Santiago Santos: A embriaguez dos faróis

Arte por Jean Fhilippe

Arte por Jean Fhilippe

Cerpin andou pelo deserto até chegar na praia. Sentou numa elevação rochosa na orla e enquanto o céu escurecia encarou o horizonte aquoso. Toda vez que fechava os olhos ouvia vozes desconexas discutindo algo de maneira acirrada. Não entendia o que falavam. Caso se concentrasse elas silenciavam, percebiam alguém à espreita tentando desvendar suas maquinações.

Não seria boa ideia passar mais tempo ali, naquele lugar aberto e indefensável, então Cerpin começou a andar. Logo o encontrariam. Tinha apenas uma pista de quem ou o quê o perseguia. “Tremula Metacarpi”. Não que as palavras significassem algo. Um vislumbre no pesadelo da noite anterior.

Um desenho disforme na areia logo se materializou numa pilha de restos naufragados de embarcações. O céu continuava escurecendo, esquecido de que a manhã era o reino do sol. Cerpin separou as peças entranhadas uma da outra, madeiras, vigas, placas enferrujadas, uma vela esburacada, remos manchados de sal. Demorou pra ficar contente com o rearranjo. Quando empurrou a embarcação remendada na água e pulou dentro, estendendo a vela que soprava lamuriosa pelo rasgo como o apito entrecortado de um navio, notou algo serpenteando sob a areia do deserto, vindo na sua direção. A coisa alcançou o resto das embarcações que Cerpin dispensara e viu elas serem engolidas. Por pouco não estava ali. Amarrou tiras de um tecido carcomido no corpo e fez nós nas quinas enferrujadas para mantê-lo firme.

Horas mais tarde, quando o céu voltou a se abrir, cansado de chacoalhar, ele identificou um risco vertical à distância, um dedo, que piscava no ápice de hora em hora. Um farol. O barquinho seguia o vento, programado. O farol se multiplicou, e entre eles Cerpin viu carapaças metálicas estendidas pela superfície, boiando como cadáveres inflados. Submarinos, dezenas deles, alguns com feridas de explosão visíveis, as cascas arreganhadas em círculos, lançando dedos negros para dentro como um círculo de bruxas erguendo as mãos durante um ritual de invocação. O barco de Cerpin bateu contra o primeiro sub e se despedaçou. Ele pulou na carapaça e viu com tristeza o sepultamento dos pedaços que o haviam trazido ali. Tentou divisar algo além do campo de submarinos, e mais adiante viu uma asa. Ao lado, um mastro quebrado. Um cemitério de embarcações? Não fazia sentido. Por que não afundavam, ali onde o oceano era tão profundo? Os faróis rodavam e rodavam suas luzes ritmadas contra o brilho do dia. Olhando pra cima, notou a mancha escura no céu, que parecia tê-lo seguido mar adentro.

As vozes se tornaram audíveis mesmo com os olhos abertos. Soavam mais aguerridas, como se perto de alcançar o objetivo, gritando precauções e estímulos. Cerpin correu sobre as carapaças metálicas, costurando um caminho pela água. Escorregou algumas vezes, caiu no mar gelado e escalou de volta. A sombra e as vozes o perseguiam. Viu uma abertura num dos submarinos. Entrou, receoso de olhar pra trás. Sentiu algo pinicar a pele. Gotas pretas caíam do céu carregado. Apertou os botões do controle na parede e uma placa se elevou e deu passagem a uma escuridão que parecia muito mais segura que o lado de fora. Bateu nos controles correspondentes e a porta se fechou, isolando-o. As vozes cessaram.

Sentou no chão, cansado. Alguém viria. Alguém tinha que vir. Por ele, ficaria sentado até o mundo enrugar e as coisas se acabarem. Mas estava ali por um motivo, que ele mesmo desconhecia. Alguém viria. Apertou os dedos, esperando.

santiago santos
Drop originalmente publicado no Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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