Livre Opinião: Nosso tempo

Esse é tempo de partido, / tempo de homens partidos. / Em vão percorremos volumes, / viajamos e nos colorimos. / A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. / Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. / As leis não bastam. Os lírios não nascem / da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se / na pedra.

Os versos drummondianos são do começo de Nosso Tempo, fragmentos que deviam ser espalhados na Esplanada. Aos políticos que forçaram gravar erroneamente os seus nomes nas pedras. Aos que engrossaram o caldo azedo da palavra “sim”. Haja onda forte para apagá-los e se tornarem grãos de areia do tempo.

Ressaca constitucional de um domingo ébrio anti-democrático. O porre torto da história. O coração aperta. A geração diante de um golpe. De nada adiantou colhermos relatos em aulas, documentários e reportagens. Nos foram apresentadas provas de violência, tortura e morte. Mas ainda querem nos jogar nas trevas.  E ficamos impotentes. Como chuva que desce no vidro da janela do lado de fora. Nós, daqui de dentro, não conseguimos tocar.

O país parou para ver um processo ser presidido por um réu. Por um “gangster”. Boca cínica disfarçada de heroísmo, Eduardo Cunha provou ser o político, e pessoa, mais deplorável para resolver o tal problema do Brasil, metralhada pela oposição e imprensa por anos. Assistimos ao espetáculo da hipocrisia que exaltou a tradição, família e religião em um culto fadado ao futuro do obscurantismo. Um golpe parlamentar que está quase atravessando a ponte da amizade para abraçar a história recente do vizinho Paraguai.

O golpe vindo a galope, que ninguém engole. Os deputados, pomposos, lacinho verde e amarelo na lapela, na testa, no bolso. Envolvidos em bandeiras, ditando ordens e progressos. Um véu indigno de moralidade. Justificavam seus votos ao um ser invisível. Não respeitavam oposição, vaiavam deputadas. A votação se tornou um ponto de machismo e homofobia e, o mais baixo que se podia chegar, a louvação a um torturador e aos militares do golpe de 1964. O banheiro fica logo ali. Cuidado para não vomitar fora da privada. O desgosto. O retrógrado. O estado deplorável aplaudido pela maioria de seus pares.

Onde não há diabo, deus faz o baile. Instaurado o impeachment, somos entregues a voz de Eduardo Cunha esfaqueando o fígado da democracia. Ditou as regras de um golpe no queixo da população. Estamos no chão escutando a contagem do juiz. Mas, com os cotovelos, levantamos e enfrentamos mais um round. Não se quer governo Temer. Não se quer impunidade para Cunha. O tapete é muito grande para eles varrerem os seus lixos embaixo. Justiça unilateral onde o epicentro é Curitiba. O juiz midiático que fecha os olhos para tucano voar. Isto é o que não se deseja em nosso tempo.

2016 desenhando 1964 e querendo pintar as caras de 1992. A história se reproduz em tela e impresso. Mas este é o nosso tempo. Tempo de unir a cultura. Esta escolha que muitos tiveram para expressarem as suas indignações e na tentativa de lutar pela a democracia. Nosso tempo de poesia e prosa. Tempo de Sarau do Binho. Tempo de Cooperifa. Nosso tempo de Daniel Minchoni e Sarau do Burro. Tempos de Waldo Motta e Wladimir Cazé. Nosso tempo de Suzano com Sacolinha. Tempo de Kaio Bruno. Das Clarianas. Nosso tempo de Débora Arruda e Carina Vitral. Marcelino Freire. Ricardo Alexo. Tempos nossos de mãos dadas com Paulo Lins. Ferréz e Capão. Tempo preciso de volêi no muro criado para separar ideologias. Tempo de Elizeu. De Maria e Valéria Rezende. Tempo de Marcelo Flecha. Xico Sá e Luiza Romão. Universidades. Este é o nosso tempo, O poeta / declina de toda responsabilidade / na marcha do mundo capitalista / e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas / prometa ajudar a destruí-lo / como uma pedreira, uma floresta / um verme.

jorge-filholini2

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