Livre Opinião: Cinco contos do escritor Diego Moraes

 

Diego Moraes (Foto: Arquivo pessoal do autor)

Diego Moraes (Foto: Arquivo pessoal do autor)

O escritor Diego Moraes escreveu cinco contos especiais para o Livre Opinião – Ideias em Debate. Diego é um escritor Manauara, idealizador e criador da Flipobre, primeiro encontro literário 100% virtual, realizado em 2014 e 2015. Autor dos livros: A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012) e A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013), publicados pela Bartlebee; Um bar fecha dentro da gente, pela editora portuguesa Douda Correria; e o recém-lançado Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘eu te amo’ no orelhão, pela Corsário-satã.

Confira abaixo os cinco contos:

Apollo Creed

Homem apaixonado é barril de pólvora. Explode. Tive um padastro negão quando era moleque. Da policia. Barra pesada. Linha de frente. Cara que ia pra trocação de tiros com a bandidagem nas décadas de 80/90. O chamavam de “Apollo Creed” na delegacia onde tirava plantão. Tratava minha mãe muito bem. Como rainha. Nunca tocou o dedo nela, mas pirava nos ciúmes. De chegar a bater cabeça na parede e chorar no meio da sala na frente de mim e da minha irmã. Não entendia muita coisa. Devia ter sete ou oito anos. Minha vida era ver desenho e chupar sorvete. A vida é tão simples quando a gente só se preocupa em ver desenhos e chupar sorvete. Acontece que certa vez o telefone tocou lá em casa e ele ficou puto. Botou uma camiseta havaiana e o revólver na cintura. “esse filho da puta não passa de hoje!”. Certeza que ele mataria alguém. Talvez um cara que tivesse na moita com a minha mãe. Dando em cima. Importunando. Ou só um vagabundo traficante ou assaltante de banco. Ele segurou minha mão com força e me colocou no banco de passageiro do carro velho dele e dirigiu até uma ladeira onde tava rolando uma banda de carnaval no bairro Educandos. Ficamos distante do frevo. Da muvuca. Acho que pra não dar manchete. A morte não faz alarde. A morte não gosta de enxame. “Não sai daqui! Se eu demorar muito você corre naquele bar e fala que mataram seu pai”. E apontou com o braço preto para um barzinho chamado “dois irmãos”. Esse bar existe até hoje. Ele não era meu pai. Não tinha consideração nenhuma por ele. Só o respeitava por ser maior do que eu, mas no fundo o achava bobalhão. “a gente só chora quando é criança” era o que eu dizia para amigos do colégio. Então, ele acendeu um cigarro e saiu com todos os demônios na caçada de um cara e eu fiquei no carro escutando um hit qualquer. Tava com vontade de fazer xixi, mas fiquei segurando. E ele demorou, demorou tanto que tive que abrir a porta do Passat e urinar na rua mesmo. Uma mulher gorda e bêbada, muito gorda e bêbada, com olheiras, bafo de cerveja e estrias no peito começou a me chupar. Meu pintinho não levantou. Meninos tem pinto. Homens tem pau. Ela chupou e depois virou o rabo grande cheio de purpurina na minha cara “morde meu rabo. Dá um beijo bem gostoso no meu rabão”. Eu mordi com tanta força que fiz xixi na calça e ela saiu pulando carnaval. Meu padastro voltou com o nariz sangrando espalhando lodo vermelho na camiseta. Então comecei a chorar. Meus lábios começaram a arder muito. Acho que a gorda tinha passado pimenta no rabo. Chorei, chorei e meu padastro disse pra eu não me preocupar, mas não tava chorando por ele. O tempo passou. Assassinaram meu padastro com 8 tiros num motel da zona sul e hoje, já crescido, sei que o amor arde nos lábios por um tempo e depois some da vida da gente feito miragem. Feito uma gorda pedófila e bêbada que só quer pular carnaval.

Eu não sou ninguém

Ela disse que estava sozinha. Eu disse que era sozinho no mundo. Ela pediu uma antártica e botou no meu copo. Ela disse que fazia teatro e tava de férias em Manaus. Eu disse que era ninguém. “como assim? ninguém?” aí enchi o copo dela e ordenei: “beba”. Ela abriu um sorriso grogue e segurou minha mão. Beijou meu rosto e disse “você tá perdido” eu confirmei o óbvio: “sim, não tenho onde descansar minha carcaça”. Ela acendeu um cigarro e começou a soltar bolinhas de fumaça até beliscar o teto. Aí uma hora ela suspirou e pegou três pinos de pó do bolso e jogou em cima do cardápio e cheirou de uma vez. O garçom me encarou com ar de desaprovação e eu disse: “vamos cheirar no banheiro” ela entrou comigo, baixou a calcinha vermelha e mijou no vaso. A zoada de urina mais linda que já escutei na vida. E voltou a sorrir perguntando: “você é ninguém mesmo?” e botei o pau pra fora e mijei também. No ralo. “seus olhos me dizem que você é alguém”. Então dei umas balançadinhas e guardei o instrumento. Ela levantou a calcinha e me beijou. Jogou cocaína na minha cara e começou a passar a língua no meu corpo como se fosse uma cachorra lambendo a cria. E disse que tava cansada. Eu também disse que estava esgotado. Que tava querendo entrar em outra onda. “estou cansado dessa vida”. Ela abriu a porta do banheiro e atravessou o bar até entrar num táxi. O garçom veio atrás de mim e eu disse que pagaria depois. Então ficamos no banco traseiro e o taxista começou a rodar. Dar voltas em círculos “vão pra onde? Não estou preocupado. O dinheiro é de vocês. Hoje é bandeira dois”. Aí ele ligou o rádio e começou a tocar aquela música triste do Hyldon. Ela foi ficando roxa e falei “já chega!” e joguei o resto da droga pela janela. O Taxista gargalhou. Ela descansou a cabeça nas minhas pernas e disse que iria fazer Shakespeare em São Paulo. Eu disse que sim. “Plínio Marcos também. Você curte Navalha na Carne?” ela não respondeu. O taxista parou num batente e disse “25 paus.” Peguei o que tinha no bolso e dei pra ele. Tirei a camisa e abraçamos-nos ali mesmo. No chão duro. No concreto da sarjeta e adormecemos com a luz das estrelas. Acordei com o barulho dos primeiros ônibus da manhã saindo da estação e “você não é ninguém” escrito com sangue no meu peito. Subi na linha do meu bairro e comecei a gargalhar alto. Gargalhei, gargalhei até chorar. A cobradora perguntou “tá tudo bem?” enxuguei as lágrimas soluçando e falei “eu não sou ninguém”.

Paris

– A gente se encontra às seis? – ela perguntou juntando o salto do tamanco quebrado na ladeira. Um caminhão desceu deixando uma mancha negra em nossos rostos e o temporal ensaiava mais uma tragédia. As arvores beijavam o asfalto e por um instante imaginei que Jennifer seria a mulher com quem teria filhos.
– Pode ser. – Respondi meio que desacreditado. Um soluço alcoólico tomava conta de mim.
– Leva o poema que escreveu pra mim – Ela esboçou um sorriso tímido Um sorriso de Sara fazendo amor com Abrão pela primeira vez no deserto.
– Levo sim. – Respondi. O peito batucando feito recuo da Portela na Marques de Sapucaí.
– Achei tão bonito a analogia das flores mortas com meu semblante de manhã de Paris. Você já esteve em Paris?
– Nunca, mas com a imaginação podemos morar em qualquer lugar. Inclusive em Paris.
– Seu bobo.
A chuva começou a cair e não fizemos nada para correr ou nos abrigar embaixo de uma lona que servia de proteção contra o sol para crentes confessarem a fé em cristo nos cultos de domingo. Abracei seu corpo miúdo e desnutrido e a beijei com força até sairmos rebolando ladeira abaixo e paramos num terreno baldio da favela. Arranquei sua calcinha e fodemos animalescamente até os vizinhos gritarem “que pouca vergonha! Tem crianças aqui!” e ameaçaram arrebentar nossas cabeças com pauladas e pedradas.

2 reais

Anteontem eu vi a mulher de um amigo com outro cara lá no centro. Morei na casa do cara uma temporada quando me meti numa treta e uns caras queriam me apagar. Amigão mesmo. De dividir comida e cigarro. Até aí tudo firmeza. Cada um com sua vida. Não sou vigilante de boceta ou piroca de ninguém. Fiquei na minha. É chato e tal, mas não sou louco de ligar pro cara e falar “pô, vi tua mulher com um negão saindo do motel opção”. Aí desci a dez de julho e dobrei à esquerda e sentei numa cadeira do bar 5 estrelas. Aí ela apareceu com o negão e começaram a beber numa mesa de frente com a minha. Babaram-se pra caralho. Chega dava pra ver o grude de cuspe saindo pelos cantos da boca. Cheiraram-se, morderam-se, chuparam-se e o caralho pra geral ver. Aí ela começou a pegar no pau do cara e olhar pra mim. A piscar também. Nunca tive tesão nela. Mulher magra não é meu forte. Gosto de gorda. Gosto de mulher que me esquente e ocupe o espaço da cama inteira. Gosto de bunda que amorteça minha jeba. Não tava curtindo a situação de ver os dois ali se pegando em preliminares de canal sexy hot. Aí uma hora ela me enquadrou quando saí do banheiro e disse “não fala nada pra ele, por favor, Urso. Vou te dar um presentinho pra você não abrir a boca”. juro que pensei que ela fosse abrir minha braguilha e me chupar na porta do banheiro, mas meteu a mão na bolsa e me deu dois reais. Fiquei atônito com a situação. Embasbacado. Sem palavras. Aí bebi o resto de cerveja da garrafa e liguei pro meu brother: “mano, tua mulher tá com um negão se babando toda aqui no bar 5 estrelas. Nem ia te falar, mas sabe o que me deixou mais puto? Ela tentou comprar meu silêncio com dois reais”.

David Bowie

Moro no bairro Cidade Nova. No Conjunto Nova Cidade. Lugar onde concentra o maior número de funcionários públicos da cidade. Professores da rede pública, agentes de saúde e policiais. Federais, Militares e coroas da Policia Civil. Ladrão e traficante não se cria no meu bairro. Tem vida curta. Gosto do meu bairro. Também gosto de padarias. Gosto mais de pão com manteiga que lagosta ou picanha na chapa. Se um dia que deus me livre for condenado à morte e pedirem para escolher uma última refeição, Tenho certeza absoluta que pediria pão com manteiga e ki-suco de groselha. Era a coisa que mais curtia comer na infância. Curto até hoje. Não posso sentir cheiro de pão saindo do forno que fico louco. Hoje levantei cedo para comprar umas besteiras para botar na mochila e viajar para São Paulo. Aí entrei numa padaria do bairro e vi alguns jovens bêbados comendo pão com mortadela numa mesa. Visivelmente drogados e amanhecidos. Aí fui botando minhas compras numa cesta e escutando as paradas que eles estavam dizendo “Cê gosta dele? David Bowie é uma bosta, cara. Wanderley Andrade é mais rock mil vezes”. Um dos guris gargalhava alto e outro não parava de enfiar empadas e salgadinhos na goela “Prefiro apanhar na cara da minha mãe que escutar David Bowie”. Aí as tirações de onda foram ficando pesadas “Dizem que David Bowie é o camaleão do rock, mas pra mim não passa de uma Ana Maria Braga da Inglaterra”. Fui ficando incomodado. Puto. Não sou fã obcecado por Bowie. Gosto de algumas músicas. Sou mais chegado num Iggy Pop e Lou Reed. Amigos de Bowie. Aí o loirinho da turma usando uma camiseta dos Ramones deu uma golada numa caixa de suco e cuspiu no chão. Saquei que a dona da padaria e as funcionárias estavam acuadas, intimidadas com a baderna dos pentelhos e tive a brilhante ideia de botar um pão baguete por dentro da camisa e colar na mesa dos caras com a mão na cintura como se eu fosse um tira de série americana: “É o seguinte: vou dar 10 segundos pra vocês vazarem daqui. Não quero ouvir um pio. Já encheram o saco pra caralho!” aí os moleques saíram correndo do recinto e uma das funcionárias veio me agradecer: “Muito obrigado! Muito obrigado mesmo! Você aceita algum doce de cortesia?” “Aceito. Gosto de torta de Maracujá” aí ela tocou no meu ombro e perguntou: “qual é seu nome, senhor?” aí falei sem tremer nas bases: “David… David Bowie”.

★★★

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