CRÔNICAS SEM FILTRO: Cotidiano, por Marina Filizola

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Minha semana é embaralhada. Labiríntica. Indelineável. Segunda tem que pegar-no-tranco. Pega. Não-pega. Olha mas não encosta, segunda é uma frescura só. Dia de pagar conta, mas a fila intragável do banco e a caixa descorçoada com postura-corcova amortecida em extratos rançosos num saldo gordo de má-vontade, emplastra o movimento procrastinante e habitué do “talvez eu faça“ pra “não-vou-fazer-nem-fodendo”. Segunda vira eu-faço-na-terça talvez-na-quarta talveznem-faça, fodasse.
 
Cortar nicotina na segunda-feira é lenda. Segunda pede maço vermelho sem filtro acendido um na brasa do outro, e é sempre segunda a porcaria da promessa e nem sei mais porque prometo se sou tão mentirosa quanto mais mentirosa mais eu fumo mais prometo mais odeio segunda. A matrícula da academia amarfanhada no bolso de alguma calça que não-sei-onde nem desdequando daquele mês que não tenho a mínima idéia, enfiei na joça da cabeça “bunda-dura tônus-muscular barriga-chapada”, no bolso a matrícula dando rolê pela cidade fui dormir com consciência tonificada e corpo de gelatina atropelada de um buffet-engulho a lá tortura com lembrancinhas flambadas em náusea. Detesto buffet mas adoro gelatina. Que fase.
 
A dieta que não começa nunca. Segunda é “muito em cima” terça “era pra ser ontem” quarta desnorteada no meio do Deus-nos-acuda e quarta nada começa nem termina, a responsa fica pra quinta e quinta é balada-cachaça-fritura-boquete-ressaca e sexta aquilo: o peso todo de tudo que não deu certo e nada deu certo mesmo. É dia de repensar a vida e dormir cedo. Segunda desemborca as mentiras todas. Sexta tão longe da segunda-nojenta e suas 32 horas que não passam.
 
O amor de segunda é diferente de quinta. Segunda ninguém é gente, ninguém trepa com vontade depois de um domingo que termina em pizza e pizza não digere em 24hs. Você só caga a pizza de domingo na terça de manhã. Segunda acumula o fim de semana, a gente reza faz promessa acende vela corta açúcar amarra escapulário grifa calendário, esquece tudo na terçafeira.
 
Ok!
 
Terça é a ressaca-moral da segunda. Uma mistura gloriosa de náusea desgosto entontecimento peso e ânsia. Segunda-feira dilatada, que prorrogou a dieta que nunca vai acontecer na puta desta vida, que triplicou a vontade de fumar e barganhou filtro branco pra maço vermelho. Terça é a lembrança avinagrada de juros-fermentados do boleto amargo que devia ser pago ontem. É uma vétebra débil que escorregou da coluna cervical e esmagulha um nervo desorientado, hóspede-fixo a repuxar a nuca até o tendão do pé sem-dó, aquele incômodo contínuo que é pior que a morte que não te deixa em paz mas também não mata. Terça é “hoje vou até a academia custe o que custar” é dia de se olhar no espelho sem-censura sem-pieguice sem-covardia pra se preparar pro happy-hour de quarta. É quando começa algum tipo de movimento interno que estava absolutamente congelado na sorumbática e macambúzia segundafeira do “deixa tudo pra terça”. Daí a pessoa passa o dia estacionada na mesma tecla emperrada do “terça vai ser diferente” e terça é só uma vontade gorda de ser uma pessoa que você não é. Repara crítica no dente carunchento de nicotina encrostada e cogita firme a possibilidade do clareamento em aniquilar o cigarro, na agonia já acende mais um, quando você vê terça acabou nada saiu do lugar você não parou de fumar nem começou a porra da academia, jogou as contas de segunda pra quarta e além de tudo dorme sem trepar que terça as pessoas se subtraem em seu canto, e se estreitam a seres-medianos chatos entristecidos e cansados da semana que nem começou.
 
Quarta-feira.
 
Quarta-feira suja. É dia de pagar-penitências, de se exorcizar na base da gandaia pra desemperrar tudo que está atravancado. Comemora-se na quarta-quiprocó a chegada de uma possível quinta bem-sucedida pra se livrar da auto-penitência da segunda que prorroga tudo pra terça e desemboca na quarta da auto-premiação, o pódium emocional do “já estamos na metade, hoje merece”. Quarta é quarta à noite porque amanhã já é quinta e quinta é pé na sexta nada mais além disso. É Cuspe à distância shot de cachaça arroto-molhado tapa-na-testa copo quebrado farinha-transgênica entra e sai do banheiro carreira na tampa do vaso, brincadeira básica com prêmio de consolação deteriorado e destituído: “depois-de-amanhâ-é-sexta, que-se foda!”. Quarta já foi meio termo. Entre a segunda detestável e a sexta-miragem que não chega nunca. Agora aguenta. Foda né? Mais ou menos, Quarta tá sempre no meio, fodinha mal-dada. Esperando a Quinta corta-libido, o dia da semana mais esquisito. Tá longe da Segunda e ainda guarda o revertério de Terça. Quarta já é metade, calma. Quase-Sexta. Quase-Terça. Quase tranquilo. Quase.
 
Quinta-feira. Quinta corta-libido mesmo. É o que se espera depois de uma quarta-feira imunda. Fora os cuspes na calçada a dor-de-cabeça aferroante as vias respiratórias acimentadas de rejunte químico e a noite virada do avesso o que torna quinta uma continuação eterna de quarta, tudo deu certo: sexta é logo amanhã. Sim, a semana está acabando. A conta de segunda não foi paga-fodasse, academia é um tópico impensável logo substituído pela possibilidade conveniente de se internar numa sauna-a-vapor até esterilizar as vias condutoras de pó transgênico e liberar as placas de fuligem coaguladas que enraizaram no pulmão sem-elasticidade na quarta à noite do “eu devia ter ficado em casa, juro, que merda”.
 
Quinta feira não se fuma nunca-mais até sexta, trata-se de um dia glorioso que estava pra acontecer desde segunda. Ressaca de cigarro é a morte é “nunca mais fumo até sexta hora do almoço”. Quinta prometia tranquilidade mas a campainha-maldita se esganiça avisando que lá vem novidade: o pinto-de-plantão o foda-fixa ou pica-delivery aparece sem avisar sem saber da ressaca, da segunda da terça e da quarta, o coitado não tinha culpa, queria meter-trepar-lamberchupar-fuder-enfiar de graça, e aquele buraco ainda não estava entupido, então nem preciso dizer: meu café da manhã não foi pão francês. Foi tapa.D e l í c i a. Quinta sadomasoquista. O amor tocou a campainha na hora de se estrepar e fui junto. Com ressaca e tudo. O cigarro que só retornaria ao enredo na sexta no almoço adiantou 12 horas o serviço e nem isso consigo fazer. Minhas promessas não duram dez minutos. Quinta termina assim: vias entupidas xoxota assada e rabo sem pregas. Nessas horas não sei se reclamar seria justo. Além de tudo amanhã é sexta e sexta é sábado e sábado posso dormir até. Quinta-feira á noite, baseado cochado nas coxas e cama. Só na quinta cabe maconha.
 
Porque maconha atrasa a vida.
É o que dizem. Sexta-feira.
 
Quer dizer, graças a Deus. Não tem santo que não espere a sexta que nunca chega. Embaço puro. Tem semana que não passa. Se arrasta. Segunda pega-no-tranco mergulha na terçaholocausto e desemboca na apoteótica quarta feira do Deus-me-livre. E Deus quase livrou, deu uma olhada de leve e saiu de escanteio pra trocar idéia com São Pedro. Deu área. A semana já tava no meio e veio a quinta com aquela cara de paisagem que todo mundo já sabe. Nessa hora Deus vira Jesus Cristo, apareceu maquiado pra dar um ‘touch’ escandalizado, aquele drink de quinta à noite virou um puta baseado. Que depois virou uma ponta ridícula pra lembrar na feliz sexta do graças-a-Deus, que tem uma bolha horrorosa no meio do seu dedo. Sábado a tática tem que ser outra: pedi pra Deus dar um tempo, maquiagem pareceu viadagem. Domingo a gente conversa, a bolha ainda arde. A quinta insiste em ficar. Sexta é antipática. É uma nostálgica “semana que vem tá aí”. A perspectiva dela é o sábado. E sábado nunca se sabe. Sexta sobra a sequela da semana inteira, o resto de tudo o que destilou da canseira. Segunda-feira embaçopuro, a prostrada-terça da consideração, atropelados pela quarta feira medíocre e sofrível do sejao-que-deus-quiser, quinta a gente tá com o pé na sexta e sexta aquilo: sobra a capa do esqueleto chamuscada de lombeira prego e exaustão. Sexta o sono profundo e profano. Fim de noite jogando star-wars, na mão o copo morno de whisky meia-hora dosagem-medicinal, realiza o combate.Tomei um puta pau. Não conquistei a África a Oceania parecia mais amarela e a Ásia, um mundo à parte. Toda sexta o olho gruda com hora marcada. Sábado vai ser apoteótico levantar. Ainda sem conquistar o mundo. É, não tá fácil pra ninguém. O tabuleiro a tensão a exaustão, o mundo nunca pareceu tão aporrinhante. Travada do cóccix até o pescoço, Elza Soares esganiçando suas verdades conclamadas, apregoando no dorso da gente aquele timbre que não solta nunca mais. Nem na joça do jogo eu ganho. Já lembrando que domingo tá logo ali, ascoso-hediondo-nauseante-engulhoso. Detesto. Pelo menos sexta vai escoando. Sábado é silêncio cama filme vibra-call e off-line. Sábado a gente respeita que não tem mais vinte anos não tem nem mais trinta e precisa se recuperar pra semana que vem porque tudo vai ser diferente na semana que vai entrar.
 
E daí chega o glorioso domingo. O dia que significa “amanhã é segunda, se fudeu”.
O resto eu não preciso dizer.
marinafilizola

3 comentários sobre “CRÔNICAS SEM FILTRO: Cotidiano, por Marina Filizola

  1. Segunda-feira é foda, a semana deveria começar na terça, mas assim, transformariamos a terça numa segunda, empurramos a semana até aqui, porque sexta é o melhor dia da semana…

  2. O foda é saber que eu sou exatamente assim, que as promessas não duram 10 min. Que toda semana é diferente, sempre quero mudar, mas nunca “consigo” mudar, ainda nao sei de qual especie de ser humano eu pertenço! Ah, acabei de ouvir um “Hoje é sexta!!!Pode tudo”….

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