DAMA DO LODO: ‘Spot’, por Marina Filizola

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Spot hora do almoço (aquela espera simpática de sempre).
Garçons descolados top models hypes arquivados garimpando grana extra, dentes brancos peitos amplos ante-braços categóricos com aroma de sexo, um lugar singular.

Heterogeneidade, variedade derramada sobre as mesas. Tudo quanto é formato tudo quanto é apetite, espécimes de libido transparente. Quem é é. Não finge não se omite não tem embaraço. Beijo na boca mão na bunda calça justa grifando as partes baixas, isso sim é cliente com paladar. Eu acho.

– Por isso terminei o namoro. Aniquilei a discordância, não dava conta tanta desarmonia.
– Foi é? Putinha gostosa.
– Gosto do mundo do avesso reverso imperfeito. Como ele é. Com você pode. Não pode?
– Cala a boca e me beija.
– Viu?

Tem quem só beba tem quem só coma tem que só olhe, tem de tudo. Tudo pasma sobressalta e permite.

– A garçonete morena esguia piercing trança de lado, qual o setor daquele monumento?, sim espero tempo que for pelo espetáculo. Seleção excepcional.

Gente com fome de gente. Que não escolheprato, escolhe setor.
Altamente contemporâneo.

– Contemporâneo? Defina.
– Veste bem o presente.
– Definição aceita.

Era costume era domingo e lá estávamos nós.

– Dentro ou fora?
– Primeiro fora depois dentro, o de sempre.

Aquecimento.

– Sabe a fome do último domingo?, multiplica por quatro adiciona trânsito paulista interditada sol químico lascando o couro, não tem esquema.

– Cadê o homem?

Garçons e clientes quase primos depois de tantas sucessivas. Eu sei de tudo, na minhasegunda mijada senta aqui o gerente os dois falando merda falando de mulher contando os problemas, papo de macho que fêmeanão assimila.

– Tá quase foi parar o carro, emburrado que só o demônio. A paulista interditada fode a frequência o público atravanca, fode não? Não tem como chegar não tem onde parar, pra chegar nessa contra-mão putaqueopariu viu.
– …o de sempre então?…
– Rápido que o jumento com fome não tem quem guente. Sério. O bicho fica espumando.

Deu sumiço na entrada de alguma mesa-caroço, cinco segundos depois estava brilhando fresca na minha frente. Moleque agilizado da peste.

Chega o macho senta come volta a ser decente, pronto. Voltou. Coisa de dupla personalidade de gente bipolar, depois eu que sou adicta. Sei (tipo da coisa que não se comenta só se pensa)
Escolho o lugar certo. De onde se possa ver todo mundo todas as gentes. Ali além de comer a gente belisca o antes e o depois e o durante dos habituês.

Ele, caipirinha zero açúcar pinga em dobro, é muita resistência.

– E você, vai o que?

Tá bom que eu bem sei que lê meus textos sabe que sou retardada problemática linguaruda, vou pedir uma caminhão pipa de sake pra ver se cola.
Silêncio externo. Por dentro, turbulência aguda.

-Tangerina né. Suco.

Ponto pra ele.

– Eu li viu, em casa todo mundo leu, todo mundo cagando de rir, de fuder. Seu sobrinho, é? Coisa de louco, esquece a calça esquece tudo, tô acompanhando a batida cerebral, no lançamento quero estar presente, estaremos.

Leu mesmo. Anda lendo. O povo tá lendo as minhas merdas, dá gosto ser Eu vez em quando.

– Vou fazer xixi homem, aposto cinquentão que é eu sair tem alguém aqui esquentando meu assento.

Cinquenta no bolso bexiga vazia e mil idéias durante o esvaziamento.

– Daria pra qual aqui?
– Não sei, duvida duvida duvida.
– Num fode, só galã. Daria pra todos, vomita a verdade.
– Não, acho que não. Preciso de alguma coisa que aqui não tem.
– Olha o barba. Não cansa de te olhar.
– Todos olham jumento. Toma. E você, comeria qual?
– Todas.
– Não sei porque eu perguntei. Asno.

Lá dentro ar-condicionado de dezembro. Arrepia o cú, se bem me entende.

– Por favor, sabe o pólo norte? Então, não vim preparada. Dá pra reduzir a potência? que tremer e mastigar é esquisito.

Dois pratos: carne gorda mato enfeitecreme de leite fritas finas, o treino foi pra casa do caralho. Domingo é dia.
Na vertical, a mesa que fechou o domingo com chave de ouro despontava elegância e falta de noção.

– Olha a louca fritando. Casaco de pele no verão é de lascar. Preparada pro pólo norte.
– Ali tá tudo complicado.
– E ainda pedi pra aliviar o ar, quebrei as pernas dela. Comeria?
– Óbvio.
– Jesus amado, você consegue.
– Ontem aquele frio desgramado a fina saiu pra comprar pele pra ir na festa de sábado diva.
– Hoje esse calor que derrete a Santa não pensou duas vezes, vai dizê. Um coala enrolado no pescoço, que figura.
– Fino. De cair o cú da bunda.
A garçonete magnética de tão carismática em pliê com os pratos. Prato pra um pratopra outro e a pausa:
– Li seus textos. A gente lê no intervalo do cigarro.
– Ah vá!
Caceta, o vírus tá propagado.
– Atual contemporâneo direto, linguagem que pega a nossa e as próximas gerações.Talento hein, atual de dar nó. No lançamento já sabe. Mini-saia meio-palmo livro debaixo do braço.

Existe gente que lê senhor! Misericórdia que a joça se espalhe que germine a cabeça do povo e solde idéias não materializadas(foi o que pensei mas me sobrou mesmo a fronte reluzindo gratidão, janelasbrilhando).
Tem que ter muito peito escrever sem medo.
Tem que ter muito desassombro vomitar palavras.
Eu acho.
Eis então a miss-Diva levanta, ela o coala mais nada. Nem precisava.

– Por favor, pausa no garfo.
– Qual foi.
– A Diva esqueceu. Não creio, esqueceu de tirar.
– Putaqueopariu, a etiqueta gigantesca pendurada no coala! Sensacional.
– É muita confiança, né não?
– Vamos ao que interessa. Ontem puta calor festa a noite sem roupa no armário, saiu parcelou em 6 mas na dúvida mortal coisa comum da espécie feminina.
– … manteve a porra da etiqueta pregada na peça…
– …pra uma possível troca no caso do arrependimento absoluto.
– Brilhou na pista toda fada ninfa sereiacerta que hoje, trocaria por qualquer coisa que caiba na estação. Procede?
– ok 100% positivo.

A Diva de pé espalhando glamour a etiqueta tamanho outdoor dependurada balangando pra uma lado e outro, eis que…

– Opa Opa Opa, o garçom viu! O filhadaputa do garçom vai avisar ela e..
– Arrancou! Ele arrancou a etiqueta! Peloamordedeus o barba desenraizou a miserável da etiqueta da porra da estopa de pelos.
– Por favor 10 segundos de silêncio pela desgraça que se acometeu neste exato momento. Olha a cara de bunda da Miss-pancada..
– …obrigada Senhor por estarmos vivos para presenciar cenas impagáveis como essa. Repete comigo:
– Eu Creio Senhor, Mas Aumentai a Minha Fé!
– Ninguém merece.
– Amém.

marinafilizola

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