Santiago Santos: Coreografia anti-corrupção

62a74990-b824-478a-b91b-1e5c5c64f32f

Manifestação de domingo é o caralho. Quer se manifestar contra a corrupção não tem que se meter na avenida com caixinha de som e camisa da seleção, tem que ocupar as principais vias nos dias de semana, fazer cara feia pra jornalista, balançar ônibus, erguer bandeirola como quem ergue espada, se for necessário cortar a mão pra lambuzar de sangue a cara de quem tá ali de passagem achando bonitinho aquele ajuntamento de gente.

Por isso quando eu tava no térreo esperando o elevador e a Marcela, vizinha do andar de baixo, chegou com um saco de pão de francês perguntando se eu ia na manifestação domingo, só dei uma risadinha de canto de boca e falei “coisa de babaca eu passo”. Ela ficou puta e soltou “é por causa de pessoas como você que o Brasil tá essa merda”. Na hora a gente não pensa nas coisas certas pra falar, e só mais tarde lembrei do primeiro churrasco que teve no condomínio e ela me perguntou se eu tinha feito gato no apê que ela queria fazer no dela.

Aquilo me incomodou. Fiquei atarantada, mastigando ódio igual bolacha, perambulando pelo apartamento, ameaçando descer lá e falar umas verdades. Fui mandando ver numas Brahmas que o Breno deixou aqui. Difícil de acreditar que nem mesmo um pornozinho me tirou aquela porra da cabeça.

Bem cedo eu desci no estacionamento ignorando o cheiro de merda da fossa, que ainda não tinham arrumado, e fiquei esperando a Marcela descer pra ir pro trabalho. Aí lembrei que era sábado e ela não ia descer. Peguei o elevador e bati na porta. A quenga atendeu toda animada, devia tá esperando alguém.

– Opa, Bruna. Que manda?

– Mando você tomar no cu, filha da puta. Achando que ir na manifestação conserta tuas merdas e te dá o direito de apontar dedo na cara dos outros. Tu é muito cara de pau.

– Do que cê tá falando?

– Da porra do gato que tu fez no apê. E aí vem falar contra a corrupção, sua babaca.

– Depois que cê tomar uma ducha fria pra curar essa birrinha cê volta aqui, beleza?

A birrinha ela sentiu no meio da fuça, o murro foi tão forte que caiu e se encolheu. Eu me desequilibrei, tropecei nela e me estatelei no meio da sala. Quando olhei pra TV vi que tava pausado num vídeo do YouTube chamado “Coreografia Anti-Corrupção”. Dei o play ignorando os gemidos. Alguns segundos bastarem pra ver a que nível chegamos. Voltei pro meu apê. Tomei mesmo uma ducha gelada, pra acalmar os nervos.

Liguei pro Breno e perguntei se ele não queria pegar um cineminha à noite, uma pizza. Ele disse que não podia que amanhã ia acordar bem cedo pra manifestação. Mandei ele tomar no cu dele e liguei pro Romero, que era burrinho e interesseiro mas tinha uma bunda que era um pão.

santiago santos

Drop originalmente publicado no Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s