Para Sampa: Depoimentos aos 462 anos de São Paulo

Untitled

“Alguma coisa acontece no meu coração”, a música atemporal de Caetano Veloso anuncia um sentimento especial à cidade de São Paulo, que nesta segunda-feira (25) comemora 462 anos.

Um dos mais importantes redutos culturais do país, a cidade paulistana é ambiente de diversas narrativas literárias. Palco da Semana de Arte Moderna, em 1922, dos versos de Mário e Oswald de Andrade. Dos traços de Tarsíla do Amaral. Das canções de Demônios da Garoa aos Novos Baianos. São Paulo é o espaço dos saraus, do Hip-Hop, da música nas calçadas largas da avenida Paulista à espera do Real no chapéu.

Sampa tem cinema de rua com as películas mundiais. Ainda descemos a Augusta à procura de diversão e, também, de empregos. Cuidado com as pilhas de livros dos sebos. Talvez consiga encontrar um exemplar raro de Murilo Rubião, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Glauco Mattoso, Alice Ruiz e a coleção Barsa. A Tietê dos passageiros. O bilhete de entrada. Tucuruvi ou Jabaguara? A Sampa dos botecos escondidos da Vila Madalena e Bixiga. Da Praça Roosevelt dos palcos de atores e skatistas. Do Cemitério de AutomóveisParlapatõesSatyros. Sampa tem muito a falar nos muros, na manifestação por direitos. A cidade que se equilibra na sarjeta do tempo. Inova. Atrasa. Apressa o passo. Olha o relógio. Bate o ponto. Mas tem descanso nas gramas do Ibirapuera.

A cidade dos rastros de sangue e fumaça. Ventiladores de helicópteros no teto e pernas fora dos cobertores na cama de papelão. Muitos sambam na nota desafinada de sampa. A poesia das margens e dos centros. São Paulo de mais de quatro séculos e meio. De Capão até Consolação.

Para homenagear São Paulo, o Livre Opinião – Ideias em Debate realizou um especial e convidou diversos nomes da cultura, como Andrea del Fuego, Caco Ishak, Ferréz, Roberta Estrela D’Alva, Aline Bei, Lucimar Mutarelli, Anna Zêpa, Carol Rodrigues, Vanderley Mendonça, Milton Hatoum, Nelson de Oliveira e Marina Filizola para um depoimento à cidade paulistana, para que todos possam curtir numa boa.

★★★

03439_ggNasci duas vezes, na Vila Mariana e em Carmo do Rio Claro (Minas Gerais). Na Maternidade Beneficência Portuguesa ficou a placenta e em Minas um fio ancestral que alcança os índios cataguases. Esse hibridismo, quase todo paulistano tem uma raiz fora da cidade com a qual se enlaça em pensamento, faz da cidade um destino continuamente eleito para realizamos qualquer potencial, há sempre alguém que compartilha do seu desejo, seja ele de que tamanho for. Isso, na criação, não podia ser melhor solo e mãe.

Andrea del Fuego, escritora e jornalista

 

 

 

 

 

Mj-gDbui

Minha janela dá pra Igreja da Consolação e os sinais de fumaça dos skatistas e parlapatões disputando a TAZ rooseveltiana com os canas e beiçolas. Dá pros helicópteros sobrevoando a Praça da República onde estudantes e black blocs são pisoteados por porcos do bico amarelo. Dá pros titutos do Copan, titutos da Baixa-Augusta, titutos do Mackenzie. Dá pros fantasmas do Antigo Hilton. Pro escuribreu de um túnel sem saída numa estação eternamente em obras. Minha janela já deu pros zumbis da Sé ou da Paim, mas isso não é coisa que um pai exponha assim em quinze linhas. Já deu pra moça que nunca olhava pra cima, o topete de chifres atrapalhando a vista. Já deu pra bleomicina a conta-gotas, e mijava o sangue de todos que aos poucos iam morrendo em mim. Pilhas e pilhas acadêmicas, farmacológicas, o marginal virou rapazinho ainda que trancafiado do outro lado da janela. Que hoje dá pro batuque de Hamelin hipnotizando a resistência tremembé Minhocão abaixo e rumo às muradas dos Campos Elíseos. Pro mesmo céu cinza de sempre e próprio da mistura de todos os credos – picolé (ou sorvete) de Tietê.

Caco Ishak, poeta, romancista e tradutor 

ferrezA relação dos meus textos são grudadas no tema da cidade, por retratar um lado que só é visto nas manchetes policiais, pode trazer esse povo que constrói, cuida e vende seu suor barato. Pra mim é a realização, agora não são eternos, só os faraós. A mão que levanta as pedras também está deixando o seu legado.

Ferréz, romancista, contista e poeta

 

 

 

 

 

SP/BRASIL

Nossa criação é a solução
A arte como espada pra vencer a opressão
Empunho palavras, e abracadabra!
A transformação, a evolução em um só refrão
Porque o que que nós queremos?
Ser livres!
Quando nós queremos?
Agora!
Sem demora, tá na hora, vâmo embora.vaitecatar
Guerreiros Jorges, Antônios, Marias e Franciscos
Preste atenção ao som que bomba nos toca-discos
Zona Sul, Zona Norte, Leste , Oeste
O manto da diversidade é o que nos veste
Prédios, vigias, torres de comando
Bairros, vilas, trupes, grupos, bandos
Ruas, avenidas, vielas computadores
Vitórias, derrotas, triunfos, fracassos , dores
Torcidas organizadas , trânsito desorganizado
Ágora onde se encontram Presente, Futuro e Passsado
Gente vinda de toda parte do Brasil e do mundão
Onde se prova do amor e da solidão
Cidade amada, idolatrada de problemas e diferenças mil
Estamos aqui em SP- Brasil!

Roberta Estrela D’Alva, atriz-MC, diretora, pesquisadora e slammer

 

10920959_818416181555006_1878927105944269675_nSão Paulo eu morei até os 7 anos, depois mudei de cidade, não por mim, foi pelos meus pais e também a escola. Eu pegava Marginal e Castelo Branco pra mudar de cidade. Deitada no colo da minha mãe pensando que era sono o que eu sentia, mas era saudade de sampa aquele peso no olho, um lugar que criança não brinca na rua porque os carros são muito rápidos e as pessoas tem muita pressa dentro dos carros. Já crescida, vim estudar teatro em sampa. depois literatura. depois amigos, namorados, depois os melhores cinemas de rua, as peças que eu queria muito ver, alguns livros que só tinham nos sebos sp, o café é a própria São Paulo se cidade fosse líquida, o coador no meio do bruto no meio da Augusta, muita gente veste óculos escuros, ou seja, voltei. e fico voltando, sempre, porque São Paulo é esse útero.

Aline Bei, escritora e editora do site cultural OitavaArte

 

 

10632578_10203873794338540_450837673169921781_n

São Paulo é meu berço, minha fonte
aqui eu como e bebo e ando e escrevo e vou ao cinema e tomo todo café que eu posso na companhia de música, um livro, um amor, um amigo
São Paulo é triste, é amargo, é chuva, é frio
São Paulo é minha casa
tem dias que o sol não bate de jeito nenhum e em outros a lua desvia dos prédios e invade o quintal
brinco com toda a família
de noite ou de dia
São Paulo é 24 horas
com ou sem companhia

Lucimar Mutarelli, professora, escritora e roteirista

 

12002164_10153466732596928_3718389584494629470_nSão Paulo é começo, é término, é começo. São Paulo é minha terra de um beijo só. São Paulo é o prazer da solidão coletiva. É o concreto que escolhi pra minha existência. São Paulo sou eu. Subjetiva. É onde minha saudade ganhou cor. São Paulo é ausência onde os rastros convivem. É horizonte de janelas. É o esconderijo da Lua. É destino de versos. São Paulo é o próprio verso. São Paulo é o tempo que passa. É o tempo que temos. É o tempo que temo. São Paulo é antologia. Poética. São Paulo é um amável desamor. São Paulo nunca termina.

Anna Zêpa, poeta e atriz

 

 

 

 

Carol-Rodrigues_Foto_Gabriela-Barreto

Escrever em são paulo pode ser entontecer de hipotireoidismo no metrô a cara caída no livro, comprar tempo, se tempo fosse coisa, aquele muro da mulher que tá cansada é o meu, inventar o tempo a luz solar pra escrever em são paulo, fugir de são paulo inventar tempos e cidades, fugir de são paulo inventar desertos e mulheres, escrever sobre são paulo me falece um pouquinho, prefiro mesmo fugir de são paulo, por isso escrever em são paulo.

Carol Rodrigues, escritora

 

 

 

 

 

13042580são paulo 25 de janeiro de 2016

oh, madrepedra,
teu horizonte não tem nome
não te chamam de cidade
mas de metrópole, megalópole
mas eu sei que o teu concreto
é a amizade.
viver se vive em qualquer cidade
em ti, madrepedra,
se encontra e se perde
há mais de 462 anos

Vanderley Mendonça, poeta, tradutor e editor dos Selos Demônio Negro e Edith

 

milton-hatoum

São Paulo é uma cidade importante na minha vida. Na década de 1970 estudei arquitetura na USP e nessa mesma época decidi que ia ser escritor. Há uma estranha beleza nessa feia fisionomia urbana. Há, sobretudo, uma incrível energia cultural no centro e na periferia da metrópole. Energia e tensão, pois às vezes a periferia ocupa o lugar do centro. Das grandes cidade latino-americanas, São Paulo é a mais mestiça e dinâmica. Pessoas de todo o Brasil e quase do mundo todo fazem parte dessa incrível mestiçagem, cujo centro é essa metrópole.

Milton Hatoum, escritor e professor

 

 

luiz-brazA conexão é puramente física. Há reentrâncias, desvios, sinais, viadutos duplicados: um fora, outro dentro, idêntico àquele. Moro em Sampa há trinta e cinco anos. Tempo suficiente pra reproduzir a cidade inteira em minha paisagem mental. Tempo suficiente, também, pra inventar muitos detalhes. A capital paulista que aparece em meus livros é um organismo inquieto. Ela tem praias, edifícios colossais e túneis para o inferno. Demônios do folclore brasuca assombram suas noites. Gosto demais dessa multiplicidade de seres. Na hora do rush, todos se atropelando, fica difícil dizer quem é androide e quem é humano, quem é ciborgue e quem é alien. São Paulo é uma metrópole atropelada pelo nonsense. Pelo humor mórbido. Nossa relação é construtiva, construtivista. Sampa me inventa dia após dia, enquanto eu a reinvento página após página.

Nelson de Oliveira, ficcionista, autor e coordenador de oficinas de criação literária

 

unnamed3

São Paulo é, sim. Um nó na garganta da gente. Um desastre. Um desacerto. É ânsia de chispar da cidade. É urgência de se embrenhar no caos. São Paulo é desembestado. Exagerado. Rouco. Rouba vírgulas. Pontos finais. Come parágrafos inteiros. São Paulo é um dialeto inenarrável. São Paulo não tem jeito. Se compõe. Se arquiteta. Se tece. Amarrota sem dó 23 estados num vagão só. São Paulo embaralha mesmo, a cabeça da gente. É desconfortável ser anarquista na inexorável São Paulo. Ô lugarzinho desacostumado pra se fazer amor. Chega a ser inabitável esse São Paulo que não conseguimos largar. São Paulo não dá, nunca deu. Mas sem São Paulo, meu irmão. Eu juro. Não tenho ideia como seria ser.

Marina Filizola, escritora

Um comentário sobre “Para Sampa: Depoimentos aos 462 anos de São Paulo

  1. Pingback: são paulo 462 | ciao cretini

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s