CRÔNICAS SEM FILTRO: “Lá vem o garçom”, por Marina Filizola

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Lá vem o garçom.

– Aceita um drink?
– Hoje não, brigada.
– Vinho?…
– Não. Tem água?
– Água não estamos servindo.

É foda ser dodói numa cidade de hábitos podres.

Eventos lançamento jantares reuniões, tudo regado à muito álcool. Sim, eu frequento. Embora isso contrarie as sugestões do quadro de “Evites” pendurado em letras garrafais na sala-sauna de Narcóticos (ou psicóticos) Anônimos, que eu segui com obediência-cega até completar meu primeiro ano apocalíptico de desintoxicação mental. Não sigo seitas, sigo sugestões, e elas realmente funcionam. Mas principalmente sigo meu instinto, e posso dizer seguramente que meu instinto está aqui, firme e forte, como nunca esteve antes. Tem muita coisa errada em todo lugar. Principalmente ali, naquelas salas de recuperação re-integração re-formulação cerebral. É a nova vida que nos vai sendo apresentada aos poucos. Eu faço questão absoluta de ser quem eu sou e não perco um segundo do meu tempo tentando ser como os outros são. Isso se chama integridade. O que posso dizer com segurança é que, ali, dentro daquelas salas, existem inúmeros maneiras e formas de se encontrar o equilíbrio e chegar ao único objetivo comum entre todos adictos: ficar limpo e viver de forma íntegra. Não existe uma receita universal. O que funciona na vida de uma pessoa pode não funcionar na minha. Pra concluir que eu optei por ter uma vida absolutamente normal com consciência bruta da minha condição. Grande parte dos meus amigos bebe fuma cheira-cocaína toma ácido injetam anabolizantes e esse é o mundão que tem aí fora. É dele que eu faço parte, é ele que me encanta. Eu não sou uma pessoa que acredita que devo viver escondida dentro de uma sala e só me socializar com dependentes-químicos porque na porra da vida foi isso que me sobrou. Nem fudendo. Eu vim pra esse mundo á serviço e a vida é muito curta pra eu me esconder atrás da minha doença. Pelo contrário. Ela me deu uma força absurda pra viver no meio do caos sem me atrapalhar. Não mais. É isso. É o tipo de coisa que aprendi: não é pros outros que devo agir certo. É pra mim mesma. Eu não dou “bom dia” esperando um bom dia de volta. Eu saio metralhando “bom dias” porque é isso que me faz meu dia melhor. Eu falo pra mim mesma.

Depois de um tempo dignamente enraizado de sofrimento profano profundo e verdadeiro, de celibato espiritual penitência auto-destrutiva reflexão interna e agonia pura, daquelas de silêncio ensurdecedor enquanto 429 vozes discutem entre si dentro da minha cabeça, no fim a verdade-verdadeira, papo-reto que eu não sou de embromar, a batalha toda é pra se reinserir na sociedade de novo sem dar vexame. No fim das contas eu só queria ser normal. Mas como normal eu não vou ser nunca que eu serei uma porra de uma adicta retardada pro resto da minha santa vida e, disso eu já tenho total entendimento e aceitação, eu só quero mesmo é ser feliz. Sem me sentir inadequada incômoda incongruente desajustada e imprópria em merda de nenhum lugar.
“Hoje não” eu adoro.

– Whisky?
– Hoje não.
– Vinho?
– Hoje não colega.
– Cerveja?
– Camarada “hoje não” é pra geral dos destilados, ok?, hoje não. Não fode.

E me cago de rir sozinha. Eu sou frita mas sou feliz. Eu adoro o que eu me tornei e todas as minhas limitações me provocam cóleras de alegria. Eu sei, é estranho. Mas sou assim. A vida é ducaralho quando a gente compreende e assimila nossa natureza.

É como se por alguns instantes eu me encaixasse dentro de alguma coisa. Resposta que qualquer um pode dar. “Hoje não” veste bem. Eu não sinto necessidade de me avacalhar a troco de nada. Eu só me avacalho quando precisa de verdade.

Parece que foi outro dia, a reunião do primeiro dia da escolinha do meu filho, todos os pais sentados naquelas cadeirinhas com cara de bunda-suja, prontos a se apresentar. Eu pensei: “Meu Deus se eu me apresentar aqui meu filho vai ser expulso da escola”.

“Boa tarde a todos eu sou fulana, uma adicta em recuperação e estou limpa. Sou escritora e escrevo basicamente de pinga e pó e sobre a desgraça que é a maternidade. Obrigada por me ouvirem de mente aberta.”

Tomei um crock no meio da testa do eu ex, então atual marido.
– Cala a boca deixa de ser retardada.
Foi só um pensamento que saiu alto e fiquei rindo meia hora sozinha sentada naquela cadeira estupida pensando que realmente eu não sei me comportar em porra de lugar nenhum. Comédia é uma tragédia as vezes.

– Whisky? Pró- Seco?
– Hoje não, obrigada.
– Não bebe?

Não dá pra ficar irritada, todo mundo bebe caralho! O povo estranha mesmo…

– Hoje não amigo, e se eu estou no caminho certo amanhã provavelmente não irei beber também. Mas amanhã é outro dia, né não?
– Ô.

E aquele sorriso besta.
A vida é mais simples do que parece.
Mas meia hora depois..

– Aceita algum drink?
– Colega, chega junto. Então.. Eu não bebo mesmo.
– Nada?
– Nada.
– Então não preciso mais servir sua mesa?
– A mesa bebe, quem não bebe sou só eu.
– Ah..
– Você tem um caminhão pipa de whisky aí dentro?
– Não…tem não moça, imagina só um caminhão pipa!
– Então, por isso…se chegar uma container dessa merda lá dentro me dá um toque, pode ser?

E saiu rindo pelos cotovelos.
Voltou com uma garrafa grande de água. E uma boa dose de respeito.
É diferença entre se colocar e viver escondido.
Prefiro a primeira opção. De preferência, sem gelo.

marinafilizola

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