CRÔNICAS SEM FILTRO: Forever 18, por Marina Filizola

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Na sala de espera da dermatologista Doutora Maria Rosa sei lá das quantas, pica das galáxias última-moda no quesito estética, a mulherada sedenta por recauchutagem epidérmica esperava ansiosa para ter a pele incinerada.
 
Chega uma fase da vida, em que as prioridades femininas mudam. Não se trata apenas
de vaidade.
 
Vaidade é uma coisa que tem limite.
Estética não.
Na estética, o limite é o bisturi.
É a geração do “forever 18”. Estamos na era do botox.
 
– Aqui é um paraíso, né não? Tirei o dia pra passar maçarico nas pelancas .
 
– Vai tudo ficando dependurado né? Minha pança daqui a pouco cobre a xereca, coisa horrorosa.
 
– Aqui vai tudo minha filha. De bigode á pêlo na bunda. Pêlo é uma desgraça né não?, nasce em cada lugar que pelo amor de deus.
 
– ô!
 
– E você, essa pele ma-ra-vi-lho-sa, tá fazendo o quê aqui? Não precisa não, tão nova…
 
– Nova não. Divorciada.
 
– Ah. Tá explicado. Botox nenhum supera um divorcio.
 
O sexo feminino, sempre tão insatisfeito exigente e escroto, não precisa mais conviver com os rastros de idade que o tempo, esse aterrorizante processo natural que transformou um espelho estúpido em arma branca, trouxe de saldo da nossa fatídica
permanência na terra. É uma regra básica da vida: na volta toda descida vira subida. A vida não é fácil pra ninguém, acostume-se logo com isso.
 
A mulherada tá repuxando tudo. Não quer saber.
 
Estica daqui preenche acolá, puxa de um lado amarra no outro, prende com cabo injeta retira, coloca outro no lugar. Sem medo de ser feliz.
 
A gente não quer saber se dói rasga incha empipoca arde queima pinica.
 
A gente quer tudo novo de novo. E ponto.
 
Num passado muito recente, mulheres eram doutrinadas a buscar a felicidade no casamento, época em que a receita intragável para o matrimonio dar certo era que o homem fosse surdo e a mulher, cega. Embarrigavam do primeiro trolha meia-boca que aparecesse na frente porque acreditavam fiéis naquela história da carochinha de constituir família para ser uma mulher completa, a mesma ladainha que nossas tataravós engoliram
em pró dessa receita desandada de “ser feliz” e o cacete á quatro. Para depois, amargar numa vida amarelada de dona de casa reprimida com os sonhos todos engasopados na garganta, se sujeitando á imposições tenebrosas de um macho de padaria qualquer para, no fim das contas, servir pelo resto dos dias um boçal estúpido cheio de pêlos na bunda barriga protuberante e sujeira no umbigo, que vai passar milênios sem chupar sua xoxota e ter três filhos pentelhos que, esses sim, vão sugar sua alma até o caroço.
 
Não mesmo.
 
As coisas mudaram por aqui.
 
Casamento é uma instituição falida. A igreja católica uma grande máfia. Padres, tarados pedófilos de batina e crucifixo pendurado no pescoço. E o amor, faça-me o favor, não é eterno: acaba mesmo.
 
Os valores foram corrompidos o mundo está deturpado e a mulherada, claro, está botando pra fuder com todo o direito.
Os tempos viraram do avesso e junto com ele, incineramos essa ditadura asfixiante e á mandamos, até que enfim, á putaqueopariu. Agarramos a tempo as rédeas de nossas
vidas e decidimos o quê quando e que horas queremos fazer seja lá o for. Acabou a palhaçada.
 
Hoje em dia existem poucas maneiras de ser feliz sem arrependimento nenhum: primeiro, é não casar. Juntar já tá de bom tamanho. Porque quando o bagulho enche o saco, e isso
vai acontecer mais cedo ou mais tarde, é “vaza daqui” sem burocracias incluídas.
 
Ninguém quer mais assinar nada jurando merda nenhuma. E em vez de termos filhos com 20 anos de idade, como nossas mães fizeram (e a maioria está separada, repare) esperamos chegar aos trinta e cacetada e até lá, vivemos tudo o que temos direito. E filhos, um e olhe lá. Ter mais que um é exclusividade dos quadrúpedes.
 
Depois de enfim nos divertirmos sem restrições e treparmos com todo mundo que a gente tem direito, é hora de viajar. Viajar é uma coisa que você compra e fica mais rico. Isso é ponto pacífico. A outra é se cuidar. Seja da forma que for. Estética é isso. Um dinheiro grosso que você investe em você. Dinheiro bem gasto. Ás vezes passa do ponto e a coisa fica esquisita, concordo. É preciso de tempo para aprender que botox e blush tem que ser usados na medida certa. Senão a gente acaba virando palhaça. Mas fazer o quê? Quem acha “eu te amo” a frase mais gostosa de ouvir no mundo, é porque nunca ouviu um
“como você remoçou!”. E assim funciona o cérebro feminino.
 
– Olha essa figura, putaqueopariu, tá tão esticada que nem pisca.
 
– Que idade será que essa figura tem, 23 ou 62?
 
– 62. Com teta de 23. Bunda de 18. Rosto de 30. Pescoço de 62 mesmo.
 
– … Sobrancelha grudada no cabelo, boca de boneca inflável, bunda de Barbie, essa tá dando medo…
 
Homem não entende desse assunto.
 
Pra eles, essa história toda de injeção na testa é dinheiro jogado fora. Mas, como eu sempre digo, homem entra na era do botox na lista de acessórios domésticos. Tipo um George-Foreman da vida. É bom ter em casa, mas se não estiver por lá, a gente não
morre de fome. E quando dizem “eu não acho que você precisa..” é pau na certa. “Não perguntei sua opinião” e assunto encerrado. As vezes vem grudado num “e vou usar seu cartão de credito” pra fechar o debate com chave de ouro.
 
Homens tem suas muitas vantagens no quesito beleza, por isso não entendem. São iguais garrafa de whisky: quanto mais velho, melhor. Mais encorpados mais saborosos, muito menos dor de cabeça. Ficam lindos de cabelos grisalhos, marcas de
expressão são um charme só e a bunda, essa não despenca nem a pauladas Mais mulher não. Mulher é igual fruta. Quanto mais velha, mais mancha na casca. E ninguém gosta de comer banana velha. Ou gosta? Agora, um Blue-Label cai bem em
qualquer estação.
 
Portanto, não encham nosso saco, por obséquio.
 
Afinal, no fim das contas as mulheres não estão nem aí para eles.
 
Você já reparou que nenhuma revista feminina tem homem na capa? Pois é.
 
O negocio da mulher, é a mulher mesmo, não tem essa.
 
Nós nos embonecamos umas pras outras. Existe um universo de comunicação codificada que pertence único e exclusimente á mulheres. Damos ênfase ao que já possuímos e o que Deus, o pop-star cósmico, esqueceu de nos conceder, nós criamos.
 
– Seus peitos são originais? Estão lindos!
 
– Ano passado me dei de presente. Eu mereço. Playground completamente reformado.
 
– Seu marido se deu bem hein…
 
– Quem dera querida, ele nem olha. Coloquei pra mim. E de brinde ganhei um amante de 23 anos.
 
– Investimento seguro, isso sim. Vale cada centavo, colega, c-a-d-a c-e-n-t-a-v-o.
 
Sim, somos absolutamente confusas. Muitos dias acordamos sem saber o que esta mais bagunçado: se nosso quarto, nosso cabelo ou nossa vida.
 
Só conseguiremos estar com paz de espirito quando o que quisermos for ao mesmo tempo o que podemos e devemos. Isso se chama ética.
 
Ética é nossa estética de dentro.
 
Por fora…por fora a gente dá um jeito. E é isso.
 
Porque atrás de uma grande mulher, existe ela mesma. Apenas ela mesma.
 
E uma fila interminável de putas invejosas.
 
Amém.
marinafilizola

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