Larissa Lisboa: São Paulo

rebocoSão Paulo é aquele lugar que me pariu.

Como qualquer parto, tudo veio com muita dor. Dor de três horas de trânsito, ônibus lotado com cheiro de pinto sem lavar, baratas e ratos que corriam desnorteados à procura de dinheiro e um pouco de afago.

Mas no meio de toda aquela merda, também existiam os momentos de prazer. Sempre com pouco dinheiro, toda a semana ia ao teatro Sesi na Avenida Paulista, que era de graça, e no final das peças contava a grana pra comer um yakisoba sujo e barato (Eu ainda tinha dinheiro pra comer aquilo, enquanto alguns amigos, como o Sacolinha, precisavam vender livros pra se unir às bactérias e infecções intestinais daquele menu: http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/209729).

Aproveitava os dias de desconto no antigo Espaço Unibanco, na Rua Augusta, ou no Cine Sesc, e lia gibis na gibiteca do Centro Cultural Vergueiro. Quando tinha mais pique, pegava dois ônibus e ia até o Memorial da América Latina assistir à alguma palestra ou show.

Minha vida cultural seguia um roteiro relacionado ao trânsito e os poucos acessos que tinha. Jamais frequentei bairros da elite. Lá o ônibus até chegava, mas passava de hora em hora. Por isso, seguia os pontos de maior circulação do transporte público, que, aliás, sempre foi ruim. Assim, me unia ao meu primo Fernando e corríamos os trilhos de metrô e trem à procura de shows de Alceu Valença e Zeca Baleiro ao custo de cinco reais, mais a condução, nos palcos do Sesc Itaquera e Interlagos.

Sim, São Paulo também me oferecia seus prazeres.

Quando saí da cidade, com 19 anos, descobri algo no interior que nunca tive a oportunidade de viver em São Paulo: caminhar a pé e de bicicleta, ou andar longos percursos de ônibus e de carro em pouco tempo. Percebi como a rotina gaseificada de São Paulo estava, no fundo, me fazendo mal. E, a cada vez que ia visitar meus pais, era como se aquela dor de parto voltasse com força total.

O rio Tietê era sempre o meu pêndulo de equilíbrio emocional. Fatidicamente, o acesso à São Paulo pelo interior seguia pela rodovia Bandeirantes (lembro de uma conversa com Dorinha em que refletíamos que estávamos fadados à colonização e extermínio. Se não chegamos em São Paulo com os bandeirantes, escolhemos por um pior, Anhanguera, que quer dizer “o grande diabo” para os Guaranis).

A chegada a São Paulo pela bandeirantes nos dá um alerta da doença da cidade: O rio Tietê. Completamente poluído e com um mau cheiro terrível que nos recebe. Um ser que agoniza, em meio ao concreto característico da ideia de desenvolvimento do país subdesenvolvido.

Quando olhava para aquele rio, pensava: como as pessoas podem acreditar nessa ideia de desenvolvimento, se na entrada da cidade existe um rio morto? Como é possível gostar deste lugar?

E muitas foram as minhas crises, amando cada vez mais o interior e suas possibilidades.

Assim que me formei, entretanto, vi que as possibilidades do interior não eram para mim. O que encontrava, infelizmente, eram apenas impossibilidades. O interior carrega no imaginário do paulistano aquele frenesi de uma vida boa, pacata, cheia de árvores, plantas, cachorro-gato-galinha. Um imaginário que passei a perceber que era apenas narrável para aqueles que poderiam construir isso, ou seja, tendo grana, muita grana, para realizar os seus sonhos. Assim, me vi no interior, com os piores empregos, e vivendo numa periferia que, diferente de São Paulo, não oferecia nenhum tipo de acesso à cultura e educação. E me lembrava de que no Centro Educacional Unificado, em frente à casa da minha mãe, na periferia do butantã, tinha uma biblioteca maravilhosa, era só eu atravessar a rua para ter acesso a tudo aquilo…

O tempo foi passando e as contradições sobre o imaginário do interior só aumentavam. Campinas, a cidade que morava, tinha dois cinemas alternativos, assim que cheguei. Em menos de cinco anos, os dois fecharam. O teatro municipal era uma verdadeira piada. Lembro-me de um ensaio da Orquestra Sinfônica da cidade em que um dos lustres tinha caído em um musicista, por falta de manutenção do local. Os amigos artistas, vendendo-se para comprar a marmita.

Durante esses anos, os contrastes em relação ao interior aumentavam, assim como a saudade daquela capital que poluía o meu presente com as memórias de tantas aventuras por trilhos, trânsitos e rotas diversas…

E eis que chega o momento da volta. A cidade que me pariu, a pátria mãe de minhas dores, dissabores e prazeres, agora me receberá, como a um filho pródigo que chora pelo seio frágil e o pouco leite materno que pode ser derramado em São Paulo.

Por Larissa Lisboa

Escritora do blog Diabólicas

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