Coluna 56: Célula, por Lucimar Mutarelli

4c2234e0-b911-4c9b-96bb-6093e6e40692Eu não lembro de ter visto nenhum livro nas mãos do meu pai
Ele comprava muitos pra gente fazer trabalhos da escola mas, depois de usar, tinha que colocar direitinho no lugar, ele achava bonito ver uma estante cheia de livros
Eu desenhava e rabiscava nos meus livros (hoje eu grifo) bonecas com vestidos que eu copiava da Revista Manequim (na cama da minha mãe) enquanto ela costurava e resultados de buraco, o segundo jogo que meu pai me ensinou
Quando ele entrava no seu quarto para ouvir música, eu ficava rodeando, tentando puxar assunto
Ele me dizia para ficar quieta e prestar atenção nas letras das músicas, nas histórias que elas contavam
Hoje eu entendi
Não é que ele não gostava das músicas que eu ouvia; ele não gostava era das histórias que elas contavam
E ontem, meu cunhado e padrinho Dirceu, lembrou de uma música que eu tinha esquecido: O ipê e o prisioneiro
Tem rio e tem planta. Ouvi. Desaguei outro rio ouvindo junto com a Marina
Ouvir esta música foi um presente e é exatamente isso que eu vou dar para toda a minha família e meus amigos neste Natal: esta figurinha
E mesmo que você não goste da música, lembre-se: é a história que vale
Bom natal para todos e lembrem-se que não é o presente que importa e se você não sabe, essa eu não tenho como ensinar, cada um tem que descobrir qual é a sua prioridade e isso depende do momento da vida em que você está
Aos 20 anos, tudo que eu queria era sair da casa dos meus pais
Hoje, aos 46, tudo que eu quero e preciso é voltar para a minha casa
Se você não foi um bom menino ou boa menina, não se preocupe porque o Papai Noel é tipo o papai e a mamãe da gente, ele vê todas as nossas cagadas mas ele esquece porque tá muito velhinho e vai te trazer presente do mesmo jeito
 
O ipê e o prisioneiro (1977)
 
(José Fortuna e Paraíso)
 
Na voz de Lourenço & Lourival
 
Quando há muitos anos
 
Fui aprisionado nesta cela fria
 
Do segundo andar da penitenciária
 
Lá na rua eu via
 
Quando um jardineiro plantava um ipê
 
E ao correr dos dias
 
Ele foi crescendo e ganhando vida
 
Enquanto eu sofria
 
Meu ipê florido
 
Junto à minha cela
 
Hoje tem a altura
 
De minha janela
 
Só uma diferença há entre nós agora
 
Aqui dentro as noites
 
Não tem mais aurora
 
Quanta claridade tem você lá fora
 
Vejo em seu tronco
 
Cipó parasita te abraçando forte
 
Enquanto te abraça, suga a tua seiva
 
Te levando a morte
 
Assim foi comigo
 
Ela me abraçava, depois me traía
 
Por isso a matei
 
E agora só tenho sua companhia
 
De dentro da minha casa, eu encaro o ipê sozinho lá fora
Sinto como se fossemos companheiros
Uma árvore é símbolo de vida, família, continuidade, casa
Vejo e ouço a expressão “de volta pra casa”
Lembro da Elba cantando “de volta pro meu aconchego”
Lulu Santos “estou voltando pra casa”
E Legião Urbana “estamos indo de volta pra casa”
Converso com meu terapeuta e digo que o sentido também pode ser uma cela, um túmulo
Pacientemente, ele me explica que a casa também é o meu corpo, meu conjunto de células
Sento e converso com Lourenço sobre todos meus temores
Eu sou o prisioneiro. Eu estou observando o ipê florir
Amavelmente, Lou me abraça e diz que é uma fase que vai passar
Fico ansiosa pela passagem do tempo mas não quero que passe tão rápido assim
Do dia 13 ao dia 17 de janeiro eu vivi um surto psicótico. Ainda não cheguei na página do meu diário que conta essa história mas foi isso que me levou a terapia
Pedro, meu pedreiro, me ajuda na reconstrução do meu lar pessoal
– Você viveu uma fragmentação. Agora precisa começar a reconstrução
Conto com minha família e com meus amigos próximos para seguir em frente, colando os pedacinhos e produzindo novas experiências que deem vida a nova Lucimar
Imagens que o meu marido ajuda a construir na minha mente paralisada por risperidona, o medicamento que me paralisou, que me abateu e me deixa insípida, insonsa, quase líquida, sentindo que posso desmanchar a qualquer instante. O remédio me impede de sentir emoções muito fortes
Recorro ao play do youtube para ouvir de novo a música e, desta vez, não me desmancho em rio
Ela me acalma porque ela traz a minha infância de volta aqui ao meu lado. A casa dos meus pais, a fortaleza dos meus irmãos e sobrinhos, a casa que construí com meu marido e meu filho e meus amigos que estão esperando, pacientemente, que eu volte para o convívio
– Você vai voltar melhor
É isso que ouço do meu Lourencinho, palavras de apoio, afeto, amor imenso. É nelas que eu confio
Seguimos
Confiando no tempo da reconstrução, do amparo, da certeza que não caminho sozinho
Só quem sofreu um surto psicótico, e tem consciência disso, pode entender um pouco o que estou sentindo
“Estar em casa é estar bem consigo mesmo”
“Sinta-se em casa”
“A casa é sua”
“Quem casa quer casa”
“Em casa de maribondo não se mexe com vara curta”
“Casa de ferreiro, espeto de pau”
“Casa onde não entra sol, entra médico”
“Não se começa uma casa pelo telhado”
Ninho
“Casa do pai, escola do filho”
Ditados populares, clichês, lugares comuns. As palavras que me fazem companhia enquanto eu espero ter forças para dar o próximo passo
lucimar-mutarellinovo

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