DAMA DO LODO: ‘Seu Carlos e o Interfone’, por Marina Filizola

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Oito da manhã Seu Carlos e seu interfone.

Seu Carlos puro respeito setenta e tantos metro e meio e um palmo, cabeça de bexiga. Seu Carlos dentes só na frente porteiro a vida inteira. Cumprimenta cumprimentando não reclama da vida não liga pro trânsito não sabe dirigir coisa de motor nem nada que ronque, guiou foi com muito custo o rumo da própria vida. Seu Carlos 12 filhos três mulheres e seus não-problemas.

Quis ser ascensorista comentarista de rádio mecânico de helicóptero, quis tanta coisa conseguiu coisa nenhuma. Acabou porteiro prendado quase síndico não fossem as estatísticas. Um dia pensou serio inseminar elefantes mas o medo o continente a fauna obstruíram ousada tentativa. De verdade não tentou muito quase nada e sonhar sonhava mesmo que sonho não custava não tinha condomínio iptu multa taxa de banco. Seu Carlos rugas de gente que viveu tantas não distingue senhores de meninos.

– Bom dia garoto!

O morador do 72 e Seu Carlos.
O morador do 72 e Seu Carlos quase compadres comparsas vizinhos não fossem sete andares dois cartões de crédito e sonhos concretizados os separando. Seu Carlos gosta do cabelo solto em fantasia de terno do garoto de negócios que mora no 72. Do aperto de mão pesado dos bomdia escancarados das roupas arco-íris depois de despido o traje de pinguim enjaulado. Do cachorro viciado em bola da pulseira colorida escondida debaixo da camisa engomada.

– Bom dia garoto! Aquela voltinha o cachorro a bola a namorada nova, esqueceu saco plástico não né?, daqui a pouco ganha multa gente sem saco, o povo inventa né não menino?

O morador do 72 sempre com saco sempre namorada nova à tiracolo. Foi o garoto arranjar namorada sisiricotico sarna pra se coçar que a Dona do 74 nunca mais teve noite sossegada manhã morna madrugada calada. Coisa de casal, sexo afoito bateção de cama xicote estralando gritaria abafada sofá arrastando entra sai proteína e treino, a Dona do 74 não queria saber, Seu Carlos sabia bem.

– Calma Dona, que a senhora já teve seus trinta e tantos sabe como é a lambança dessa gente que tá começando.

Tentou em prosa, Seu Carlos cheio de esperança, deixar o menino do 72 sem incômodos. Fosse filho seu entrava seco no marmelo mas longe de Pernambuco ficou sem braço sem jeito sem talento. Oito da manhã Seu Carlos atendeu no interfone a moradora do 74 metralhando argumentos.

– Seu Carlos, o 72 começou. Sábado cedo segunda a tarde madrugada a dentro dia que for, esse homem não tem expediente não tem horário não tem respeito não tem jeito.

Resolve Seu Carlos, que não falta tanto meto eu o dedo na campainha do impertinente.

O interfone e a dona do 74. Seu Carlos silêncio em pessoa, coisa que se espera de porteiro decente. Pano de polir o interfone
de desinteligência entre os moradores do prédio por fora pacato, na poluída e bem localizada nove de julho. Era só xodó com o interfone o santo do homem era tudo que tinha. Leva e traz de
notícia avisa de encomenda visita chegando pizza à espera taxímetro contando e a dona do 74 que não tinha outro esporte no mundo que não ficar interfonando dia noite dia pra atazanar o coito do 72.

– Paciência que dou meu jeito. Já que subo já, a senhora não se afobe pela graça do divino do Espírito Santo.

Dito e feito.

Seu Carlos dono de palavra assumiu compromisso de homem barbado. Coisa de dar chamada no quase-compadre logo cedo da manhã era missa aperreante, nem saí tinha saído o coitado com o cachorro a bola o saco, que fardo, o menino ainda de cueca arriada corpo largado cheiro de sono.

– Velha do 74 encruada, Deus me perdoe se jogar no mar nem afundar afunda que yemanjá cospe de volta encosto.

Sinal da cruz.

O sétimo andar e Seu Carlos.
No elevador a câmera registrando: seu Carlos suou orações suplicou bênção desovou pecados que era hora de quitar parcelas pra não sobrar pendência. Num era sujeito de viver ascensorista toda uma vida que o entra e sai e ele ficando dava sensação de perda, certo disso de uma vez por todas.

A porta abriu Seu Carlos dois passos que não tinha esquema fugir do fardo. Frente a frente 72 e 74 e a dona intriga era certeza consumada já fazia minutos estava pregada rogando praga testa colada no olho mágico.

Seu Carlos, safo, fez sinal pra desequilibrada isso foi esquema manjado sabia ele, ela esperava algum retalho do babado.

Dedo na campainha era isso ou nada. Dim-dom inesperado àquelas horas da madrugada, realizou o menino saindo pelado ofegando fluídos exalando sexo respingando sêmen, mas Seu Carlos desenhava mesmo era a namorada do menino pelada perna aberta cabelo jogado suor espalhado cinzeiro ninando baseado bituca camisinha usada.

Sai então o garoto do 72 vestido à pêlo samba canção cabelo esparramado peito aberto largo musculoso todo trabalhado na tinta, um índio de um metro e oitenta tumultuando aquelas bandas.

Seu Carlos não conseguira senão só escancarar sorriso largo, dentes na frente atrás gengiva de criança. O índio em casa, pinguim no trabalho, parado como se não calculasse o mal presságio, mão solta na cintura talhada esperando um abraço apertado do meio metro de gente mais confiante do bairro.

– Bom dia Seu Carlos, perdeu o andar veio parar no errado? Fala homem que tô no meio do serviço pesado a patroa esperando lá dentro, sabe como é mulher nova essa hora da manhã qualquer hora que seja não pode deixar esfriar.

Seu Carlos pensou desistir dar de costas e seguir pro interfone dizer “ô Dona deixa o garoto terminar serviço pela graça de Santo Cristo que chega ser bonito ver amor no meio de tanto
concreto tanto cinza tanta pressa”, mas não disse foi é nada que queria ficar ali pra sempre jogando conversa fora com gente que lhe tratava como gente, parecia Pernambuco que o povo se olhava no olho mesmo quem tinha se visto nunca.

Voou longe arrastado pelos pensamentos e resolveu vez por todas a desinteligência.

– Garoto aqui ou mato ou morro ainda juro ser síndico algum dia, vou logo piando baixo que caíram minhas fichas me dei conta foi agorinha da emboscada da arapuca, sabe a Dona o 74 aí da frente?, a sombra no pé da porta o olho mágico zoroiando seco, tá ela ali que deu de virar sua fã desde sempre agora me dei conta o porquê. Posso não ficar aporrinhando gente que guardo gosto, faz favor então: permaneça no que está fazendo faça com apetite arranque o couro encha de bolacha e vez ou outra apareça da forma que Deus lhe pôs no mundo aqui pela porta e faça graça pra madame encalacrada que resolve assim essa agonia essa aflição essa tortura.

Dito e feito.

A Dona do 72 o garoto do 74 a namorada nova em folha o ajuizado Seu Carlos o cachorro a bola o saco agora era todo mundo moderado. A namorada gemia morna o garoto trabalhava duro a Dona toda assanhada tremendo grudada na porta e era o garoto aparecer pra espiar o lado de fora a madame perdia freio dos joelhos perna bambeava a perseguida adormecida pra mais de ano agora toda molhada de esperança, era milagre.

Quem fazia continuava fazendo quem não podia matava vontade Seu Carlos polindo o interfone que vez ou outra dava de tocar por motivo acostumado,”ô Seu Carlos, checa alarme do carro acho que tá disparado” coisa ou outra desse apanhado.

Até estranhou calmaria na reunião de condomínio ele a Dona o garoto o cachorro a bola e mais nada.

Foi declarado síndico.

Por unanimidade

marinafilizola

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