LITERATICES E OUTRAS CONVERSAS: Jorge Luis Borges, autor de Pierre Menárd

literaticesjorgevalentim2016 será um ano marcado por diversas efemérides. Pessoas, acontecimentos, obras, enfim, uma série de datas marcantes que não passarão (ou, pelo menos, não deveriam passar) em branco pelo nosso calendário. Nada mais auspicioso do que, no primeiro mês do ano, já no mês inaugural deste novo ciclo que se inicia, anunciar, quase que em tom profético, algumas ocasiões importantes no mundo das artes e da cultura.

2016 é o ano do Centenário da Professora Cleonice Berardinelli. Para as gerações mais novas, pensar chegar a uma idade com 3 dígitos pode parecer impossível. Mas, Dona Cléo, como carinhosamente é chamada pelos seus alunos e amigos, está aí para contradizer esta vã expectativa. A sua paixão pelo ensino e pela investigação ultrapassa qualquer numerário redutor. Luis de Camões e Fernando Pessoa ganharam edições primorosas e muito cuidadosas das mãos da mestra. Isto sem falar na gravação do CD e DVD, em conjunto com Maria Bethania, dos poemas do autor de Livro do Desassossego. Trata-se, portanto, de uma data a ser relembrada no e pelo meio acadêmico, em virtude da relevância desta Grande Dama da Literatura Portuguesa no Brasil.

2016 também marca os 80 anos da revista Claridade. Um dos pontos fundantes da renovação modernista em terras africanas atlânticas, a geração de Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa inovou ao propor uma literatura que não desprendesse os seus pés do chão árido e pedregoso do arquipélago de Cabo Verde. Como o próprio nome já anuncia, procurou iluminar, clarear, enfim, lançar uma luz de visibilidade sobre a produção literária que em outros territórios de língua portuguesa se fazia. Nada mais justo, portanto, que honrar a proposta e não deixar a herança material e imaterial destes artistas caírem no vácuo do esquecimento.

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Autran Dourado. Imagem: Blog da L&PM.

2016 deverá (quem sabe?) ser o ano de relembrar o escritor brasileiro Autran Dourado. Romancista de primeira grandeza, autor de obras célebres como O risco do bordado (1970) e Ópera dos mortos (1967), há muito que este mineiro de Patos de Minas não figura entre os programas de graduação e pós-graduação no país. Este ano deveria ser um momento de festejar os 90 anos de nascimento do escritor, no entanto, até agora, nenhum sinal de lembrança ou comemoração. Uma pena, porque, depois de Guimarães Rosa, foi um daqueles escritores em que o regionalismo distintamente localizado nas paragens mineiras ganhou uma de suas páginas mais belas:

 

Um pintassilgo veio voando, veio e pousou no arame farpado da cerca. Deu um trinado comprido, dobrou no canto. Vendo o pintassilgo, sentiu uma súbita alegria, feito encontrasse um velho conhecido. Assobiou remedando o passarinho, fez dueto com ele. Passarinho era a maior coisa do mundo. Pintassilgo nem se fala. (…). O pintassilgo parou o canto, saltitava no arame. Depois um cabecinha-de-fogo de apoleirou mais adiante. O cabecinha-defogo ordenava as penas úmidas com o bico. Vida leve a de passarinho, pensou continuando caminho (…).

Diante das voçorocas parou. As voçorocas não mais o assustam, tão acostumado agora à sua presença, de tanto que passava por ali toda vez que ia caçar com Seu Etelvino. Nunca porém deixava de olhá-las, preso ao seu segredo, ao seu mistério, ao seu visgo. Uma vez chegou a descer por elas, foi parar lá no fundo do vale. Seu Etelvino ficou de longe espiando feito bobo, por que fazia aquilo, lá não tinha caça nenhuma. Me perdoe o atraso, Seu Etelvino, disse ele, mas é que nunca tinha descido uma voçoroca, queria ver como é ela lá dentro. Tem nada demais não, não é, Seu Juca? disse Seu Etelvino. É, tem não, disse ele. Até que no fundo a terra é firme, tem até um riachinho correndo lá embaixo (DOURADO, 1974, p. 146).

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Mário Cláudio. Imagem: Jornal de Notícias de Portugal (JNPT).

Em Portugal, 2016 é também um ano festivo. Mário Cláudio completa 75 anos. Romancista, ensaísta, poeta, contista e dramaturgo, o autor da Trilogia da mão é um dos escritores mais produtivos da literatura portuguesa contemporânea. Galardoado, recentemente, com o Grande Prémio de Romance da APE (Associação Portuguesa de Escritores), pela obra Retrato de rapaz (2014), o autor volta os olhos para um dos ícones da arte ocidental, Leonardo da Vinci, efabulando uma relação afetiva entre o mestre e seu discípulo, com cenas ousadas e arrebatadoras que procuram recriar o lado sensual e erótico de certos ambientes da Renascença e, ao mesmo tempo, o olhar pontual e agudo do grande pintor:

 

Toucado por uma peruca loura desse louro de urina que caracterizava as putas do Trastevere, e de beiços pintados a um roxo de Semana Santa, ali se plantava o seu Salai, metamorfoseado em velho, e nu por baixo da camisa transparente. Encarando os fiéis com um esgar, e oferecendo-se como um místico cordeiro demoníaco, o rapaz deixava-se acometer pelo terceto formado pela meretriz, e pelos eclesiásticos, os quais, ansiosos todos naquele cio que se tem por escada alternativa ao Absoluto, lhe erguiam o chambre na busca do pénis túrgido, e aberrante na galdéria em que o moço se transformara (CLAUDIO, 2014, p. 86).

Longe de incorrer em vulgaridade, Mário Cláudio domina a articulação romanesca da língua portuguesa e a molda com sobriedade e lucidez. Diante de cenas e de obras tão originais, na minha livre opinião (como sempre gosto de frisar), ainda é um incompreensível como os olhos do Prémio Camões ainda não se voltaram para o Norte e pousaram no colo deste grande escritor. Quem sabe, neste ano, em que as comemorações por esta justa efeméride se realizam, o reconhecimento venha de maneira incontestável.

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges em Buenos Aires, Nov. 20, 1981. Imagem: AP Photo/Eduardo Di Baia.

No cenário das literaturas hispano-americanas, 2016 também é um ano a ser rememorado com justeza, afinal, completam-se 30 anos de ausência de um dos grandes escritores do círculo mundial: Jorge Luis Borges. Com uma escrita inconfundível, de um ensaísmo que não abria mão de dialogar com outros gêneros narrativos (como o conto, por exemplo), Borges deixou alguns textos paradigmáticos no campo dos estudos literários. Um deles é “Pierre Menard, autor do Quixote”, onde o engenhoso autor argentino engendrou uma trama de um escritor imaginário, com um projeto ambiciosíssimo:

Aqueles que insinuaram que Menard dedicou sua vida a escrever um Quixote contemporâneo, caluniam sua límpida memória.

Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Inútil acrescer que nunca visionou qualquer transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes (BORGES, 1972, p. 51-52).

Com tal bordado efabular, Jorge Luis Borges, autor deste Pierre Menard, tece nas malhas do texto, inserido numa sugestiva coletânea chamada Ficciones (1944), considerações importantes e, até hoje, apontadas em críticas e ensaios diversos entre professores e pesquisadores da área, sobre paródia, intertextualidade, tautologia e autoria. Se a sua criatura autoral Pierre Menard tentou idealizar, na sua concepção, “o Quixote”, não ficam dúvidas de que Jorge Luis Borges conseguiu atingir, como autor deste autor/personagem, um grau indiscutível de genialidade em termos de construção narrativa e de reflexão ensaística.

O que dizer, por exemplo, ainda nesta mesma tônica de interrogação sobre aspectos inerentes à literariedade (como intertextualidade, paródia e diálogos polifônicos), de “Kafka e seus precursores”? Num movimento contrário de colocar o autor de O processo como inaugurador de certos caminhos de uma modernidade literária, Jorge Luis Borges propõe olhar o seu objeto de análise (Franz Kafka) não apenas como um grande escritor (que foi, realmente!), mas como um leitor sensível, inteligente e astucioso, capaz de inaugurar uma linhagem, não de sucessores, mas de precursores:

Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. De início, eu o julgara tão singular como a fênix das loas retóricas; depois de algum convívio, pensei reconhecer sua voz, ou seus hábitos, nos textos de diversas literaturas e de diversas épocas. Registrarei aqui alguns deles, em ordem cronológica (BORGES, 2007, p. 127).

De Zenão de Eleia (cerca de 490/485 a.C.? – 430ª.C?) a Leon Bloy (1846-1917), Jorge Luis Borges vai construindo toda uma linhagem de encontros, diálogos e consonâncias entre os principais escritos de Kafka e alguns momentos singulares do universo cultural literário e filosófico (que incluem, ainda, Han Yu e Kierkgaard), sublinhando, assim, a capacidade de leitura, absorção e revisitação intertextual do autor de A metamorfose, sem deixar de mostrar a sua originalidade e genialidade criadoras.

Como, portanto, não considerar as comemorações em torno de uma figura tão lúcida e tão instigante como a deste intelectual argentino? Impossível. Jorge Luis Borges não foi apenas autor de Pierre Menard, mas foi de tantas outras personagens que movimentaram e fomentaram o cenário da modernidade literária.

Que venha, portanto, 2016, com Menards, com Quixotes, com Kafkas, com Rosalinas, com Chiquinhos e tantos outros motivos para não deixar o silêncio se sobrepor à memória cultural.

São Carlos, 01 de janeiro de 2016.

Referências bibliográficas:

BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução: Carlos Nejar. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1972.

__________. Outras inquisições. Trad.: Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CLAUDIO, Mário. Retrato de rapaz. Lisboa: Dom Quixote, 2014.

DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

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