Dama do Lodo: Cartazes, por Marina Filizola

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Não vou voltar.
Dessa vez me encontraram. Sinto o cheiro de carne humana assada. A minha, no caso. Mal passada, detesto. Escalhafurdei com tudo. Se não era guerra agora virou. Joguei merda no ventilador, fiz o que devia ser feito.

Não consigo chorar.

Escrevo sem parar. Minhas mãos ardem. Daqui escuto a gritaria do povo. Meus cartazes enfim foram lidos com gosto. “Resto de arroto”. “Projetos de aborto”. Alguém precisava dizer o que devia ser dito. Sem medo de tomar um tiro. Que me processem, bando de putos!

Vou fugir de novo.

Uma última tentativa pra quem já se considera morto. Que se foda. Tenho uma paulada de cartaz pronto. Vou sair grudando no rabo deles. Agora o que eu não falo o povo grita. Meu vírus está espalhado. Quando eles chegarem já vou ter sumido. Vou tentar.

Não vou voltar.

Quero ser pego. Fugir daqui pra me esconder de novo? Não consigo. Esse mundo é cheio de cagões. É disso que falo o tempo todo. Vou tocar fogo na porra dos esconderijos. Meus cartazes também servem pra isso.

Tô pego.

Posso escutar. Me acharam. Me deu caganeira, aqui não tem banheiro. Vou me entregar. Preciso cagar. Cansei de limpar bunda com cartaz.

Amo.

marinafilizola

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