Cia. Sansacroma dança a loucura em “Sociedade dos Improdutivos”

Espetáculo é fruto de dois anos de pesquisa sobre a loucura e contrapõe o corpo que é socialmente invalidado ao corpo que é socialmente produtivo

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Com apresentações nos dias 22, 23, 24, 29, 30 e 31 de janeiro, sextas, sábados e domingos, sempre às 20h, na Casa de Teatro Maria José de Carvalho, o espetáculo Sociedade dos Improdutivos, da Cia. Sansacroma tem direção de Gal Martins e é o resultado de dois anos de pesquisa teórica e de campo sobre a loucura.

O questionamento central do espetáculo contrapõe o corpo que é socialmente invalidado ao corpo que é socialmente produtivo. O primeiro é marginal portador de algum tipo de loucura. O segundo é medicado, incluído e sujeitado ao modo de vida capitalístico – corpo explorado até o esgotamento das suas capacidades produtivas.

Trata-se da invalidez da reprodução. Força invisível chamada de loucura, transcender coletivo. A não-adequação social produtiva. É solidão. É a história, um itinerário da loucura em fusão para um embate contra o capital. O controle ocidental contrapondo a corporeidade do imaginário africano. São vozes potentes, negras, de territórios e seus povoamentos. Um cotidiano dos que estão à margem e dos que não estão.  São vozes da “Sociedade dos Improdutivos”.

A pesquisa

O trabalho de pesquisa teórica da companhia foi um consistente estudo sobre a história da loucura no ocidente. De Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, Erasmo de Roterdã, passando pela Nau dos Insensatos, de Sebastian Brant, até o conceito de Biopoder de Michel Foucault, pelo pensamento junguiano que inspira o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira e pelos paradigmas que norteiam a Reforma Psiquiátrica e Luta Antimanicomial no Brasil.

A pesquisa de campo foi realizada inicialmente através de 12 intervenções artísticas junto aos usuários do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Jardim Lídia, que fica no Capão Redondo. E se estendeu por meio de um vínculo entre a companhia, os profissionais de saúde e os usuários deste Caps, direcionado a outras atividades artísticas na Fábrica de Cultura Capão Redondo.

Essencialmente implicada com as questões políticas e minoritárias, a companhia observou a maioria de corpos negros e periféricos presentes tanto nos manicômios do passado, quanto nas atuais unidades dos Caps.

Não por acaso, no momento em que a Sansacroma decide imprimir a força de sua negritude e ultrapassar a concepção dominante ocidental sobre a loucura, o encontro com o continente africano acontece pela narrativa da pesquisadora Denise Dias Barros e sua publicação “Itinerários da Loucura em Territórios Dogon” (Casa das Áfricas, 2004). Nesta região do Mali, a vida de cada um se dá na continuidade ancestral e se produz na malha social, constituindo redes de convívio na intersecção entre o mundo invisível e visível.

O recorte coreográfico da etnomedicina Dogon, desconstrói o olhar eurocêntrico da loucura e redimensiona o espetáculo. Um novo panorama se abre aos saberes ancestrais. Tradições que interferem diretamente nos procedimentos terapêuticos, criando uma tessitura complexa, onde a figura dos adivinhos, ou marabus, são elementos principais no processo de cura, na reapropriação do si, da saúde, da autonomia e da liberdade.

Do encontro com estes pensamentos e experiências, Gal Martins expõe um dos argumentos que compõem o espetáculo:

“É conveniente manter a sombra oculta e invisível aos olhos de uma sociedade sujeitada a valores de consumo, que legitima enunciados científicos em torno de uma idealização de saúde. Essa perspectiva ocidental, forjada histórica e linguisticamente, extrai a singularidade expressiva e a potência de produção do ‘louco’. O inscreve na vulnerabilidade, no abandono, na miséria e na subjetividade-lixo, que impõem sua dependência aos tratamentos de contenção, ao consumo de medicamentos, substituindo o confinamento do passado, pelos controles farmacológicos e institucionais do presente”.

Deste modo, a poética do espetáculo pretende ultrapassar a mera denúncia ao capitalismo para fomentar empatias marginais e produzir percepções que levam o espectador a vivenciar processos que são humanos, mas que o sistema segregador institui como desvio, sintoma e doença indesejada. Nesta poética, a loucura das pessoas se afirma como potência singular que cria possíveis comuns, as situa num mundo e legitima uma vida.

Estrutura cênica

O espetáculo tem uma estrutura cênica alternativa e sensorial. A música ao vivo e a ocupação numa instalação coreográfica deslocam o público para uma lógica dos sentidos e o retira da lógica do consumo que organiza a vida contemporânea. As sensações e reações motoras dos que assistem, vão compor a dramaturgia do espetáculo.

As estações coreográficas do espetáculo delineiam e revelam o quanto pode ser poderoso o ato de narrar e expressar um sofrimento. Narrativa gestual que se torna um ato de resistência política, afecção sensível e transformação de realidade social.

Sobre a Cia. Sansacroma – Criada em 2002 pela atriz, dançarina e coreógrafa Gal Martins, a Cia. Sansacroma tem se dedicado a desenvolver trabalhos baseados no hibridismo característico às criações coreográficas na contemporaneidade. Sua produção artística focaliza temas pertinentes à sociedade atual, no modo em que chegam e afetam a todos diretamente, seja no cotidiano das ruas, nas relações sociais e interpessoais, na mídia ou na própria arte. A Dança da Indignação, conceito criado pela artista, norteia a pesquisa de linguagem estética da companhia, que pretende reverberar no ato dançante as indignações coletivas, numa abordagem política-poética que aponta para as intersecções entre arte e vida. Tendo feito uma escolha singular ao atuar diretamente na periferia sul de São Paulo, este território influencia diretamente o seu processo artístico. O ponto de partida das criações são as poéticas do corpo negro, que circulam na população dessa região, a qual a companhia chama de indigenordestinafricana.

 

SERVIÇO:

Espetáculo Sociedade dos Improdutivos

Cia. Sansacroma

Direção: Gal Martins

Espetáculos dias 22, 23, 24, 29, 30 e 31 de janeiro, sexta, sábados e domingos, às 20h, na Casa de Teatro Maria José (Sede da Cia de Teatro Heliópolis), à Rua Silva Bueno, 1533, Ipiranga, São Paulo, Telefone: 11 2060-0318

Entrada franca (retirada dos ingressos na bilheteria a partir das 19h)

Duração: 50 minutos

Classificação etária: 14 anos

Capacidade: 40 lugares

 

FICHA TÉCNICA

 

Direção e Concepção: Gal Martins

Intérpretes Criadores: Djalma Moura, Verônica Santos, Ciça Coutinho, Lucas Lopes, Érico Santos e Mônica Teodosio

Orientador de Pesquisa e Provocação Cênica: Rodrigo Reis

Direção Musical: Cláudio Miranda

Músicos: Claudio Miranda, Alessandro Neres, Luís Henrique, Paulinho Torres e Fábio Miranda

Figurinos e Adereços: Mariana Farcetta

Concepção e Operação de Luz: Almir Rosa

Preparação Corporal: Luciane Ramos, Edson Fernandes, Francisco Silvino e Mariama Camara

Orientação de Pesquisa de Campo: Rodrigo Dias

Cenotécnico e Técnico de Áudio: Fábio Miranda

Ensaiador: Djalma Moura

Direção de Produção: Selene Marinho

Assistente de Produção: Dandara Gomes e Lucas Bernardo

Assessoria de Imprensa: Marcelo Dalla Pria

Aproximação com o Público: Ciça Coutinho e Dandara Gomes

Fotografia: Raphael Poesia

Designer Gráfico: Hellem Fernandes

Colaboradores: Denise Dias Barros e Priscila Paciência

Agradecimentos: Caps Jd.Lídia, Secretária Municipal de Saúde e Valéria Ribeiro

 

Informações para a Imprensa – Cia Sansacroma:

Marcelo Pria

MTB # 027461

Pollux Comunicações

pollux.comunicacoes@gmail.com

11 98739-6179

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