Julio Cortázar aborda a arte de escrever em ‘Diário de Andrés Fava’

6e5a08c3-e847-4a3f-9c82-6b1af62d612aO argentino Julio Cortázar foi um dos escritores mais cultuados do século 20 e deixou como legado uma obra inovadora, que mudou a forma de se fazer literatura na América Latina. Em 2014, em meio às comemorações do centenário de nascimento do autor, a editora Civilização Brasileira começou a lançar novas edições de suas obras – que ganharam capas e projetos gráficos mais modernos. Desde então, chegaram às livrarias títulos como Bestiário, Final do jogo, Os reis e outros – alguns deles esgotados há muitos anos. Neste início de 2016, dando continuidade à iniciativa, passam a integrar a coleção também Diário de Andrés Fava, escrito em 1950.

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Escrito em 1950, este livro foi concebido como parte da obra El examen, que tem Andrés Fava como um dos protagonistas. O Diário foi excluído do corpo do romance, mas conservado pelo autor e depois publicado separadamente. É composto por pequenas observações, anedotas, relatos breves e diálogos, formando o que o próprio Cortázar chamaria de “miscelânea” – como ele denominava livros comoHistórias de cronópios e de famas e A volta ao dia em 80 mundos. No texto, ao mesmo tempo complexo e de uma leveza exemplar, encontramos um artista preocupado com a linguagem e seus limites.

O livro é contruído de forma concisa, dando diversidade nos pensamentos espassos de Andrés – diários têm esse formato. Cortázar, por meio de Andrés Fava, faz reflexões, influências, dialoga, cita sobre o seu processo criativo que permeiou toda a carreira literária. “Chega sempre um determinado momento em que a geração descobre o que se passou com a precedente” (p. 73). No texto, há citações de diversos entusiasta da literatura. “Hoje a minha geração come, fala e escreve nos mesmos círculos frequentados por Mallea, Borges, Victoria e Molinari. Amanhã, os garotos que esta tarde saem da aula do ginásio trocando socos, entusiasmos e ternura de cães chegarão até nós  de igual para igual”.

A desorganização do pensamento de Andrés é misterioso. Ele transporta o leitor em diversos monólogos que conversa com a Filosofia, Literatura, Música e outros segmentos culturais. Em certa conversa, Andrés faz uma longa reflexão sobre um concerto: “Eis como vejo o concerto: o violino deixa-se levar por Heifetz, e repousa no queixo e na mão do criado. O criado realiza os movimentos necessários para que o violino produza o seus sons”.

Em Diário de Andrés Fava, Cortázar brinca com os gêneros literários e suas categorizações. É um livro livre de qualquer narrativa e construção clássica – algo que o autor faria com maestria no decorrer de sua carreira. A liberdade da literatura deixar os pensamentos e personagens para dialogarem com os leitores. “Necessitade de sair à rua. Livre, absolutamente livre, fora de mimmesmo”. Não há motivo de encerrar a história, assim como a vida real, onde não existe o saber de quando a vida termina. E para Andrés Fava é igual. E o fim do livro continua, mas as folhas do diário acabaram e o persoangem volta a rotina: “Ora, um banho, e pronto. Termina o papel, e no entanto”.

★★★

Diário de Andrés Fava

Julio Cortázar
Tradução de Mario Pontes
128 páginas
R$ 29,90
Editora Civilização Brasileira (Grupo Editorial Record)
record

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