Ontem e hoje, “A revolta da cachaça”, de Antonio Callado, dialoga com os palcos mundiais

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Em nova edição pela José Olympo, que tem como objetivo trazer de volta às livrarias, com novas capas e projetos gráficos, toda a obra de Antonio Callado, peça A revolta da cachaça, escrita em 1958, mas lançada apenas em 1983, é uma resposta do autor ao ver a sua peça anterior, Pedro Mico, que inaugurou o seu “teatro negro”, ser encenada por atores brancos com o rosto pintado – prática teatral conhecida como Blackface.

Muito conhecido no romance, com os clássicos Quarup (1967), Sempreviva (1981), A expedição Montaigne (1982), Callado dedicou-se boa parte da sua carreira na produção de peças, sempre desenvolvendo, assim como nos romances, a crítica social, urbana e étnica – inclusive nas questões da desigualdade à indígenas e aos negros. O teatro de Antonio Callado analisa um período intenso do país, a metade do século XX e, recorrendo a fatos históricos, desenvolve uma reflexão nas relações sociais e o embate, ainda recorrente, das condutas patriarcais.

Em A revolta da cachaça, Vito, um dramaturgo, e Dadinha, sua esposa, recebem em casa a visita inesperada do amigo Ambrósio, que há anos busca uma oportunidade de destaque no mundo do teatro. O visitante tenta convencer seu anfitrião a terminar uma peça que lhe prometera. Por ser negro, Ambrósio acredita que só assim conseguirá deixar para trás os papéis secundários e subir aos palcos como protagonista. O encontro dos três personagens, regado à cachaça, faz com que revivam mágoas antigas, o que traz à tona uma série de questões relacionadas ao racismo e às diferenças sociais. A obra foi dedicada ao ator Grande Otelo, que deveria ter interpretado Ambrósio, porém o projeto não seguiu adiante.

A revolta do título é o fato histórico ocorrido no país entre final de 1660 e começo de 1961, no Rio de Janeiro, motivada pelo aumento de impostos excessivamente cobrados aos fabricantes de aguardente, tendo como nomes mais conhecidos da revolta João de Angola e Jerônimo Barbalho. O fato foi a primeira faísca  de democracia na História do Brasil. A primeira manifestação contra os abusos tributários.

E como o texto de Callado é atual. Ainda existe a desigualdade no meio artístico para papéis importantes aos atores negros. Mais de sessenta anos depois de escrever A revolta da cachaça, presenciamos a revolta, necessária, dos atores em relação à falta de oportunidades. O Oscar de 2016 ficou na história pela ausência de diversidade. As categorias importantes da premiação, como atuação e direção, tiveram indicações predominantemente caucasianas. Esta situação fez com que artistas consagrados, destaque para o diretor e roteirista Spike Lee, começassem a companha de boicote à festa de premiação. Na ocasião, o mestre cerimônia do ano foi o ator e comediante Chris Rock, que em seu monólogo de abertura cutucou brilhantemente os associados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas: “O que quero dizer é que não se trata de boicotar as coisas. O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores negros tenham as mesmas oportunidades. E só. Não só de vez em quando. Leo [DiCaprio] consegue um grande papel todo ano. Todos vocês conseguem grandes papéis o tempo todo. E os negros?”.

O comentário de Chris Rock é semelhante a do personagem Ambrósio, da peça de Callado. O ator consagrado tenta de várias maneiras, até extremas, fazer com que seu amigo, Vito, escreva a peça A revolta da cachaça, onde finalmente poderá ter um papel importante na sua carreira: “- Tem dó, Vito. Vamos ensaiar direito o que a gente tem! Ideia melhor do que essa da escola de samba você não vai ter não. Se você continuar assim quem fica sem peça sou eu, porra. Acabo outra vez fazendo papel de criado, de ladrão, de bicheiro ou chofer”. Em outra fala, Ambrósio insiste: “- Peço, peço! Peço a peça! (se ajoelha) Me dá a peça, Vito! Não aguento mais ser copeiro, punguista e assaltante”. A oportunidade que Ambrósio pede é a de sair do estereótipo enraizado nas produções de teatro, televisão e cinema: “(…) – com essa história de raça, de preto, de preconceito ou do escambau. Os pretos que se danem, que se defendam, que tratem de se vestir bacana e ter tutu na carteira. Eu só quero representar, tá sabendo? E como a merda da cor atrapalha quero papel, quero repertório, quero peça que me dê fama e glória. Pronto! Isso aí”.

Um destaque feito por Callado é na expressão que meios da sociedade enxergam as condições dos negros. Em um comentário de Dadinha, esposa de Vito, para Ambrósio, observa-se  a posição racista da personagem, em que em sua visão o negro ainda deve andar como na época da escravidão: “- E o Ambrósio continua fino da elegância, Vito, olha só. Blazer azul-marinho, botões dourados. Sai debaixo!”. Em sua resposta, Ambrósio se defende: “- Eu procuro sempre andar meio almofadinha, como se dizia antigamente, Crioulo tem que andar com ar de quem é troço na vida, de quem tem grana no banco e erva viva no bolso. Se ele não se enfeita e de repente pinta uma cana – quem é o primeiro a entrar no camburão? Até o negro se explicar…”. A retórica de Ambrósio ressalta o preconceito deferido a ele durante os anos de sua vida, fazendo-o se vestir de modo a não ser abordado pela polícia, ou como a sociedade exige para não ser apontado como “marginal”. No ato final da peça, Ambrósio revela o motivo da pressa de ter a peça de Vito para encenar: “(…) Tentei fazer você compreender, ou reconhecer, o que você [Vito] sabe melhor do que todo mundo. Estou de saco cheio de fazer papel de marginal, o cara que fica na praia espiando barco, no meio-fio olhando automóvel, sempre na beira, na margem. Vim aqui cobrar a fama que você me deve. Vim pra morar, pra morrer. Mas no meio do rio ou da rua. Chega de margem”.

Esta colocação de Ambrósio fez rememorar o histórico discurso da atriz Viola Davis ao receber o Emmy de melhor atriz em 2015: “Deixe-me dizer uma coisa, a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”.

Em outro momento da peça, Ambrósio critica os personagens negros que são encenados por pessoas brancas com maquiagem, a prática Blackface, que foi o motivo de Callado escrever a peça. Ambrósio comenta para Vito que o teatro está sendo representado por falsos artistas encenando papéis estereotipados e aponta que Vito foi trazido para este ambiente da escrita sem oportunidade, acusando-o de estar inserido na categoria de autor que escreve para estes artistas, representantes da prática Blackface: “As outras peças você acabou todas. Não falhou nenhuma. Foram tantas, de tanto sucesso, que diziam até que tua máquina de escrever tinha virado máquina registradora. Mas era tudo peça pra ator brasileiro normal, quer dizer, representante dessa negrada disfarçada que está aí (faz um gesto largo, abrangente), gente fosca, cafuza, mulato-clara ou nem tão clara assim, gente chocolate de leite, gente marrom puxando pra bege, jabuticaba pra roxinho leve, gente luto aliviado, quer dizer, carapinha e beiçola mas o couro já desbotando, e o olho verde – assim tudo bem! Mas a peça de preto honesto, preto-preto, preto sem habilidade e hipocrisia, da carapinha à córnea amarela e à unha roxa, essa não tem, essa você não acabou nunca!”

O texto de Callado nos leva por diversas interpretações, desde o contexto em que foi escrito até a desigualdade social e a discriminação racial ainda latentes na sociedade. Mas fica como destaque nesta resenha a situação da falta de oportunidade no cenário artístico para os negros. A revolta da cachaça é um livro necessário e tem de ser sempre lembrado quando for expor a carreira de Antonio Callado. Encerro este texto com a fala de Ambrósio, que realça o tema abordado nestas linhas: “Eu penso na glória feito quem pensa numa vingança, sabe?”. A vingança está na democracia do palco. As oportunidade sendo para todos os artistas.

Mais informações sobre o autor

Antonio Callado

Antonio Callado

Jornalista, romancista, biógrafo e teatrólogo, Antonio Callado nasceu em Niterói, em 1917. Colaborou com grandes jornais de sua época, como O Correio da Manhã e O Globo, além de ter sido redator da BBC de Londres e ter trabalhado no serviço brasileiro de Radio-Diffusion Française, em Paris. Chefiou o projeto da enciclopédia Barsa, publicada em 1963. Além da atividade jornalística, sua atuação literária destaca: Quarup (1967), Bar Don Juan (1971), Reflexos do baile (1976) e Sempreviva (1981), romance vencedor do Prêmio Goethe. No teatro, reuniu quatro de suas peças no volume A Revolta da Cachaça, de 1983.

Em 1985, recebeu pelo conjunto de sua obra o Prêmio Brasília de Literatura. No mesmo ano, a Embaixada da França em Brasília lhe concedeu a Medalha das Artes e das Letras. Em 1989, recebeu o troféu Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores, por ter sido eleito “Intelectual do Ano”. Em 1994, foi eleito à cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras.

★★★

A revolta da cachaça

De Antonio Callado
Ficção – teatro
Páginas: 126 / Preço: R$ 29,90
Editora: José Olympio
(Grupo Editorial Record)

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