Coluna 52: Meu pai francês, por Lucimar Mutarelli

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quando eu aprecio uma obra de arte que não me faz me lembrar de mim é porque eu lembro do outro e quando eu não gosto de uma coisa quer dizer que não me reconheço naquilo. Caetano gritando aqui, no meu sofá, “narciso acha feio o que não é espelho”

fui ver o filme novo da Marina Person e a primeira coisa que gritei pra ela foi: muito obrigada, você fez esse filme pra mim
ela riu e gritou de volta: não, eu fiz esse filme pra mim!!!!!!!!!!!!!!

(rio sozinha imaginando a cena interpretada pela Manu e Niltinho, no final do Natimorto, com a direção do meu amigo mais chique Mario Bortolotto)

continuei o sorriso e confirmei: por isso que ele é tão bom. É verdadeiro. É autoral de verdade. Mesmo que não seja biográfico. Mesmo que seja tudo mentira. E falando em mentira, desde que começaram a falar sobre o livro O Irmão Alemão do Chico eu conversei com o Hermes e o Marcelino. Também tenho uma irmã alemã perdida, uma estrangeira na família. Acho que todo mundo tem uma irmã alemã. Ontem descobri que até um grande amigo e parceiro reencontrou a sua. Preciso achar a minha irmã alemã porque preciso saber a cara que ela tem

Eu deixaria de ser a caçula do meu pai e isso explicaria muita coisa. Principalmente em relação a minha verdadeira origem. Estou desconfiada que, na verdade verdadeira, eu sou a filha francesa perdida do Chico Buarque – carinha rosa sorrindo e piscando o olho esquerdo do peito

Já falei aqui que foi meu pai o primeiro a me chamar a atenção para a história de uma música e o seu Chico Buarque foi o primeiro poeta que eu amei de verdade. Eu colava fotos dele na parede do meu quarto (hoje quem decora o meu mural de afeto, é a família que me criou com açúcar, meu marido, meu filho e outro filho de coração mas essa é outra história) mas não é o amor que você está pensando, porque colava fotos da Marieta também. Se o Chico é meu verdadeiro pai, será que a Marieta é a minha mãe? Isso explicaria meu fascínio por teatro desde a primeira série quando escrevia esquetes de humor para homenagear o Dia dos Professores, das Crianças, Páscoa, Natal, tudo virava representação. Até com a minha mãe de criação eu fazia teatrinho, quando ela queria me bater, eu fingia pequenos desmaios. Viu, Mãe Marieta (nome variante de Maria, curiosamente o mesmo nome da minha mãe de criação) como eu sofri com a sua ausência??? Esse texto é para o Chico mas não poderia deixar de mencionar seu trabalho como Carolina, em A Dona da História. Ainda não tive a oportunidade de lhe ver no teatro, em pessoa, mas será em breve, eu suponho, pelas notícias que espio no Google

Quando o Chico lançou Estorvo, eu comprei 3 exemplares porque alguém fez a graça de imprimir numa sobrecapa de acetato 3 cores diferentes: laranja, pink e verde limão (a imagem se formou na minha cabeça mas confirmei com Mr. Google). Eu li e não sei agora neste momento se gostei ou não, quando meu marido acordar (imagina a cara dele quando eu contar que ele é genro do Chico, vai dizer que estou surtando de novo e vai para a cozinha fazer café e cuidar das gatas) eu pergunto pra ele porque a gente já namorava na época. Não tenho mais nenhum exemplar, ou seja, eu passei pra frente 3 exemplares do Estorvo, com cores diferentes (a Adriane Raquel deve lembrar) e agora me arrependi, quem ganhou por favor devolve que eu quero rever meus grifos… rs

Falando em Grifo, lembrei que preciso comprar um exemplar deste livro para o meu amado amigo secreto Mauro Tule Cornelli porque tem uma questão do duplo que eu não entendi direito e só você poderá me salvar – coração azul embrulhado com fita rosa

outra coisa que eu não entendi foram as referências históricas, Sandra Martins, preciso de uma aula urgente, especialmente sobre as diferenças e semelhanças entre ditadura e comunismo, por favor. Pago com um café, um almoço e dois abraços

comprei Chapeuzinho Amarelo (perguntar para as Dris, a sobrinha e a do teatro, porque eu tinha essa fascinação com coisas amarelas) só por causa da capa e depois lia para o meu filho. Outro dia reli para meus sobrinhos netos e tive aquele dejavu de já ter vivido a mesma cena antes
até Paris, eu aprendi a amar com o Chico. Eu sempre achei que era por causa da Revolução Francesa, do final do século 19, das aulas de História da Arte, acabei de descobrir. Foi antes disso

Nasci em 1969, o Chico estava na Itália, exilado por ele mesmo, e o Chico perdeu o dia do meu nascimento mas foi por uma boa causa, meu pai original precisava de liberdade para continuar produzindo e cantando todas as obras primas que ele fez para salvar nosso cotidiano daqueles dias terríveis

Depois ele me abandonou em Lausanne “quando eu estava bem morta de frio” (o Paulista, não na França na divisa com a Suíça). Meu pai me deportou mas juro que não tenho rancor porque amo muito Maria e Simpliciano, meus pais que me criaram. Dizem que pai é quem cria mas não podemos esquecer as raízes do DNA, memória genética, já ouvi meu marido falar sobre isso

as letras do Chico me direcionaram para votar a esquerda, eh claro que depois que todos perdemos o rumo, passei a votar nulo mas não posso falar isso porque as pessoas gritam no facebook que o Brasil está assim porque eu votei nulo nas últimas eleições. Viram como meu voto é importante. Mas eu ia votar em quem? No menos pior? Pra mim não tem menos pior. Não no momento. A não ser que o Jean, do Big Brother se candidatasse a Presidente, aí eu votava nele ou no Tiririca

por falar em grito, foi na França também que o ser humano encostou pela primeira vez a mão suja de lama na parede da sua caverna e ficou abalado porque percebeu que poderia deixar sua marca pelos lugares por onde passava. As mãos em negativo vieram depois. O vazio, o contorno. Primeiro ele sozinho, com ele mesmo. E hoje, seguimos fazendo isso no face. Deixamos nossas marcas, nossas impressões sobre tudo e as pegadas, pistas dos lugares que passamos. Quem grita no Facebook deve gritar na vida de verdade também. Quem conta mentiras no face deve contar na vida real também. Mas no face também tem gente de verdade, tem gente que se expõe, que mostra a vida inteira e eu fico só observando, anotando e colocando no meu livro e depois a pessoa vem e me diz: muito obrigada, Marguerite, você escreveu um livro pra mim. E a velha dura e antipática com aquela cara brava de alemã, responde agressivamente: pra você, não. Eu escrevi essa porra pra mim!!!

Respondo com minhas mãos levemente pousadas sobre o colo e um lacinho rosa com duas menininhas dançando de mãos dadas. Eu e Marguerite. Marguerite e eu. Ela é meu duplo. Mais um motivo para aprender Francês

meu caminho voltou a cruzar com o caminho do Chico

voltei a ter quinze anos com o filme Califórnia, com o grupo do whatsap e face dos amigos do Dom Pedro, o álbum de figurinhas que antes a gente trocava por brindes na vendinha, hoje a gente faz troca-troca virtual, só que eu imprimo e colo nos meus cadernos, nosso mural do face tem bilhetinhos de amor, fotos e figurinhas de animais fofinhos, trechos de livros e músicas preferidos, nossa postura política, piadas, pedidos de ajuda, gritos desesperados quando estamos nos sentindo absolutamente sozinhos procurando alguém para teclar

outro dia estava seguindo uma amiga e percebi que ela tinha pouquíssimas curtidas, um belo dia ela trocou a foto do perfil e deu tipo mais de 30. Acreditem ou não mas isso melhorou a auto estima dela, ela passou a ler mais, voltou a ir ao cinema sozinha, resgatou as músicas que ouvia com o pai, cenas carinhosas e alegres com a mãe, com os irmãos, os amigos, a escola, o bairro da infância, reencontrou amigos antigos que sabem quem ela é de verdade, foi na festa dos amigos professores, não perdeu contato com seus amigos livreiros, achou uma amiga na Livraria Saraiva, postou o cartão do pessoal do Bradesco, fez novos amigos, até em Portugal ela foi parar com suas figurinhas, a menina cresceu, abandonou as agendas e canetinhas (meu pai de novo) coloridas que desenhava com a Adriane, não anda mais pela correnteza que as sarjetas escoam e nem compra mais brinquedos. Suas calças jeans não tem botões infantis costurados e ainda bem que ela não usa mais aquele colar da Laranjinha escrito Friends. Meu deus, quem aguenta essa menina, olha, sandália com meia. Tadinha, como ela é brega, meu deus – duas carinhas amarelas chorando e fungando o nariz vermelho escorrendo

foi o Chico que escreveu pra mim: “preparei para você uma Lua cheia e você não quis”

pois é, Seu Francisco, você escreveu esse livro pra mim, me espiando aqui no face, sabe tudo de mim pois agora vou responder, escrevendo esse texto pra você <3

muito, muito obrigada Chico querido, meu melhor amigo na adolescência. Vou tentar ir atrás do resto da história. Vou começar a juntar moedas porque só poderei descobrir essa história sórdida e mal inventada se for para Paris, e acho chato isso, ter que sair do Brasil justo agora nesse momento tão feliz da nossa história

eu detesto listas e quem elege os melhores do ano porque são opiniões pessoais e cada um deve guardar a sua opinião para si mesmo, não precisa sair por aí contando pra todo mundo mas, vou confessar, aqui, bem baixinho, só pra você, O Irmão Alemão é meu livro favorito do ano, ganhou esta cotação <3 <3 <3 <3 <3

quando quiser vir buscar seu prêmio, só combinar in box porque esse povo do face é muito bisbilhoteiro e fica querendo dar um monte de opinião onde não foram chamados. Aliás, ontem visitei a página do Senhor e queria elogiar o fato de não ter excluído os comentários ofensivos a seu respeito. É isso mesmo, não exclua porque eu quero saber, pra valer, quem são meus caros amigos

“Lourencinho manda um beijo para os seus”

lucimar mutarelli
23 de maio de 1987 – minha mãe me acordou no dia do meu aniversário de 18 anos e disse: eu tenho que te contar uma coisa

“ninguém vai chegar do mar
nem vai me levar daqui
nem vai calar minha viola que desconsola,
chora notas pra ninguém ouvir
minha voz ficou na espreita, na espera,
quisera abrir meu peito, cantar feliz
preparei para você uma Lua cheia
e você não veio, e você não quis
meu violão ficou tão triste, pudera,
quem dera abrir janelas, fazer serão
mas você me navegou mares tão diversos
e eu fiquei sem versos
e eu fiquei em vão”

Chico e Toquinho
1965 – 50 anos esta noite

lucimar-mutarellinovo

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