Sobre Marias, Dilmas, Genis. Por Micheliny Verunschk

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Capa da edição desta semana da revista ISTOÉ

Diz algo sobre o Brasil que Dona Maria I, rainha de Portugal, seja conhecida em sua pátria como a “Piedosa” e que aqui, do outro lado do oceano, seja lembrada pela alcunha determinada pelo sofrimento que carregou nas duas últimas décadas de sua vida: Maria, a Louca. Há algo de risível, de absurdo e grotesco numa rainha louca é o que parece dizer o apelido, é o que parece gritar o epíteto que se arrasta pelos séculos. Não, não há descanso para a pobre Maria Francisca de Bragança, porque ela ousou ter poder e mais que isso, ousou ser vítima da fragilidade humana. Evoco Dona Maria I porque ela foi chamada ao centro das zombarias mais uma vez, para servir de persona para a Presidenta Dilma Roussef numa das peças mais abjetas do péssimo jornalismo que assola esse país dividido e polarizado.

A recente capa da revista semanal Istoé expõe sem qualquer retoque o tom misógino, machista e violento exibido pela grande mídia brasileira sob o pretexto de oposição ao governo Dilma Roussef. Na capa, a imagem de uma mulher fora de si, olhos injetados, boca num esgar violento representa uma personagem conhecida, a mulher louca, possessa, vítima e algoz em sua própria histeria. Ora, o rótulo da mulher descontrolada é, ao longo dos séculos, um dos principais argumentos para destituir as conquistas femininas, para desmerecer e desqualificar seus triunfos. Para silenciar. Sob essa alegação, ao longo da história, mulheres foram enviadas a conventos, foram internadas compulsoriamente, foram amputadas em seus desejos, exigências e demandas. Existe mesmo um termo que abarca esse tipo específico de violência: gaslighting, forma de abuso psicológico no qual informações são manipuladas ou omitidas de modo a favorecer o abusador. Nessa forma de violência psicológica a vítima é desacreditada de tal modo que pareça ao olhos de terceiros, uma louca. Muitas vezes, em razão dessas artimanhas, a vítima chega até a duvidar de si mesma.

Retirado o verniz de uma falsa cordialidade, o machismo e misoginia vendidos cotidianamente nas bancas de revista e programas de TV não se envergonham de mostrar dentes e garras, tampouco de explorar a violência contra a mulher para vender o projeto golpista arregimentado pela direita brasileira. O acirramento das polaridades que tomaram conta do país em torno do mandato da Presidenta da República Dilma Roussef expõe de forma inequívoca o ódio e desrespeito generalizado contra a mulher. Todas as mulheres que já ouviram um “Você está louca” estão caricaturadas nas páginas da Istoé. Todas as mulheres silenciadas por um “Assim não dá pra falar com você” estão novamente violentadas pela páginas da revista. Não por acaso, a autoria da capa do semanário é de uma mulher. Ora, como perpetuar o preconceito e a violência senão aliciando pessoas com pouco entendimento de mundo? Sim, infelizmente a quantidade de jornalistas homens e mulheres padecendo de analfabetismo ético e político chega a ser assustadora.

Dilma Roussef, cujo nome é pronunciado em varandas nobres e gourmet país afora com xingamentos como “vaca”, “piranha”, “puta”, é a nova Geni do Brasil. Quem lembra de Geni aliás, aquela “rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos”? A hipocrisia vestida de brim e cheirando a cobre está aí, a descoberto. E é isso que ela diz sobre certo Brasil de gente de bem.

micheliny

Foto da vitrine: mulherescontraogolpe,.tumblr.com

7 comentários sobre “Sobre Marias, Dilmas, Genis. Por Micheliny Verunschk

  1. Glaslight é um filme de 1944, de George Cukor, um diretor com um olhar interessante sobre as mulheres. Nele, a personagem de Ingrid Bergman é vítima de seu interesseiro marido, interpretado por Charles Boyer, que a faz duvidar de sua sanidade…

  2. Pingback: LEITURA RECOMENDADA | Alberto Villas

  3. Quando vejo a maneira como a sociedade em geral se comporta em relação a nossa presidenta e vejo que mesmo as mulheres participam desde linchamento, como exemplo posso citar uma que se diz jornalista (Eliane Castanhede), passo a acreditar que a sociedade precisa de um choque que a acorde para a realidade, que a faça enxergar a mesquinhez do ser humano, acredito que seja necessário um órgão regulador para a mídia em geral, como existem CRMs, CROs e CREs, mas não com a função de proteger seus filiados como eles o fazem, mas de regular dentro de um conjunto de normas destinadas aos meios de comunicação em geral. NÃO AO GOLPE.

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