevo no meu caderno antes que a Professora Sonia diga no palco

É a fantasia que alimenta nossa infância e a nossa vida inteira. Olho para o céu do palco e reparo que flocos de neve coexistem no espaço com as estrelas, a Lua e os planetas do Exupéry. Livro que eu não li na biblioteca. Ganhei de graça da prefeitura, em 1980, com uma estante e uma coleção de mais de 30 livros. A Dona Benê, Diretora do Capistrano me levou, junto com a minha mãe, para receber das mãos do prefeito

– Tem foto?

– Não, não tem foto. Tem só a lembrança. Tem coisas que a gente precisa fotografar para não esquecer mas tem coisas que não precisa. A gente não pode esquecer nunca

Peço um beijo para o Vinícius que não quis me dar um beijo. Finjo que choro, chantageio. A mãe dele, Rose, filha da Francisca e do seu João, vizinhos da Marina há uns 30 anos, pede com carinho

– Dá um beijo na tia da Lara, tadinha. Protegido pela mãe, ganho um beijinho do menino virginiano que lembra o meu na mesma idade, a mesma carinha. O menino, que não beija qualquer um, grita do palco: te amo, mãe. Rose, do meu lado, não sabe se ri ou chora e acaricia a barriga

– É menino ou menina?

– Menina

– Já tem nome?

– Ainda não

Penso em dizer que quando estava grávida, os nomes que escolhi eram Pedro e Marina. Depois que mudei para Francisco por causa da história dos nomes na família do meu marido. Silencio. Deixo a Rose curtir o filho dançando com a roupa do meigo e querido Olaf

Levantamos para cantar o hino decorado pelas crianças mas a letra é projetada no telão caso alguém tenha esquecido. No final, aplaudo

– Não pode aplaudir depois do hino. É falta de respeito

– Não podia na época da ditadura, agora pode e deve. É uma letra tão linda. Poesia pura

“brilhou no céu da pátria nesse instante”

“nosso céu tem mais estrelas” anoto

“em teu formoso céu risonho e límpido”

Lara brilha no palco. Iluminada

A música não entra. Sonia improvisa “quem trabalha com Educação Infantil tem que estar preparado para tudo. Quando uma coisa dá errado a gente precisa ter uma carta escondida na manga”. Professor é assim, mesmo fora da sala de aula, segue ensinando. Sorte de quem está ouvindo e aprendendo com os erros que a gente segue cometendo e tentando corrigir

No juramento, a professora pede que as crianças levantem o braço direito. Algumas se atrapalham. Sorrindo, a professora ensina

– O outro braço direito

Com essa, ela me cativa

As crianças recebem um anel simbólico pela primeira formatura, “que seja a primeira de muitas” abençoa a professora. Lembro que o meu anel de formatura veio por causa da Adriana e da Marina, que fizeram uma vaquinha com toda a família. Gente que ensina a gente. Simbolicamente, sempre – duas menininhas dançando de mãos dadas e sorrindo

– Já tomou o Dorflex, tia? – Mery, Auri e Marcia cuidando da minha vida – três carinhas amarelas com corações no lugar dos olhos

– Hoje eu não vou tomar dorflex. Vou tomar uma cervejinha – Lucimar desabafa depois de dançar três horas no Baile Beneficente da Paróquia São Judas Tadeu, que a Maria Lucia levou juntamente com a Lalinha. O padre com gel no cabelo e usando sandália com meias (que alguns acham que é brega) passa tentando não dançar Ilariê

Naldinho prepara e serve a carne, perfeita, bem passada

– Vou pegar a cerveja aqui no Marcio

Voltando do nosso passeio pelo Romano, passamos em frente ao Bonifácio. Lembro que a Edna foi minha aluna, antes de conhecer o Marcio mas na época a gente não era tão amigas quanto hoje

– A Edna nunca vai deixar de ser a minha sobrinha. Meu coração é muito grande, cabe todo mundo

– Eu sei, tia. O meu também

– Eu sei, sobrinha. Por isso a gente combina tanto

Eu e Mery pegamos uma chuva. A primeira de Maria Luiza. O mesmo céu que nos protegia manda seu aviso

– Eu chovo quando quero e para quem eu acho que precisa

A natureza manda uma lição. Tem pessoas que ficam trancadas em casa gritando seu louvor a Deus, colocam o som no volume máximo para que o vizinho saiba que ela está louvando ao Senhor. Nem se preocupa se na casa do vizinho tem alguém doente ou se trabalhou a noite inteira. O que ela quer é que você saiba que ela é muito religiosa mesmo que pelas suas costas ela solte somente serpentes

– Por que ela não fala na minha cara?

– Ela não tem coragem

– Vai acabar ficando sozinha

– Mais?

– A pessoa coloca a foto de Jesus no perfil do facebook e fala uma bosta dessas?

– Falsiane, tia

– Quem é Falsiane, Lucas? – gargalhamos juntos e de novo. Vou acabar com o estoque de kkkk do meu teclado se continuar seguindo esse menino <33

Murilo, tentando chamar a minha atenção enquanto escrevo, aponta a luz do Lanterna Verde na minha cara e ensina

– Tia, olha pra mim. Tem coisa mais importante do que literatura

Maria Lucia me dá o final do texto

– Minha mãe ficou com raiva da médica que disse “a senhora devia trocar o remédio por uma cervejinha”

Dona Maria, ficou inconformada, é claro. Para uma mulher da sua época, da sua criação, ela jamais se permitiria beber sozinha e dançar loucamente no baile como se ninguém estivesse olhando

Marcinha arrebata

– Queria ter esse dom de sentar e escrever assim, tia

– Lindinha, eu não sei fazer o que você faz no seu trabalho e nem na sua vida pessoal. Nem você me ensinando, eu consigo

– Cada um com seu dom, cada indivíduo é único, exatamente como o bambuzal, texto que você me mandou de presente. Todos unidos são indestrutíveis mas sozinho é frágil, fininho – carinhas amarelas mandando beijinhos e duas flores rosas no cabelo

Lições que a gente não aprende nem na escola nem nos livros

Coisas que a gente aprende caminhando

– E aí? Tá bom meu arroz com feijão?

– Perfeito, Maria Lucia. Quase igual ao que a sua mãe fazia

– Nossa mãe

– É que a Dri falou que quando eu era pequena, tratava a Marina como se ela fosse a minha mãe. Chegava da escola e corria pra casa dela

– Eu não lembro nada disso

– Mas a Dri lembra. A Dri lembra de tudo

Ailton nos guia até a casa da Marina. Marcia, John e Lucas fazem companhia para a Marina, para que todos possam ir ver a apresentação da Lara

Vou a pé com a Dri, primeira afilhada a me escolher para madrinha e, poucos anos depois, eu escolheria a mãe dela para ser a minha madrinha de casamento

Entramos no CEU Azul da cor do mar

Dri suspira

– A última vez que eu vim aqui foi para ver a minha mãe dançar

– Eu perdi isso

– Eu gravei, tia. Depois te mostro

– A única vez que eu vim aqui foi com a Marina. Ela queria chegar cedo para conseguir vaga na ginástica

Entramos com o pé direito e Lara vem correndo me abraçar

– Dri, por favor, faz uma foto minha com a Larinha vestida de bailarina

Agradeço e envio a foto para o Lou, para que ele saiba onde estou e com quem

No celular, respondo a mensagem da Auriane com três princesas e três estrelas

– Eh nóis, porcaria. Se alguém falar que você está abandonando a Marina pede pra pessoa ir morar lá, no seu lugar – figurinha de casinha nova e brilhante

Amanda convida

– Será que dá pra fumar na chuva?

– A gente dá um jeito

O segurança não deixa. Eu e Amada obedecemos e entramos para provar que, até sob tempestade, o show tem que continuar porque o céu nos protege. Marina, ausente, Rose lembra, é a mais presente nesse lugar

– Cadê a Lucimar?

Marli se assusta “nossa você ficou muito parecida com a mãe, parecia que eu vi a mãe, ali, entrando”. Lusia sorri concordando “ficou mesmo”

Sorrio de volta e anoto, é claro que ela está aqui, essas estrelas correm pelo nosso sangue. Não só a mãe mas também o pai, o Guilherme e todos que não puderam vir, estão aqui, bem quentinhos no coração da gente que, a cada dia, fica maior, sempre cabem mais presentes

Anderson e Marli avisam

– Tia, tem lugar ali, do lado do meu pai

Reclamo “não gosto que guardem lugar pra mim” “se eu quisesse sentar na frente, teria ficado na fila”. Sorrio e lembro da Lucia: “ô gente que gosta de reclamar”

“brilha brilha estrelinha

quero ver você brilhar lá no alto, lá no céu

baila linda

bailarina

quero ver você brilhar

faz de conta que é só minha

só pra ti irei cantar

vou ficar aqui dormindo

pra esperar papai noel”

Finalmente, a dança da Ana

No final, a professora chama a costureira que confeccionou as roupas. Lembro da minha vontade de aprender a costurar e olho para a minha mão escrevendo compulsivamente

Arremato com palavras a roupa que quero usar

Confecciono o meu hábito

Entrelaço as conversas que ouço, os tecidos que toco, tramas se armando, nós, nóis, nozes

Peço para a Marli a blusa de cerejinhas: “combina com o caderno que a Lusia fez pra mim”, imploro

Sou mais uma linha nas mãos desse costureiro gigante, tão bondoso quanto malvado que uns chamam de Deus e eu resolvi chamar de Destino, filho do Caos e da Noite, ensina a Wikipédia

– Você não pode usar a internet como fonte segura de consulta

– Mas o meu marido disse que a gente não pode confiar nem nos livros

Não confio naquilo que é dito e nem naquilo que está escrito

Acredito nas pessoas e nas ações que observo enquanto brinco de massinha com a Larinha que pegou a massinha toda pra ela e não deixou nem um pouquinho pra mim. Divido em duas partes e ensino

– Se você quer brincar comigo tem que dividir a massinha com o amiguinho

Ela aprende rápido

Sabe tudo essa menina

Amanda e Adriana, mesmo exaustas, física e emocionalmente, me oferecem carona. Escolho a Amanda porque posso fumar no carro dela. A Dri, sorri e entende – coraçãozinho azul e brilhante

Ela me guia, me conduz, me entrega na porta de casa

– Obrigada, tia

– Eu que agradeço, sempre. Deus te abençoe, porcaria

– Por que você me chama de porcaria?

– Porque é um jeito de enganar os deuses do mal, o mau olhado dos outros. Por isso a fita vermelha nas crianças. É uma crendice. Não pode elogiar muito uma criança, tem que falar, às vezes, que ela é feia e que você a ama menos do que um pudim feito pela Marina e quando as crianças vão na minha casa também, eu encho a mesinha pequena de porcaria: doces, balas, pirulitos, para comer antes do almoço

– Deixa o pai dela saber disso

– Ele só vai saber se você contar

– Ai tia, só você pra me fazer rir

– É a minha função nesse momento porque não consigo fazer o que você faz pela sua mãe

Que o destino abençoe a todas as porcarias da minha vida, filho, marido, todas as famílias, alunos, amigos e vizinhos, com dias lindos, brilhantes, iluminados pelo Sol e pela Lua

Na playlist, que ganhei do meu Lourencinho, procuro “Lucy in the Sky with Diamonds” e agora, enquanto digito o texto manuscrito, posso chover sozinha e agradecida por conviver com tantos diamantes no meu céu particular

Muito obrigada a todos costuraram esse texto comigo

Eu mudei os nomes porque a gente nunca sabe quem está lendo o que a gente escreve ou ouvindo as merdas que a gente fala enquanto anda pelo céu até chegar a hora em que a gente também vai virar estrelinha

Literalmente

Pra sempre

lucimar-mutarellinovo

3 comentários sobre “Coluna 48: ‘Lucy, no céu com diamantes’, por Lucimar Mutarelli

  1. Feliz daquele que tem registro na alma de seu passado. Viveu a sua vida. Tem história pra contar. E cada vez que a revive tem um olhar mais generoso. …consigo.

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