AUTORES LIVRES: ‘Bendito é o fruto do vosso ventre’, por Edmar Neves

– Mãe, mãe, o seu Paulo, do mercadinho, me mando pra puta que o pariu e falou que não vende mais fiado pra gente. – Carolina teve que respirar fundo pra engolir o choro, deixando a calça jeans que estava enxaguando no tanque.

– Pode deixar filha que depois que eu termina de lava a roupa eu vou lá e converso com ele, viu? – “Aquele gordo lazarento, pensa que eu não sei que ele anota as coisas mais caras naquele caderninho nojento lá dele! Onde já se viu alguém falar isso pra uma menina de seis anos?!” – Agora vai lá e olha se o Gabriel já acordou pra mim, filha? – A menina some pela porta. Aquela sim era companheira, sempre prestativa, sempre ajudando nas coisas da casa, na cria do menino mais novo, um mimo. Diferente do mais velho, aquela desgraça só tinha nove anos e já táva dando trabalho na escola. O filho da puta com certeza tinha puxado pro pai, aquele traste. Só de olhar pra cara do moleque já lembrava do ex. Graças a Deus se livrou dele. Engravidou com quinze anos e foi morar na casa da sogra, só que o filho da puta bebia e cheirava o dia todo, de vez em quando fazia bico como servente de pedreiro, mas todo dia era o mesmo inferno. Chegava em casa e quebrava tudo, batendo em todo mundo. Parecia o demônio, dava até medo. Ao que parece ele entrou na pedra e acabou indo parar na rua depois de tanta cagada que fez. E a peste do moleque era igualzinho. Devia tá na rua agora soltando pipa ou jogando bola no campinho. Só fazia o que não prestava aquele, que nem o pai. E agora mais essa daquele gordo filho da puta não querendo mais anotar as coisas no mercadinho.

– Mãe o Gabriel tá dormindo ainda… – disse a menina aparecendo de repente na porta e fazendo a mãe pular.

– Êta filha da puta, que susto! Ó fica aqui em casa que a mãe tá lavando roupa e se o seu irmão acorda você cuida dele viu?

A menina voltou pra dentro com cara embirrada porque queria ir pra rua brincar. Carolina tirou as camisas do molho e botou pra bater no tanquinho velho que a mãe ganhou da patroa. Detestava lavar roupa, mas tinha ódio mesmo era de passar, por isso sempre dava esse serviço pra filha. O pior é que quando ia fazer faxina na casa das madamas, sempre tinha que passar roupa. Não era sempre que apareciam faxinas para fazer e, quando apareciam, ela deixava as crianças com sua irmã mais velha. Sua mãe trabalhava de empregada doméstica na casa de uns ricaços da cidade e por isso só voltava pra casa no final da tarde. Era ela que arranjava essas faxinas pra filha, com as amigas da patroa dela. Nesse dia Carolina não quis ir trabalhar porque na outra semana a madama largou ela trabalhando o dia todo sem comer e, ainda por cima, disse que só poderia pagar a faxina na semana seguinte. Foi o maior sufoco. Por isso ela se recusou a voltar pra casa daquela filha da puta. Na verdade o sonho dela era trabalhar na loja de maquiagem super chique lá no centro da cidade, onde só as madamas compravam. As moças que trabalhavam lá pareciam princesas com maquiagem, salto alto e um vestido rosa colado que faz parte do uniforme do serviço. O problema é que ela nunca iria conseguir trabalhar num lugar desses porque não tinha estudo. Teve que largar a escola quando engravidou do primeiro filho e foi morar com aquela desgraça daquele homem. Além do cabelo ruim e da pele preta atrapalhar também. Pra trabalhar num lugar desses tem que ter boa aparência. No máximo conseguiria fazer faxina lá, depois do expediente.

O foda é que as faxinas estavam meio minguadas, coisa de fim de ano. As madamas iam todas viajar. Por isso o dinheiro andava bem curto. Carolina queria comprar uma rasteirinha linda que tinha visto na loja na semana anterior, a menina ficava pedindo uma boneca que tinha visto na TV e o menino maior táva precisando de um tênis novo e queria uma bicicleta. Ela também queria dar um conjunto de roupa pro mais novo. Mas não tinha dinheiro nem pra pagar a conta pendurada no seu Paulo. Por isso ele não queria vender mais pra ela. E não tinha nada pra fazer pro almoço. “Quer saber, vou lá agora naquela porra daquele mercadinho de merda, resolver essa história com aquele gordo lazarento. Faço ele vender as coisas pra mim, ou não me chamo Carolina Maria.” Botou as calcinhas e as meias de molho, pra bater no tanquinho quando voltasse.

– Filha a mãe vai lá falar com o seu Paulo e já vem, cuida das coisas aqui, viu? – Gritou, ouvindo um ‘tá’ como resposta. Saiu pelo portão e ganhou a rua, a tempo de poder rir do menino que tinha caído de bicicleta na esquina. Quando chegou perto viu que era o filho da crente que morava de frente do campinho, que todo mundo sabia que era uma tremenda de uma biscate. Dobrou a esquina. Subiu duas quadras e atravessou pelo campinho. A peste do menino mais velho não táva por lá. Continuou. Na esquina antes do mercadinho viu que tinha uma muvuca de gente, acidente com certeza. Todo mundo adora ver uma desgraça de vez em quando. Seu estômago gelou quando percebeu que dois amiguinhos do seu filho estavam no meio da muvuca com cara de medo. Um deles, quando a viu, saiu correndo e gritando:

– Dona Carol, dona Carol, o Johnatan dona Carol… – Carolina tentou correr, mas a perna não aguentou. Alguém acudiu. Depois ficou sabendo que o menino táva correndo atrás de pipa, atravessou a rua sem olhar, o carro veio… Mas naquele momento tudo parecia meio lento, a vista escurecia. Ouviu uma voz de homem perto dela:

– É, ninguém se salva nessa porra… – A vista escureceu de vez. Apagou.

Edmar Neves

Nasceu em Mogi Guaçu e tem 24 anos, estuda Licenciatura em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Tem interesse em Educação Popular e no que se convencionou a ser chamado de literatura marginal, talvez um dia termine um projeto de um livro de contos, se a preguiça permitir. Gosta de cerveja e de conversas sobre a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

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