Coluna 57: Eu e o Chico. Por Lucimar Mutarelli

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Tem famílias que não conversam entre si

Não tem diálogos

Em outras, todos querem falar ao mesmo tempo e um mais alto que o outro

Nos dois casos, as duas não se escutam

Então, não adianta nada o que a gente fala ou, como se, no final das contas nada será realmente lido ou escrito ou verdadeiramente compreendido porque família é sorte, é acaso. Você colhe aquilo que foi plantado. Como diz um dos meus autores preferidos, Lourenço Mutarelli: tá na bíblia

E se está na bíblia, é sagrado

A bíblia é um livro escrito por um homem (ou vários)

A idolatria pelo Chico vai muito além dos olhos azuis. Não está na cara. É um amor e um respeito profundos

Falei isso para o meu marido e ele lembrou que citou Construção no livro O cheiro do ralo

Tudo isso pra falar da primeira vez que eu ouvi Geni e o Zepelim. Lembro de ler num livro primeiro. Talvez na Gramática do Faraco e Moura, na parte dedicada a Literatura Brasileira Contemporânea

O Lourenço sempre fala do preconceito que sofreu por ter vindo dos quadrinhos e o Chico por ter, praticamente, abandonado a música para se dedicar a literatura

Do Mutarelli, gosto tanto dos quadrinhos quanto dos livros mas, se eu fosse obrigada a escolher uma das duas linguagens, eu não conseguiria porque a literatura do Lourenço só existe justamente porque ele veio dos quadrinhos

O irmão alemão do Chico é tão maravilhoso porque eu reconheço o músico aqui também. Porque eu era apaixonada pelas letras das músicas e não me reconhecia nos livros

Engraçado que no Lourenço eu não prestava atenção nos desenhos e no Chico, lia primeiro as letras. Os desenhos e as melodias eram ornamentos para a palavra

Já contei que tenho uma irmã alemã. Pretendo busca-la e a família não deixa. Estou em cima do muro, não sentada. Ando em linha sinuosa

50% capitalista, 50% comunista, 50% anarquista, parlamentarista e monarquista

Essa conta não vai fechar nunca

Não bate

Queria contar a raiva que eu fiquei quando o Glauco Mattoso pediu que eu lesse Bola de Sebo do Guy de Maupassant

– Por que ele não deu crédito?

Porque não precisa. Escritor é assim mesmo. Vai comendo tudo e digerindo. Transformando em outra coisa

A gente só guarda pra gente o que precisa. O resto vira bosta e até a bosta serve para adubo (mais uma que eu aprendi no face)

Desculpa, Chico, ter ficado com tanta raiva e ter me distanciado de você

A gente não se entende porque é igual

Precisamos do olhar do outro, o diferente, o estranho, o estrangeiro

Peço ajuda ao dicionário analógico para decifrar as suas pistas, crio minhocas na cabeça e desconfio até que você anda me seguindo no facebook porque tem muitas frases nesse livro que você escreveu pra mim

Até meu filho se chama Francisco mas não foi por sua causa. Foi por causa dos Mutarelli. O Velho Chico, filho do Lorenzo que veio da Itália

São Francisco lindo protetor dos animais e da verdadeira humildade

“ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça”

Seu filho, Mercúrio, alma gêmea. Unidos pelo sangue e pelas figurinhas que ele só troca com você e Lourencinho. Trio. Ternura. Na Jovem Guarda era assim

O sangue vermelho na capa. Doze letras do título + doze letras do seu nome. Coincidência, ensina meu filho

“Velho Chico vem de Minas” canta Caetano

Lembrei na hora do meu pai ouvindo Chico Mineiro e eu lendo Chico Bento para o meu filho “no tapete da sala de estar”. Fabio Junior cantando na novela da minha mãe, mais histórias

Muito pai

Muito filho

Todo Chico

Todo Francisco

Vou tatuar o seu nome mas não vou compartilhar com todo mundo

Não sou tão espontânea e disponível como você pensa

Amigos que a gente perde

“Te perdoo por te trair”

“te vejo sumir por aí”

Em 1989 eu fui no show do Palace. No final, quando você voltou para o bis, começaram os acordes de “Vai passar”. Eu olhei para os lados e vi aquele monte de segurança. Me ajoelhei embaixo das mesas e saí na sua direção. Cheguei na frente do palco. Subi e dancei a última música com você. 20 anos depois vivendo mais uma crise financeira, meu irmão Hermes liga para dar uma força e conta que viu um personagem que usava um bilhete no bolso para os momentos ruins e os bons que vivia. Em ambos, ele tirava o papel e estava escrito a mesma coisa “Vai passar”

2012 – Francisco, do Rio, mandou de presente. Sentei na sua frente e você sorriu

Amor platônico, antigo, unilateral

“Deus lhe pague”

Com graça, “açúcar e afeto”

Talvez o Chico Buarque nem exista

Foi inventado para salvar nosso cotidiano

“todo dia”

Eu e meu pai trocávamos as histórias contidas nas músicas. Ele conseguia me tocar com Lourenço e Lourival e Liu e Léo. Eu não consegui passar nada além do Almir Sater. Chico e Caetano ele não digeria. Talvez Geni e o Zepelin ele tenha prestado um pouco de atenção mas logo seus ouvidos voltavam para as modas de viola

A gente não tinha muito assunto. Só trocamos as figurinhas de letra e música

Falamos pouco e ouvimos muito

Você nem é meu amigo e muito menos da minha família mas sigo prestando atenção

Devolvo com palavras, sem conhecimento da harmonia ou melodia

No final, a gente se entende assim mesmo

“todo dia”
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Confira as colunas anteriores da Lucimar Mutarelli

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